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Em Wisborg, na Alemanha de 1838, o corretor Thomas Hutter (Nicholas Hoult) deixa a esposa, Ellen (Lily-Rose Depp), para fechar um negócio imobiliário que promete melhorar a vida dos dois. Ela pede que ele fique, assustada com pressentimentos que o marido atribui à ansiedade da separação. Ele prefere acreditar na oportunidade oferecida pelo chefe. O destino é o castelo do conde Orlok (Bill Skarsgård), nos Cárpatos, onde uma viagem profissional se transforma numa ameaça ao casal. Em “Nosferatu”, de Robert Eggers, a vontade de garantir um futuro confortável leva um homem a ignorar o perigo que sua mulher já sente.

Thomas é um recém-casado interessado em crescer no trabalho e oferecer mais conforto à esposa. Seu superior, Herr Knock (Simon McBurney), entrega a ele a tarefa de visitar um aristocrata que deseja adquirir uma propriedade em Wisborg. Para o jovem, atender a um cliente rico pode significar dinheiro e reconhecimento. Ellen, porém, reage à notícia da viagem com um medo que ultrapassa a saudade antecipada.

Hoult dá ao personagem uma mistura convincente de entusiasmo e insegurança. Thomas quer agradar ao chefe, demonstrar competência e provar que consegue sustentar a casa. Não precisa ser um homem insensível para tomar uma decisão ruim. Basta considerar a promessa de pagamento mais confiável do que o relato da esposa. Sua partida nasce dessa escolha tão reconhecível, embora o endereço do cliente esteja longe de inspirar tranquilidade.

Antes de seguir viagem, ele deixa Ellen sob os cuidados de Anna Harding (Emma Corrin) e Friedrich Harding (Aaron Taylor-Johnson), amigos com uma situação financeira mais confortável. A hospedagem oferece companhia, mas não resolve o que a atormenta. Enquanto o marido se afasta, ela perde a presença da pessoa em quem mais confia.

Um anfitrião nada acolhedor

No castelo, Thomas tenta cumprir o serviço, mas descobre que o conde controla muito mais do que os termos da compra. Orlok determina o ritmo dos encontros e mantém o visitante num ambiente em que quase nada parece familiar. O corretor chega disposto a impressionar. Aos poucos, precisa abandonar a preocupação com o emprego para cuidar da própria segurança.

Skarsgård faz do vampiro uma presença repulsiva, pesada, difícil de encarar. A voz e a maneira de ocupar o espaço retiram qualquer aparência de cordialidade da visita. Não há muita margem para o charme de um aristocrata sedutor. Diante dele, Thomas parece cada vez menor, sem os recursos necessários para lidar com aquilo que o espera.

Eggers deixa o espectador acompanhar essa mudança pela experiência do rapaz. A pouca luz dificulta distinguir o que existe ao redor, e a demora em revelar o anfitrião prolonga a incerteza. O efeito é mais forte quando Hoult reage sem saber o que fazer. Seu rosto registra o esforço de manter a educação depois que todos os motivos para permanecer ali começaram a desaparecer.

A ironia é amarga. Thomas atravessa uma distância enorme para conquistar a confiança do chefe e acaba dependendo da disposição de um cliente aterrorizante. Uma reunião desagradável já seria suficiente para estragar a viagem. Orlok torna a possibilidade de voltar para casa a única prioridade.

Ellen precisa ser ouvida

Em Wisborg, Ellen enfrenta episódios que assustam seus anfitriões. Anna tenta acolher a amiga, enquanto Friedrich se impacienta com manifestações que não consegue explicar. A diferença entre os dois pesa sobre a hóspede, que depende daquela casa para receber cuidados durante a ausência do marido.

Depp dá ao sofrimento da personagem uma intensidade física que, em alguns trechos, chega perto do excesso. Ainda assim, sua atuação tem força porque preserva algo além do susto. Ellen sente vergonha, medo e a dificuldade de falar sobre uma ligação que nem ela consegue acomodar numa explicação aceitável para os outros. Orlok a atormenta, e a distância do marido deixa esse sofrimento ainda mais solitário.

A jovem ocupa o centro de “Nosferatu” porque sabe algo que os demais insistem em tratar apenas pelos sintomas. Seu corpo recebe atenção, mas suas palavras enfrentam resistência. Essa diferença torna as cenas de atendimento especialmente incômodas. Há pessoas tentando ajudá-la, porém a ajuda depende de decisões tomadas por quem ainda não acredita no que ela relata.

Corrin oferece uma presença afetuosa sem transformar Anna numa amiga capaz de resolver tudo. Taylor-Johnson, por sua vez, dá a Friedrich a segurança irritante de quem considera a própria opinião suficiente. Entre o carinho de uma e a impaciência do outro, Ellen continua sem conseguir explicar o perigo que ameaça sua vida.

A medicina chega a um impasse

O médico Wilhelm Sievers (Ralph Ineson) procura aliviar os episódios da paciente, mas os tratamentos não esclarecem sua origem. Diante da falta de melhora, ele busca o professor Albin Eberhart von Franz (Willem Dafoe), um antigo mestre disposto a considerar hipóteses que os demais rejeitam.

Dafoe traz uma energia excêntrica que movimenta as conversas sem tirar a gravidade da situação. O professor interessa porque aceita escutar antes de descartar. Sua entrada também expõe o limite dos homens que já cercavam Ellen. Todos tinham alguma opinião sobre ela. Poucos estavam preparados para levar seu relato a sério.

É nesse ponto que Eggers consegue aproximar o horror de uma experiência humana reconhecível. A ameaça sobrenatural permanece, mas a dificuldade de conseguir ajuda acrescenta outro sofrimento. Ellen precisa enfrentar aquilo que a persegue e convencer seus cuidadores de que há algo além de uma doença a ser contida.

O medo dentro do casamento

“Nosferatu” ganha força quando mantém Thomas e Ellen ligados, mesmo separados pela viagem. Ele parte para proteger o futuro dos dois e fica vulnerável ao homem que ameaça a esposa. Ela permanece entre amigos e recebe cuidados, mas continua exposta a uma presença que atravessa essa aparente proteção.

A insistência nos tormentos físicos de Ellen por vezes alonga cenas que já transmitiram sua aflição. Há trechos em que a solenidade dos encontros também pesa mais do que deveria. O terror é mais convincente quando nasce de uma necessidade simples, como sair do castelo, voltar para casa ou conseguir que alguém escute uma mulher assustada.

Eggers acerta ao preservar o afeto do casal em meio ao horror. Thomas não parte por falta de amor, e Ellen não pede que ele fique apenas por dependência. Os dois querem continuar juntos, mas avaliam o risco de maneiras diferentes. Quando o professor aceita investigar o que ela conta, a jovem finalmente consegue algo que os cuidados anteriores não lhe deram. Alguém passa a ouvir suas palavras antes de tentar conter seu corpo.


Filme: Nosferatu
Diretor: Robert Eggers
Ano: 2024
Gênero: Fantasia/Suspense/Terror
Avaliação: 4/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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