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Anora, uma jovem que trabalha numa boate de striptease no Brooklyn, em Nova York, vê a possibilidade de mudar de vida quando um cliente endinheirado se apaixona por ela. Ou, pelo menos, é nisso que ela prefere acreditar. Em “Anora”, longa de 2024 escrito e dirigido por Sean Baker, o envolvimento com o filho de um oligarca russo termina num casamento impulsivo e numa intervenção familiar. Para os pais do rapaz, a união precisa ser desfeita. Para a recém-casada, ninguém tem o direito de decidir isso em seu lugar.

Interpretada por Mikey Madison, Anora prefere ser chamada de Ani. Ela conhece bem o trabalho, sabe conquistar a atenção dos clientes e não tem constrangimento de cobrar pelo próprio tempo. Quando Ivan, apelidado de Vanya (Mark Eydelshteyn), chega à boate, seu conhecimento de russo favorece a aproximação. O rapaz gosta dela e tem dinheiro suficiente para prolongar os encontros. Ani aceita a oportunidade, inicialmente amparada por um acordo que ambos reconhecem. Ela oferece companhia, e ele paga.

Um herdeiro com tempo de sobra

Fora da boate, Vanya leva Ani para uma mansão onde passa os dias entre jogos, sexo e festas. Ele vive nos Estados Unidos com o dinheiro dos pais e demonstra pouco interesse em assumir responsabilidades. Eydelshteyn dá ao personagem uma agitação juvenil que o torna divertido e, aos poucos, preocupante. Vanya quer aproveitar tudo, desde que outra pessoa cuide da parte desagradável.

Ani também se diverte. Há desejo entre os dois, e Baker permite que essa atração exista sem transformar cada gesto dela numa demonstração de interesse financeiro. A jovem gosta do dinheiro, evidentemente, mas também gosta de ser desejada e de participar daquela rotina em que as despesas nunca parecem um problema. Para quem trabalha à noite e precisa disputar clientes, passar alguns dias numa casa luxuosa tem seus atrativos. Seria estranho se ela pedisse para voltar mais cedo.

O incômodo está na facilidade com que Vanya faz promessas. Ele se entusiasma, gasta e oferece um futuro sem demonstrar que sabe sustentá-lo. Ani percebe sua imaturidade, mas se deixa envolver pela possibilidade de que aquela relação possa continuar além do período contratado. Madison preserva essa mistura de esperteza e esperança. Sua personagem conhece certas intenções masculinas, embora esse conhecimento não a proteja de desejar alguma coisa para si.

Um casamento sem autorização dos pais

A viagem a Las Vegas termina numa cerimônia de casamento. Ani aceita a proposta e passa a tratar a união com seriedade. O que começou como um encontro remunerado agora tem um compromisso que ela espera ver respeitado. Vanya, porém, continua sendo o mesmo rapaz acostumado a fazer o que deseja com recursos que pertencem à família.

Quando os pais descobrem o casamento, querem anulá-lo. A ocupação da nora é suficiente para que descartem qualquer possibilidade de aceitá-la. Pouco importa o que o filho prometeu ou o que ela sente. Habituados a ter suas ordens cumpridas, eles mobilizam funcionários para resolver o assunto.

É nesse ponto que o entusiasmo dos primeiros encontros dá lugar a uma situação constrangedora. Ani precisa defender seu casamento diante de pessoas que sequer a conhecem, mas já se consideram autorizadas a decidir seu futuro. A segurança que ela demonstrava no trabalho passa a ser exigida numa disputa para a qual não existe acordo prévio. Ter uma aliança não lhe garante ser ouvida.

Funcionários às voltas com o patrão

Toros (Karren Karagulian), responsável por cuidar dos interesses da família nos Estados Unidos, recebe a missão de intervir. Garnick (Vache Tovmasyan) e Igor (Yura Borisov) participam da tarefa. Os três chegam com ordens, porém descobrem que executá-las exige mais esforço do que seus empregadores imaginam.

Baker tira boa parte da comédia dessa dificuldade. São homens tentando manter a autoridade enquanto perdem a paciência, precisam dar satisfações e enfrentam uma mulher que se recusa a colaborar. Ani protesta, xinga e exige respeito. Há algo de absurdamente engraçado na falta de preparo de todos para uma situação que os donos do dinheiro acreditam poder encerrar por telefone.

O riso, entretanto, tem um desconforto persistente. Para Toros e seus companheiros, aquilo é um problema de trabalho. Para Ani, estão em jogo o casamento e a possibilidade de escolher a própria vida. Os funcionários querem terminar o serviço. Ela precisa impedir que sua vontade seja descartada junto com os excessos do jovem patrão.

Igor se distingue pela maneira mais reservada de observar o que acontece. Borisov dá peso a pequenas reações, sem tornar seu personagem fácil de decifrar. Ele está ali a serviço da mesma família, e Ani tem motivos para desconfiar dele. Essa distância torna cada conversa entre os dois mais interessante, porque a jovem precisa avaliar suas atitudes sem ter razão alguma para baixar a guarda.

Uma mulher cercada de certezas alheias

Mikey Madison sustenta “Anora” com uma atuação que preserva as contradições da protagonista. Ani pode ser afetuosa, agressiva, engraçada e inconveniente. Ela fala alto porque as pessoas ao redor insistem em falar por ela. Sua resistência nem sempre é elegante, e a atriz não tenta torná-la mais agradável para conquistar a simpatia do espectador.

Também há uma vulnerabilidade que surge no esforço de manter a firmeza. Ani defende uma escolha na qual depositou expectativas, enquanto os demais tratam essa escolha como um erro administrativo do herdeiro. Madison deixa perceber o quanto custa continuar argumentando quando ninguém parece disposto a considerar seus sentimentos.

Baker acompanha essa desigualdade pelas relações entre as pessoas. Vanya pode gastar sem trabalhar. Seus pais podem dar ordens à distância. Os funcionários precisam obedecer para preservar seus empregos. Ani, que entrou naquela casa sabendo quanto cobraria por sua companhia, agora precisa exigir algo que o pagamento nunca assegurou. Quando a família transforma seu casamento num assunto a ser resolvido por terceiros, ela insiste em participar da conversa e cobra do marido uma posição sobre a promessa que os dois fizeram.


Filme: Anora
Diretor: Sean Baker
Ano: 2024
Gênero: Comédia/Drama/Romance
Avaliação: 4/5 1 1
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