Quanto mais se ganha, mais se tem a perder. Nunca há garantia o bastante de que fortunas colossais não derretam de um minuto para o outro e a magia se desvaneça para sempre, e por isso é que endinheirados e suas camarilhas rodeiam-nos, primando pela sutileza, mas também sabendo projetar suas garras quando necessário, dando conta de virtuais predadores antes que a ingênua patuleia consiga perceber. Em 2022, o número de milionários em dólares em todo o mundo caiu em 3,5 milhões, segundo o relatório global de riqueza do UBS e do Credit Suisse. Um certo Leandro Alfonso Vicente Carlos Ventura de Alborada é um desses infelizes, ainda digerindo sua tragédia e tentando uma volta por cima, por mais improvável que soe. Leandro Ventura, o marquês de Monsalvos, narra essa verdadeira epopeia pela dura vida real sem realeza na meia dúzia de episódios de “O Aristocrata Decadente”, causando dó e riso. A direção de Álvaro Fernández Armero e Juan Cavestany esmiúça as idiossincrasias desse personagem tão sui generis, oscilando dos delírios de grandeza a um lento ajuste a sua nova condição, além de um romance traiçoeiro.
Noblesse oblige
Dom Leandro continua a morar numa mansão no centro de Madri com seu mordomo, José Manuel, mas depende dos eventuais aluguéis da propriedade para comerciais e filmes pornôs (!) para que não morra de fome. Desgraça pouca é bobagem, e seu desespero alcança níveis intoleráveis quando a filha diz que vai se casar com um jogador de futebol e ele, claro, faz questão de bancar o convescote. A solução chega com Sofía Carrington, uma executiva do setor petrolífero que se mostra interessada pelo palacete, e faz uma oferta generosa pelo imóvel, mas ela tem um segredo. Boa parte dos seis capítulos desenrola-se em torno das idas e vindas comerciais-amorosas entre Leandro e Sofía, enredo com ampla margem para comentários satíricos sobre ricaços boçais e seus hábitos suspeitos, especialmente saborosos depois que se conhece a verdadeira identidade da madame. Antonio de la Torre e Alexandra Jiménez imprimem uma providencial crueza ao histrionismo do roteiro de Armero e Cavestany, sem prejuízo da comicidade. E a graça é essa.

