Em algum ponto entre o momento em que o Estado expulsa seus indesejáveis e aquele em que um homem faminto decide qual pedaço de outro ser humano vai comer primeiro, “Amores Canibais” encontra espaço para uma história de amor. Ana Lily Amirpour gosta dessas inconveniências. Em “Garota Sombria Caminha pela Noite” (2014), sua estreia, uma vampira de skate vagava por uma cidade iraniana imaginária, apaixonava-se e castigava homens pouco recomendáveis. Aqui, a diretora troca o preto e branco pelo deserto americano, mas conserva a predileção por criaturas que já foram julgadas pelo mundo antes que o filme tenha a chance de conhecê-las.
Arlen é despachada para fora da sociedade com uma garrafa d’água, algum alimento e praticamente nenhuma perspectiva. Suki Waterhouse ainda está aprendendo a geografia daquele desterro quando homens a capturam, acorrentam e amputam-lhe um braço e uma perna para comer. Amirpour não demora a esclarecer que a metáfora política será servida com carne. Os Estados Unidos do filme resolveram um problema antigo de uma maneira muito eficiente: em vez de recuperar os inadequados, cercam um pedaço do território, jogam-nos ali e deixam que inventem outra civilização.
Amirpour e Tarantino
Depois de “Garota Sombria Caminha pela Noite”, Eddy Moretti, então diretor criativo da Vice, chamou Amirpour de “a próxima Tarantino”. É dessas comparações que parecem explicar mais depressa do que deveriam, mas desta vez há alguma coisa concreta por baixo do rótulo. Ao falar de “Amores Canibais”, Amirpour mencionou justamente o que admirava em Quentin Tarantino: a disposição para permanecer dentro da violência depois que ela acontece, sem transformar um tiro, uma morte ou uma explosão em mera pontuação narrativa. Arlen é quase uma demonstração dessa ideia. A amputação não encerra uma sequência brutal. Torna-se a condição física dentro da qual todo o resto do filme terá de existir.
O segundo longa de Amirpour competiu pelo Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2016 e saiu de lá com o Prêmio Especial do Júri, reconhecimento curioso para uma obra que parece empenhada em escapar de classificações. Há ficção científica, faroeste, romance, terror, distopia, humor e uma espécie de delírio pop que faz Keanu Reeves aparecer como líder messiânico de uma comunidade no meio do nada e Jim Carrey atravessar o deserto quase irreconhecível, sem que o filme se preocupe em oferecer-lhes a centralidade que a fama dos dois poderia exigir. Amirpour sabe que estrelas também podem servir de decoração.
Comfort e Miami Man
Depois de escapar dos canibais, Arlen chega a Comfort, assentamento governado por The Dream, o personagem de Reeves. O nome da cidade é uma das ironias menos discretas do roteiro. Há música, festas, drogas, gravidez, promessas de pertencimento e uma economia própria, mas a segurança continua dependendo de alguém suficientemente poderoso para decidir o que os demais podem fazer. The Dream veste-se de branco, fala como um sujeito que descobriu a chave do universo e governa como tantos homens que alegam não governar coisa alguma.
Arlen poderia permanecer ali, adaptar-se à mutilação e agradecer por estar viva. Não é de sua natureza. Ela volta ao deserto e cruza o caminho de Miami Man, o canibal interpretado por Jason Momoa, um monumento de músculos, silêncio e uma delicadeza que o roteiro vai deixando escapar quando lhe convém. A filha dele desapareceu, e a busca pela menina aproxima duas pessoas que, em circunstâncias um pouco menos absurdas, deveriam estar tentando matar uma à outra.
É nesse relacionamento que “Amores Canibais” começa a ficar verdadeiramente estranho. Amirpour não pede que se esqueça o que aconteceu com Arlen. Miami Man pertence ao grupo que a devorou, ainda que não seja o responsável direto por sua mutilação, e a atração entre os dois carrega uma sujeira moral que nenhum pôr do sol consegue limpar. A diretora prefere permanecer aí, no desconforto. Em seu mundo, ninguém chega ao amor depois de tornar-se uma pessoa melhor. Chega-se como é possível, carregando pedaços que faltam e outros que talvez devessem ter sido arrancados.
Momoa compreende bem o jogo e reduz o personagem a movimentos econômicos, o que faz contraste com o ambiente extravagante de Comfort. Waterhouse oscila mais. Arlen precisa ser ao mesmo tempo vítima, sobrevivente, aventureira e alguém capaz de sentir desejo pelo homem que simboliza tudo aquilo que deveria temer, e nem sempre a atriz consegue juntar essas partes. Talvez nem devesse. O filme também é feito de membros que não se encaixam.
A trilha musical assume em vários momentos o trabalho que diálogos fariam num longa mais convencional, e Amirpour estende caminhadas, danças e silêncios até quase desafiar a paciência. Algumas sequências parecem existir apenas porque a diretora gosta delas. Isso pode ser um defeito, mas também é o que impede “Amores Canibais” de virar mais uma distopia organizada em que cada objeto está pronto para explicar o colapso da sociedade. O mundo acabou de um jeito muito mais banal: os incluídos simplesmente decidiram onde colocar os excluídos.
Jim Carrey entre os rejeitados
Jim Carrey é o exemplo mais radical dessa recusa à explicação. Seu eremita quase não fala, surge empurrando um carrinho e poderia desaparecer do filme sem prejuízo narrativo considerável. Ainda assim, sua presença produz uma das imagens mais adequadas àquele universo. Um dos comediantes mais reconhecíveis de Hollywood transformado num homem que ninguém reconhece, perambulando entre os rejeitados.
Amirpour não chega a organizar todas as ideias que espalha pela areia, e ainda bem que não tenta fazê-lo no último instante. “Amores Canibais” é irregular, às vezes pretensioso, outras vezes hipnótico, e guarda uma convicção meio indecente de que mesmo depois da falência da civilização alguém ainda haverá de desejar companhia. Arlen perdeu um braço e uma perna. O que lhe resta, descobre ela, continua querendo alguma coisa.

