John Smith (Brad Pitt) e Jane Smith (Angelina Jolie) vivem num subúrbio americano e procuram terapia para salvar um casamento que perdeu o entusiasmo depois de cinco ou seis anos. A dúvida sobre o tempo que passaram juntos já sugere o tamanho da distância entre eles. Em “Sr. & Sra. Smith”, de 2005, o diretor Doug Liman acrescenta um problema pouco habitual à rotina conjugal. Os dois são assassinos de aluguel, trabalham para organizações rivais e desconhecem a verdadeira profissão do parceiro.
Ele diz trabalhar com construção. Ela apresenta uma ocupação ligada à tecnologia. Essas versões ajudam a justificar compromissos e ausências sem despertar muita curiosidade em casa. O casal mantém uma vida confortável, mas conversa pouco sobre aquilo que realmente faz. Quando os serviços dos dois se cruzam, a descoberta compromete tanto o casamento quanto a segurança de cada um. As organizações para as quais trabalham passam a exigir que um elimine o outro.
Um casamento cheio de omissões
Antes de qualquer ameaça profissional, John (Brad Pitt) e Jane (Angelina Jolie) já enfrentam o constrangimento de dividir a casa sem saber muito bem o que dizer. Na terapia, tentam apresentar uma avaliação razoável da relação, mas tropeçam até numa informação básica, a duração do casamento. A graça vem do esforço para parecer que está tudo sob controle enquanto as respostas revelam o contrário.
Pitt dá ao marido uma autoconfiança ligeiramente inconveniente, dessas que sobrevivem mesmo quando os fatos recomendam alguma cautela. Jolie mantém uma expressão mais contida e deixa Jane escolher o quanto deseja revelar. A combinação rende um casal divertido de acompanhar porque ambos parecem acostumados a esconder informações, mas nenhum cogita estar sendo enganado na mesma proporção.
As mentiras profissionais agravam um desgaste que já existia. Cada um preserva o próprio segredo e aceita as explicações do outro sem grande interesse. O silêncio facilita o trabalho clandestino, mas cobra seu preço na convivência. Eles sabem o endereço, os horários e os hábitos do parceiro. Sobre a pessoa com quem se casaram, o conhecimento é bem menos sólido.
Um encontro sob suspeita
A lembrança do primeiro encontro, em Bogotá, ajuda a perceber o que mudou. John (Brad Pitt) e Jane (Angelina Jolie) se aproximam num hotel enquanto tentam escapar da atenção das autoridades. Fingir que estão juntos oferece uma saída conveniente para ambos. A atração existe, mas nasce acompanhada de informações que nenhum deseja compartilhar.
Há uma boa ironia nessa origem. Os dois começam representando um casal para proteger os próprios interesses e depois constroem um casamento no qual continuam escondendo partes importantes da vida. O entusiasmo daquele encontro contrasta com a convivência sem assunto que aparece anos mais tarde. A disposição para improvisar juntos cedeu espaço ao hábito de manter o parceiro afastado do trabalho.
Liman aproveita essa diferença sem transformar cada discussão numa lição sobre relacionamentos. Os protagonistas precisam preservar suas identidades profissionais, cumprir tarefas e sustentar as versões que apresentaram em casa. O problema é que essas exigências ocupam um espaço que poderia pertencer à intimidade. Quando chegam à terapia, já acumularam anos de omissões.
O trabalho invade a vida doméstica
Benjamin Danz (Adam Brody) é o alvo de uma missão recebida pelas duas organizações. John (Brad Pitt) e Jane (Angelina Jolie) devem eliminar o mesmo homem, sem saber que o parceiro também está envolvido no serviço. A tarefa coloca os dois no mesmo caminho e ameaça a separação entre o emprego secreto e a residência tranquila.
A premissa ganha força porque cada um precisa lidar com alguém que conhece seus hábitos domésticos e possui treinamento para matar. O marido aparentemente previsível deixa de oferecer segurança. A esposa cuja rotina parecia conhecida passa a esconder capacidades que ele nunca considerou. Até então, as mentiras garantiam que ambos continuassem trabalhando. Agora, podem impedir que reconheçam um perigo dentro de casa.
A ameaça também dá outro peso às irritações conjugais. A desconfiança já não fica restrita a uma resposta evasiva ou a um compromisso mal explicado. Os empregadores exigem obediência, enquanto os protagonistas precisam decidir como agir diante da pessoa com quem dividem a vida. A partir dessa situação, a ação avança apoiada numa disputa que mistura interesse profissional, ressentimento e atração.
Charme entre cobranças e ameaças
Pitt e Jolie sustentam boa parte do prazer de “Sr. & Sra. Smith”. Ele deixa John se atrapalhar com a própria confiança. Ela faz Jane preservar o controle da conversa mesmo quando o marido tenta provocá-la. A química depende desse atrito, da vontade de obter uma reação e da resistência em oferecer ao outro qualquer vantagem.
Nem tudo recebe o mesmo cuidado. As organizações rivais têm menos personalidade que os protagonistas, e suas ordens interessam sobretudo pelo que provocam no casamento. A ação, por vezes, toma mais espaço que as pequenas hostilidades domésticas, embora sejam essas implicâncias que tornam o casal mais divertido. Quando Liman permanece perto dos dois, a combinação de desejo e irritação rende mais que a ameaça dos contratantes.
“Sr. & Sra. Smith” é uma diversão sustentada por uma ideia absurda e por dois atores que sabem aproveitá-la. O casamento desgastado oferece razões para as provocações, enquanto o trabalho secreto transforma a falta de confiança num risco concreto. John (Brad Pitt) e Jane (Angelina Jolie) procuraram ajuda porque já não conseguiam conversar. As ordens dos empregadores os obrigam a prestar atenção em tudo o que o parceiro faz dentro de casa.

