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Bula AchadosLiteratura sob censura

Os livros estavam em perfeito estado. Quem fez questão de registrar isso foi a comissão encarregada de queimá-los. A observação aparece no termo de incineração publicado pelo jornal “Estado da Bahia” em 17 de dezembro de 1937, quase um mês depois da fogueira. Os volumes tinham sido recolhidos nas livrarias Editora Baiana, Catilina e Souza, em Salvador. Nada de papel imprestável ou estoque estragado. Eram livros que ainda podiam encontrar leitores.

A queima aconteceu em 19 de novembro, diante da Escola de Aprendizes Marinheiros. Nove dias antes, Getúlio Vargas havia dado o golpe que instaurou o Estado Novo. Entre os exemplares destruídos estavam 808 de “Capitães da Areia”, lançado naquele mesmo ano. O romance sobre meninos abandonados mal começara a circular e já recebia do poder público um tratamento reservado a coisas perigosas.

O documento atribui a ordem verbal ao coronel Antônio Fernandes Dantas, comandante da 6ª Região Militar. Uma comissão com representantes do Exército, da Marinha e da polícia estadual acompanhou o cumprimento. A classificação usada para os livros dispensava qualquer discussão sobre personagens, linguagem ou qualidade literária. Eram “simpatizantes do credo comunista”. Cabia bastante coisa nessa expressão.

A relação transcrita no ensaio “Leitura e cidadania”, de Eduardo de Assis Duarte, discrimina seis títulos de Jorge Amado. Além de “Capitães da Areia”, são 267 exemplares de “Jubiabá”, 223 de “Mar Morto”, 214 de “O País do Carnaval”, 93 de “Suor” e 89 de “Cacau”. A soma dá 1.694 volumes do escritor. É importante preservar o complemento, porque havia outros autores na fogueira, entre eles José Lins do Rego. Confundir esse subtotal com o conjunto apaga parte da própria história que se pretende recuperar.

A contagem da destruição1.694exemplaresSeis títulos de Jorge Amado na relação de livros queimados em Salvador.
Exemplares de seis livros de Jorge Amado queimados em Salvador“Capitães da Areia”, 808; “Jubiabá”, 267; “Mar Morto”, 223; “O País do Carnaval”, 214; “Suor”, 93; “Cacau”, 89. Total de 1694 exemplares. As barras usam a mesma escala.“Capitães da Areia”808“Jubiabá”267“Mar Morto”223“O País do Carnaval”214“Suor”93“Cacau”89
19 de novembro de 1937Salvador, BahiaRegistro publicado em 17 de dezembro
O que essa soma inclui

Os 1.694 exemplares correspondem apenas aos seis livros de Jorge Amado enumerados na transcrição da ata reproduzida por Eduardo de Assis Duarte. Outros autores também foram atingidos. As barras comparam quantidades de exemplares, não títulos diferentes.

Amado tinha 25 anos. Seus romances já tratavam de trabalhadores, pobreza e exploração, e sua militância comunista tornava o escritor um alvo evidente da repressão. Mas a singularidade de “Capitães da Areia” estava no modo como aproximava o leitor de personagens que a cidade preferia conhecer pela descrição de seus delitos. A polícia podia reuni-los numa categoria. O romance lhes dava diferenças.

Pedro Bala, Professor, Pirulito, Sem-Pernas. Os apelidos não designam figuras intercambiáveis. Cada menino tem seus desejos, seus medos, sua maneira de sobreviver no trapiche abandonado de Salvador. A solidariedade entre eles convive com a violência que praticam e com a que sofrem. O livro não precisa transformar todos em inocentes para mostrar quanto há de cômodo na disposição dos adultos de tratá-los apenas como criminosos.

A disputa começa antes mesmo da narrativa principal. Amado abre o romance com uma reportagem e cartas fictícias, nas quais autoridades discutem a responsabilidade pelos meninos. O chefe de polícia remete o problema ao juiz de menores. O juiz explica os limites de sua função. Uma mãe denuncia os castigos do reformatório, e um padre confirma seu relato. A eficiência com que cada autoridade delimita as próprias obrigações contrasta com a vida das crianças que ficam do lado de fora.

Essa montagem merece atenção porque o romance já põe sob suspeita a linguagem oficial que pretende explicar a cidade. Há uma diferença entre o documento real da queima e os documentos inventados pelo escritor, evidentemente. Mas a leitura dos dois permite perceber o conflito. No livro, as versões respeitáveis encontram quem as conteste. Na ata, a classificação política vem acompanhada da providência tomada.

A perseguição tampouco começara com aquela fogueira. No discurso de recepção a Jorge Amado na Academia Brasileira de Letras, Raimundo Magalhães Júnior recordou a tentativa de impedir a venda de “Cacau”, em 1933. Segundo o relato, a intervenção de Osvaldo Aranha evitou a apreensão. Quatro anos antes de mandar queimar livros do escritor, o aparelho policial já se interessava por retirá-los das livrarias.

O mesmo discurso, pronunciado quando Amado ingressou na Academia, em 1961, voltou ao destino de “Capitães da Areia”. O livro que saíra pela José Olympio em 1937 aparecia ali como parte da trajetória de um romancista consagrado. A mudança de lugar é expressiva, mas não devolve os exemplares destruídos nem elimina os anos de perseguição. A sobrevivência de uma obra não torna inofensiva a tentativa de fazê-la desaparecer.

Também sobreviveu o registro de quem acendeu a fogueira. Há data, lugar, cadeia de comando, títulos e quantidades. E há aquela observação sobre o estado de conservação dos volumes, feita pelas próprias pessoas que os destruíram. Na hora de prestar contas, tiveram o cuidado de informar que os livros não apresentavam defeito.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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