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No início dos anos 1960, Grace Kelly (Nicole Kidman) vive em Mônaco com o marido, o príncipe Rainier III (Tim Roth), e os dois filhos pequenos. A antiga estrela de Hollywood tenta se adaptar às obrigações da realeza, mas sente falta do cinema e da liberdade de escolher seu trabalho. Quando Alfred Hitchcock (Roger Ashton-Griffiths) lhe oferece um papel, a possibilidade de voltar a atuar esbarra numa crise conjugal e nas pressões da França sobre o principado. É nesse período que Olivier Dahan concentra “Grace de Mônaco”, drama de 2014 sobre uma mulher cuja vida profissional passou a depender de interesses bem maiores que os seus.

O casamento celebrado em 1956 havia transformado uma atriz americana em princesa europeia. A mudança trouxe prestígio, responsabilidades e uma rotina para a qual Grace recebeu pouca preparação. Dentro do palácio, ela ainda é vista com desconfiança. Fora dele, precisa corresponder à imagem de esposa dedicada, mãe presente e representante de um país. Parece haver uma opinião para cada passo seu, embora poucas pessoas estejam dispostas a perguntar o que ela deseja.

Um convite para voltar ao cinema

Hitchcock procura Grace para protagonizar “Marnie, Confissões de uma Ladra”. A oferta toca numa saudade que vai além dos estúdios. Atuar era uma profissão na qual ela tinha experiência, reconhecimento e alguma autonomia. Em Mônaco, até suas tentativas de participar da vida pública passam pelo julgamento de pessoas que consideram inadequados seus hábitos americanos.

O convite devolve à protagonista a possibilidade de exercer um talento que ficou em segundo plano depois do casamento. Kidman trabalha bem essa mistura de entusiasmo e receio. Sua Grace quer considerar a proposta, mas sabe que terá de justificar o afastamento do palácio, a organização da vida dos filhos e o compromisso com as funções oficiais. Voltar ao cinema exigiria muito mais que aceitar um roteiro.

Rainier se opõe ao retorno da esposa às telas. Absorvido pelos assuntos de governo, ele oferece pouco acolhimento à insatisfação dela. Tim Roth interpreta o príncipe com uma frieza que ajuda a explicar a solidão de Grace, embora deixe o personagem limitado. O marido aparece tantas vezes preocupado, fechado e contrariado que sobra pouco espaço para perceber o afeto que ainda sustenta aquele casamento.

A crise atravessa o palácio

A dificuldade do casal cresce durante a disputa entre Mônaco e o governo francês. Charles de Gaulle (André Penvern) pressiona o principado por causa de suas condições fiscais, ameaçando a autonomia do território. Rainier precisa enfrentar exigências que colocam seu governo em risco, enquanto a esposa avalia uma oportunidade profissional que poderia levá-la de volta aos Estados Unidos.

Dahan aproxima as duas crises para dar peso à escolha de Grace. Sua ausência poderia ser recebida pelos monegascos como abandono num período delicado. Permanecer, por outro lado, significa adiar um desejo que ela já vinha reprimindo. O roteiro faz dessa decisão um assunto de família e de Estado, mas simplifica bastante a política. As relações entre os países recebem menos atenção que os efeitos da disputa dentro do casamento.

Essa preferência tem um custo. Ao concentrar tantas expectativas na princesa, o diretor deixa os demais personagens presos às necessidades do drama dela. Rainier se torna o marido que não escuta. Os integrantes da corte representam a cobrança permanente. Grace ganha o centro da história, mas perde a companhia de figuras com contradições tão interessantes quanto as suas.

Conselhos entre deveres e desejos

O padre Francis Tucker (Frank Langella) oferece uma escuta que falta nas conversas conjugais. Grace pode falar com ele sobre seu desconforto e sobre a vontade de retomar a carreira. Langella dá tranquilidade aos encontros, tornando o conselheiro uma presença acolhedora numa rotina dominada por formalidades.

O padre também a aproxima das responsabilidades que assumiu ao se casar. Seus conselhos ajudam, mas não eliminam a dificuldade de escolher. Grace ama a família e deseja trabalhar. A combinação parece perfeitamente possível até que entram em cena o protocolo, as cobranças públicas e a resistência do marido.

Até nas atividades beneficentes da Cruz Vermelha ela enfrenta reservas. Sua disposição para participar não basta para conquistar a confiança de outras mulheres ligadas à instituição. Esses atritos dão uma dimensão cotidiana ao problema da protagonista. O título de princesa garante destaque, mas não assegura que suas iniciativas sejam bem recebidas.

Aprender a ocupar o próprio lugar

Grace busca orientação com o conde Fernando D’Aillières (Derek Jacobi), que a ajuda com a pronúncia, os costumes locais e as regras de comportamento. As lições trazem alguma leveza a uma história carregada de obrigações. Há algo discretamente absurdo em exigir tanta desenvoltura de uma mulher sem antes lhe explicar o que esperam dela.

Jacobi dá vivacidade ao treinamento, mas Dahan aposta demais nessa preparação. Melhorar o francês e dominar o protocolo pode facilitar uma recepção oficial. Resolver a distância entre marido e mulher exige outra espécie de conversa. Ao aproximar esses problemas, o roteiro deixa a impressão de que Grace precisa aperfeiçoar seu desempenho para conquistar o acolhimento que deveria receber em casa.

Kidman sustenta o interesse mesmo quando a direção trata a protagonista com reverência excessiva. Os momentos mais convincentes surgem quando a atriz deixa aparecer o cansaço de ter cada vontade submetida à aprovação dos outros. Grace se torna mais próxima quando hesita, sente saudade do trabalho ou procura apoio. A solenidade constante, porém, restringe a espontaneidade que poderia dar mais vida ao retrato.

“Grace de Mônaco” tem força ao apresentar uma profissional que precisa pedir espaço para continuar exercendo a própria profissão. Perde parte dessa força quando transforma sua adaptação ao palácio na principal resposta para problemas conjugais e políticos. Entre o convite de Hitchcock e as exigências de Rainier, permanece uma mulher tentando decidir o que fazer com o talento que levou consigo para Mônaco. Para voltar a atuar, ela precisa enfrentar a oposição do marido e organizar uma vida que o casamento tornou muito mais difícil de administrar.


Filme: Grace de Mônaco
Diretor: Olivier Dahan
Ano: 2014
Gênero: Biografia/Drama/Romance
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

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