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Faz algum tempo, mulheres desdobram-se em duas, em três, em 150 para dar conta de filhos, carreira, casa, marido e de si próprias, às vezes nessa ordem — e, por óbvio, no mesmo corpo. Há até as que precisam aceitar uma birra das circunstâncias e viver o curioso papel de mãe de seus pais, ideia sobre a qual Diane Keaton (1946-2025) se debruça com toda leveza em “Linhas Cruzadas”, despretensiosa comédia de costumes que não deixa de tirar uma furtiva lágrima do espectador, sem jamais ser piegas. Keaton decifra como poucos a arte de misturar assuntos vários dispondo de três irmãs que, querendo ou não, dividem afetos e mágoas enquanto o pai está morrendo num hospital. Junto com a irmã, Nora (1941-2012), Delia Ephron adapta “Hanging Up” (“desligando”, em tradução literal; 1995), seu romance, dando ênfase aos diálogos entre cínicos e espirituosos dessas mulheres santas e endiabradas, valendo-se de milhões de aparelhos telefônicos para não perder a cabeça.

Três maneiras de amar

O amor supera qualquer dificuldade, ultrapassa todos os obstáculos e supre carências afetivas de outras ordens — pelo menos quando é capaz de vencer o cansaço da rotina. Telefonemas a qualquer hora do dia ou da noite mantêm Georgia, Eve e Maddy em contato, em especial depois que Lou, o pai delas, recebeu o diagnóstico de uma doença misteriosa e muito debilitante, e passou a uma vida de restrições. Georgia, a mais velha, é a editora-chefe de uma revista de relativo sucesso, e até por uma deformação de ofício sente-se obrigada a coordenar tudo, o que é muito cômodo para Maddy, uma atriz que tem tentado não ficar louca ao decorar páginas e mais páginas de texto, e atender os fãs, uns neuróticos demais. Como sói acontecer, Eve, a filha do meio, faz do equilíbrio uma filosofia, embora nunca se saiba exatamente o que está pensando, nem se está de acordo com o que as outras duas dizem.

O show tem que continuar

Lou é um alter ego do pai de Delia e Nora, Henry Ephron (1911-1992), roteirista de comédias aclamadas da velha Hollywood a exemplo de “Papai Pernilongo” (1955), dirigida por Jean Negulesco (1900-1993), e “Não Há Negócio como o Show Business” (1954), de Walter Lang (1896-1972), e vai familiarizando-se com a morte sempre com uma piada na agulha.

Walter Matthau (1920-2000) faz desse homem uma figura verdadeiramente rara, emprestando ao personagem as aflições de um velho showman pronto para cerrar a última cortina — Matthau de fato morreu poucos meses após o lançamento do filme, em 1º de julho de 2000. Afinadas, Keaton, Meg Ryan e Lisa Kudrow fazem exatamente o que se espera delas, conseguindo também dar uma boa dose de substância dramática ao que se supunha só um telefilme para passar o tempo.


Filme: Linhas Cruzadas
Diretor: Diane Keaton
Ano: 2000
Gênero: Comédia/Drama
Avaliação: 4/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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