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Bula AchadosTelevisão e vida doméstica

Na amostra de 111 novelas examinada por três economistas, 62,2% das protagonistas não tinham filhos. Outras 19,8% tinham apenas um. Havia, portanto, uma diferença considerável entre as famílias que se reuniam diante do aparelho e as que apareciam do outro lado da tela. É um detalhe fácil de perder enquanto se acompanha uma traição ou se espera que alguém descubra a identidade do próprio pai. Para aquela pesquisa, porém, o detalhe era central.

Eliana La Ferrara, Alberto Chong e Suzanne Duryea investigaram se as novelas da Globo tinham contribuído para reduzir a fecundidade no Brasil. O trabalho saiu em 2012 na revista “American Economic Journal: Applied Economics”. A hipótese tinha algo de desconcertante. Uma decisão tão íntima quanto ter outro filho poderia receber um pequeno empurrão de personagens que, a rigor, não existiam.

O país estava mudando depressa. Segundo os números do Censo divulgados pelo IBGE, a taxa de fecundidade passou de 5,8 filhos por mulher em 1970 para 2,9 em 1991. Era uma redução pela metade em pouco mais de duas décadas. Esse indicador expressa quantos filhos uma mulher teria ao longo da vida reprodutiva se permanecessem as taxas de fecundidade observadas naquele período. Não é a contagem dos filhos de cada brasileira.

Colocar a expansão da televisão ao lado dessa queda seria insuficiente. As duas coisas poderiam acompanhar outras mudanças, sem que uma tivesse interferido na outra. Os pesquisadores aproveitaram as diferentes datas de chegada do sinal da Globo e, com o Censo de 1991, reconstruíram nascimentos entre 1979 e 1991. A comparação levou em conta características das mulheres, dos domicílios e das localidades.

Na estimativa central do artigo, a presença do sinal esteve associada a uma redução de aproximadamente 0,5 ponto percentual na probabilidade anual de uma mulher ter um filho. Parece pouco quando se lê depressa. Mas a medida diz respeito a um acontecimento anual e é uma estimativa para o conjunto observado. Ela não prevê o tamanho da família de uma espectadora individual.

O efeito apareceu com mais força entre mulheres de menor escolaridade e famílias com menos recursos. Também se concentrou nas fases intermediária e final da vida reprodutiva. Segundo a interpretação dos autores, o padrão sugere influência sobre a decisão de parar de ter filhos. Adiar a primeira gravidez seria outra história, com consequências e escolhas diferentes.

A família pequena da ficção podia funcionar como uma possibilidade visível. Uma mulher já ocupada com filhos, trabalho e contas não precisava tomar a heroína como conselheira para perceber que havia outros arranjos domésticos. Essa é uma interpretação do mecanismo, evidentemente. A pesquisa não entrou na sala de cada espectadora para ouvir a conversa que ela teve com o marido depois do capítulo.

Há também uma questão de construção dramática que merece atenção. Ter poucos filhos deixa a personagem mais disponível para as exigências do enredo. Quem escreve pode precisar dela no trabalho, numa viagem, num encontro que não deveria acontecer. O espectador recebe a vida que foi selecionada para caber na história, com suas omissões e conveniências. A repetição torna familiar uma escolha que talvez tenha começado como simples economia de personagens.

Os autores procuraram indícios de que o conteúdo das novelas participava do efeito. A relação com a queda dos nascimentos era mais forte depois de tramas de ascensão social e quando a idade da espectadora se aproximava da idade da protagonista. A identificação com aquela mulher parecia contar. O resultado ajuda a dar alguma precisão à ideia vaga de que a televisão influencia comportamentos.

Outra pista veio dos nomes das crianças. Nas áreas alcançadas pela Globo, era mais comum encontrar, entre os nomes mais populares dos recém-nascidos, nomes de personagens das novelas exibidas no ano do nascimento. Esse achado não demonstra, sozinho, nada sobre o número de filhos. Mostra, porém, uma decisão familiar concreta em que a ficção deixava uma marca verificável.

Seria cômodo entregar à Globo a autoria de toda a transformação demográfica. Educação, acesso a contraceptivos e mudanças nas condições de vida também participam dessa história. O interesse do estudo está em acrescentar um fator que costuma ficar de fora das explicações mais solenes. Entre tantas decisões tomadas numa casa, algumas podem incluir, sem convocação nem voto formal, aquela mulher vista todas as noites na televisão.

E, quando havia um novo filho, podia sobrar para ele o nome de alguém que a família conhecia muito bem, embora nunca tivesse encontrado.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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