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Em 1755, o capitão Ludvig Kahlen (Mads Mikkelsen) chega à Jutlândia, na Dinamarca, disposto a cultivar uma região onde poucos acreditam ser possível plantar. Pobre e acostumado à disciplina militar, ele pretende fundar uma colônia em nome do rei e conquistar um título de nobreza. O problema tem nome, sobrenome e uma considerável coleção de privilégios. Frederik de Schinkel (Simon Bennebjerg), proprietário influente da região, considera aquelas terras suas e não pretende aceitar um vizinho que dispense sua permissão.

Esse é o ponto de partida de “O Bastardo”, drama histórico de 2023 dirigido por Nikolaj Arcel. Entre o capitão e o aristocrata, a disputa envolve o cultivo, o controle dos trabalhadores e o direito de permanecer naquele território. A autorização da Coroa dá a Kahlen uma oportunidade, mas oferece pouca proteção contra um homem acostumado a mandar sem ser contrariado.

Uma colheita para mudar de vida

Kahlen chega com um objetivo bem definido. Quer transformar trabalho em prestígio e deixar para trás a condição de homem sem fortuna. A ambição ajuda a compreender sua disposição para enfrentar o solo hostil, a escassez de recursos e o isolamento. Também explica sua dificuldade em aceitar qualquer coisa que atrapalhe o empreendimento. Para ele, desistir da terra significaria abandonar a possibilidade de ser recebido entre pessoas que até então o mantiveram à distância.

Mads Mikkelsen dá ao personagem uma austeridade que dispensa grandes falas. O capitão observa, trabalha e responde com poucas palavras, quase sempre preservando uma expressão severa. O ator, porém, deixa aparecer o orgulho ferido por trás dessa postura. Kahlen deseja provar seu valor, mas depende do reconhecimento de uma classe que o despreza. Sua obstinação desperta admiração e algum desconforto, sobretudo quando ele trata as necessidades alheias com a mesma rigidez usada para organizar o trabalho.

Essa contradição é um dos melhores aspectos de “O Bastardo”. O protagonista enfrenta um homem cruel sem ganhar, por isso, um certificado de bondade. Tem coragem, experiência e disposição para suportar dificuldades, mas pode ser insensível. Conviver com ele exige mais do que concordar com seu projeto agrícola.

Um vizinho acostumado a mandar

Schinkel recebe a chegada do capitão como uma afronta pessoal. A ordem do rei não basta para convencê-lo de que outra pessoa possa ocupar a região. Seu poder depende de manter os moradores e trabalhadores submetidos à sua vontade. Um empreendimento independente ameaça essa obediência, especialmente se demonstrar que há vida possível fora de seus domínios.

Simon Bennebjerg interpreta o aristocrata com uma mistura de vaidade, afetação e crueldade. Há algo de criança mimada em sua reação às contrariedades, com a diferença nada pequena de que ele dispõe de recursos para castigar os outros. Sua necessidade de reconhecimento torna certas atitudes quase ridículas. A violência, contudo, impede que o ridículo ofereça qualquer alívio duradouro.

O personagem é também a parte menos sutil da história. Arcel insiste tanto em sua perversidade que algumas passagens dispensariam novos sinais de ameaça. Ainda assim, Bennebjerg transmite bem a segurança de quem acredita ter licença para tudo. Enquanto Kahlen precisa justificar sua presença pelo trabalho, Schinkel considera o próprio sobrenome uma justificativa suficiente para impor ordens.

Um casal procura proteção

A disputa ganha outro peso quando Ann Barbara (Amanda Collin) e seu marido procuram abrigo com o capitão depois de fugir do serviço de Schinkel. Kahlen precisa de ajuda para cultivar a terra. O casal precisa de um lugar onde possa viver sem os maus-tratos do antigo senhor. O encontro aproxima essas necessidades, mas também coloca os fugitivos no centro da hostilidade entre os dois homens.

Ann Barbara tem razões próprias para permanecer ali. A possibilidade de segurança importa mais do que o título desejado pelo militar. Amanda Collin preserva essa diferença e dá à personagem uma presença firme, atenta ao temperamento do homem que oferece acolhimento. A gratidão não apaga a desconfiança, nem transforma a convivência numa relação simples.

A atriz também impede que Ann Barbara fique restrita ao papel de mulher encarregada de tornar um protagonista severo mais afetuoso. Sua experiência de sofrimento pesa nas escolhas e na maneira de observar os homens ao redor. Ela precisa avaliar o que aquele abrigo pode oferecer, enquanto o capitão passa a responder pela proteção de pessoas que Schinkel deseja recuperar e punir.

A casa exige mais que disciplina

A presença da menina Anmai Mus (Melina Hagberg) acrescenta outra dificuldade à rotina de Kahlen. Uma criança precisa de atenção, paciência e cuidado, qualidades que não vêm automaticamente com uma patente militar. Os encontros entre os dois permitem alguma leveza, especialmente quando a solenidade do capitão esbarra numa personalidade que não se impressiona tanto com suas ordens.

Mikkelsen é particularmente bom nessas pequenas mudanças de expressão. O desconforto diante da proximidade afetiva revela um homem menos preparado para cuidar de alguém do que para suportar uma tarefa exaustiva. Aos poucos, o cultivo divide espaço com as exigências de uma casa habitada por pessoas que têm medos e desejos diferentes dos seus.

Arcel acerta ao manter essas relações próximas da disputa pela terra. O afeto nasce numa convivência difícil, sob uma ameaça que não desaparece quando os personagens se aproximam. Ann Barbara e Anmai Mus dão importância àquele lugar por razões que ultrapassam a recompensa prometida ao capitão.

“O Bastardo” conquista nessa combinação de ambição, trabalho e vínculos construídos sem facilidade. A dureza de Schinkel por vezes pesa demais, mas Mikkelsen sustenta um protagonista cuja coragem não elimina o egoísmo. Kahlen chegou à Jutlândia procurando uma colheita capaz de lhe render prestígio. Agora, cada tentativa de permanecer também expõe ao perigo as pessoas que acolheu.


Filme: O Bastardo
Diretor: Nikolaj Arcel
Ano: 2023
Gênero: Ação/Drama/História
Avaliação: 4/5 1 1
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

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