Há famílias em que os pais deixam imóveis, joias, fotografias, alguma receita escrita num papel ensebado. Racine e Anaia recebem uma ordem. A mãe, desaparecida da vida das duas desde a infância e agora moribunda, reaparece apenas para incumbir as filhas de encontrar o homem que incendiou sua casa, queimou seus corpos e as condenou a crescer sob a sombra de uma violência que não praticaram. O detalhe mais inconveniente é que esse homem é o pai delas. Aleshea Harris começa “Ardente Vingança” onde muitas histórias terminariam, quando vítimas finalmente encontram uma chance de reparação, e vai demonstrando que talvez não exista nada menos reparador que uma vingança bem-sucedida.
Racine é a mais impulsiva. Kara Young dá-lhe uma disposição para a briga que chega antes do raciocínio, como se décadas de humilhação tivessem encontrado afinal um corpo onde descarregar-se. Anaia, vivida por Mallori Johnson, carrega queimaduras mais visíveis e um temperamento muito diferente, mais recolhido, por vezes quase resignado, embora isso não signifique mansidão. As duas tornam-se uma só criatura quando alguém ameaça uma delas, e Harris percebe que a verdadeira história não está na caçada ao pai, mas nessa estranha fraternidade de sobreviventes, vínculo fundado no afeto e reforçado por tudo quanto o mundo já lhes fez.
Aleshea Harris e o Obie
“Ardente Vingança” vem de “Is God Is”, peça escrita por Harris e encenada off-Broadway em 2018, vencedora do Obie. A própria dramaturga adapta o texto e estreia na direção de longas, preservando a natureza híbrida que já distinguia a obra no palco. Há tragédia grega, gótico sulista, humor negro e um western de vingança feito de mulheres negras atravessando os Estados Unidos em busca do patriarca que arruinou suas vidas. Harris já explicou que pensava as irmãs como respostas opostas ao trauma, uma desejosa de incendiar o mundo, outra ainda procurando uma distância segura da chama. O filme funciona precisamente porque não decide qual delas está certa.
Ruby, a mãe interpretada por Vivica A. Fox, não reaparece envolta em doçura. Ela é chamada de Deus, e há algo de Velho Testamento nessa mulher consumida pelas sequelas do fogo, mais empenhada em ditar uma sentença que em recuperar o tempo perdido com as filhas. “Façam seu pai morrer” poderia soar apenas como uma provocação de dramaturga, porém Harris vai além e põe nas gêmeas a responsabilidade de executar um mandamento cuja legitimidade elas mal têm coragem de discutir.
O pai, identificado como o Monstro e vivido por Sterling K. Brown, torna-se mais perturbador justamente quando deixa de parecer monstruoso. Ele refez a vida, construiu outra família, adquiriu a aparência social de um sujeito que poderia passar pela porta ao lado sem despertar nenhuma suspeita. O mal talvez fosse bem mais fácil se andasse todo o tempo com sangue nas mãos. Brown entende isso e foge da caricatura, deixando aparecer a cordialidade do homem que já reorganizou a própria biografia e pode até ter conseguido convencer-se de que aquilo que fez pertence a outro tempo.
Racine e Anaia na estrada
Ao atravessar estradas, motéis e casas alheias, Racine e Anaia descobrem uma coisa elementar que filmes de vingança costumam esconder. Chegar ao alvo exige passar por pessoas que nada tiveram a ver com o crime inaugural, e cada nova violência aumenta a lista de quem precisará, no futuro, ajustar contas. Harris não pede piedade pelas irmãs e tampouco as oferece como mártires. Elas machucam, erram, exageram, seguem adiante. Essa ausência de higiene moral dá ao filme uma energia que seria impossível se o roteiro estivesse interessado em ensinar como uma vítima deve comportar-se.
Kara Young e Mallori Johnson defendem o longa nos momentos em que o barroco da encenação ameaça tomar conta. Racine olha para o mundo como quem já está pronta para golpeá-lo; Anaia parece perguntar silenciosamente quanto de si ainda sobrará ao fim da missão. O pai foi capaz de queimar uma família inteira. A questão que “Ardente Vingança” deixa arder é se matar o incendiário consegue apagar o fogo.

