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Fabietto Schisa (Filippo Scotti) é um adolescente tímido que vive com os pais, Saverio (Toni Servillo) e Maria Schisa (Teresa Saponangelo), na Nápoles dos anos 1980. A rotina da família muda quando a cidade passa a acompanhar a possível chegada de Diego Maradona ao Napoli. Em “A Mão de Deus”, Paolo Sorrentino parte das próprias lembranças para acompanhar um jovem dividido entre as confusões dos adultos, a paixão pelo futebol e uma curiosidade pelo cinema que ainda não ganhou forma.

Fabietto costuma permanecer à margem das conversas. Ele escuta os parentes, observa os gestos e guarda perguntas que raramente tem coragem de fazer. Saverio trabalha em um banco e tenta manter a casa sob controle, embora seus erros conjugais ameacem a estabilidade familiar. Maria enfrenta as contradições do marido com uma mistura de afeto, irritação e ironia. A relação dos dois está longe da harmonia, mas oferece ao filho uma proteção que ele considera permanente.

Maradona mobiliza Nápoles

A notícia de que Diego Maradona pode jogar no Napoli domina rádios, ruas, arquibancadas e reuniões familiares. Para Fabietto, o atleta representa uma chance de participar de algo maior que o apartamento onde mora. O garoto acompanha cada novidade, procura ingressos e organiza seus planos ao redor das partidas. O futebol lhe dá assunto, pertencimento e uma ligação concreta com a cidade.

Sorrentino não transforma “A Mão de Deus” numa cinebiografia esportiva. Maradona surge menos como personagem e mais como uma presença capaz de interferir na vida cotidiana. Adultos discutem valores, torcedores aguardam confirmações e Fabietto deposita no jogador uma esperança que ultrapassa os resultados em campo. Uma partida pode mudar seus compromissos, afastá-lo de uma reunião familiar ou levá-lo para outro canto de Nápoles. Essa devoção acaba influenciando seu destino de uma maneira que ele jamais poderia prever.

Uma família sem cerimônia

Os encontros da família Schisa estão entre os trechos mais vivos de “A Mão de Deus”. Maria faz brincadeiras para provocar os parentes, Saverio tenta acompanhar a bagunça e cada convidado parece disposto a transformar o almoço numa competição particular. Há uma avó ríspida, tios inconvenientes, primos vaidosos e pequenas rivalidades que ninguém se preocupa em esconder. A falta de cerimônia produz graça porque todos desejam ser ouvidos, mesmo quando nenhum deles tem algo especialmente inteligente a dizer.

Patrizia (Luisa Ranieri), irmã de Maria, ocupa um lugar delicado nesse grupo. Bonita, instável e infeliz no casamento, ela desperta fascínio em Fabietto e desconforto nos demais parentes. O rapaz deseja aproximar-se da tia, mas ainda não possui maturidade para separar atração, compaixão e curiosidade. Quando Patrizia relata experiências estranhas, a família prefere tratá-la com incredulidade. Fabietto, porém, percebe que há sofrimento por trás das atitudes da mulher e passa a enxergar a crueldade escondida em algumas piadas.

Marchino Schisa (Marlon Joubert), irmão mais velho de Fabietto, sonha em trabalhar como ator. Os dois acompanham uma seleção de elenco ligada a Federico Fellini, embora Fabietto permaneça mais interessado em observar aquele ambiente do que em ocupar o centro da cena. Marchino busca uma oportunidade profissional. O irmão mais novo começa a perceber que fazer cinema talvez seja um trabalho possível, ainda que pareça distante de sua realidade.

A juventude perde proteção

Um acontecimento doloroso rompe a rotina de Fabietto e muda sua relação com a família. Sem revelar a natureza dessa virada, basta dizer que o adolescente perde a segurança que lhe permitia assistir aos conflitos de longe. Ele passa a cobrar informações, rejeita consolos insuficientes e procura saber por que certas decisões foram tomadas sem sua participação. A casa deixa de oferecer respostas, enquanto os adultos ao redor demonstram poucos recursos emocionais para ajudá-lo.

Filippo Scotti interpreta essa mudança sem transformar Fabietto num catálogo de sofrimento. O jovem continua desajeitado, curioso e por vezes incapaz de dizer o que deseja. Sua dor aparece na impaciência, nas caminhadas pela cidade e na dificuldade de aceitar o silêncio dos parentes. Ele não diz, mas sua insistência em reconstruir o que aconteceu revela uma necessidade concreta de recuperar algum domínio sobre a própria vida, pois ninguém mais pode escolher por ele onde ficar ou qual caminho seguir.

A direção também muda o ritmo depois dessa ruptura. As reuniões cheias de vozes cedem espaço a períodos de silêncio, e Nápoles ganha uma feição menos acolhedora. O que antes parecia uma cidade aberta ao prazer passa a impor distâncias, ausências e responsabilidades. Sorrentino mantém o espectador perto de Fabietto, sem transformar a experiência do rapaz numa lição solene sobre amadurecimento.

O cinema entra em cena

Fabietto procura o cineasta Antonio Capuano (Ciro Capano) quando sente que o cinema pode oferecer uma saída profissional. O encontro ocorre sem gentileza protocolar. Capuano questiona suas intenções, exige argumentos e rejeita qualquer entusiasmo baseado apenas na admiração por outros diretores. Para seguir adiante, o rapaz precisa explicar por que deseja filmar e decidir se consegue transformar a própria experiência em matéria artística.

Essa conversa resume uma das maiores qualidades de “A Mão de Deus”. Paolo Sorrentino trata a formação de um artista sem apagar a confusão, o desejo sexual, o ressentimento e as piadas de gosto duvidoso que acompanham a juventude. Fabietto não recebe uma revelação pronta. Ele reúne pedaços de conversas, lembranças familiares, partidas de futebol e encontros pela cidade até perceber que permanecer parado também constitui uma escolha.

“A Mão de Deus” é íntimo, engraçado e doloroso sem perder a leveza necessária para retratar uma família tão afetuosa quanto exaustiva. Toni Servillo e Teresa Saponangelo oferecem calor aos pais de Fabietto, enquanto Filippo Scotti sustenta o olhar inquieto de um jovem que ainda aprende a participar da própria história. Quando decide buscar uma vida além da proteção familiar, ele leva consigo as lembranças de Nápoles e assume a responsabilidade pelo próximo passo.


Filme: A Mão de Deus
Diretor: Paolo Sorrentino
Ano: 2021
Gênero: Comédia/Drama
Avaliação: 4.5/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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