Crianças sabem muito mais sobre os pais do que os pais imaginam. Elas não entendem necessariamente as palavras que escutam atrás de uma porta, desconhecem os pactos silenciosos dos adultos e não conseguem dar nome ao medo que toma a casa depois de determinada hora, mas conhecem ruídos, mudanças no tom de voz, passos demasiado pesados no corredor e aquela modalidade de silêncio que se instala quando alguém perigoso acaba de entrar. Willow, a menina de dez anos que conduz “A Fera Interior”, já sabe que há alguma coisa errada com o pai antes de descobrir que, em certas noites, Noah se transforma literalmente num monstro.
Alexander J. Farrell parte daí para um terror de lobisomem que quase nunca trata o lobisomem como sua verdadeira ameaça. A ideia não é nova, porém continua poderosa. Monstros sempre foram muito mais úteis ao cinema quando representam aquilo que os homens não conseguem confessar. O vampiro fala de desejo, o zumbi de uma humanidade que se devora, e o lobisomem permanece como uma criatura particularmente adequada para encarnar a violência que alguém jura não conseguir controlar. Noah também tem suas desculpas.
Willow vive isolada com a mãe, Imogen, o pai e o avô Waylon numa propriedade rural inglesa, cercada por uma natureza que deveria oferecer liberdade a uma criança, mas funciona como muro. A menina sofre com problemas respiratórios e depende dos cuidados da família, situação perfeita para que os adultos justifiquem seu confinamento. Ela não pode ir longe porque é frágil. Não deve perguntar demais porque é criança. É melhor não saber certas coisas porque o conhecimento poderia assustá-la. Enquanto dizem protegê-la, vão fabricando seu medo.
Caoilinn Springall é a grande vantagem do filme porque Farrell percebe que a história pertence a Willow e resiste, na maior parte do tempo, à tentação de entregá-la a Kit Harington. A menina observa. Espia. Escuta. Tenta montar uma narrativa com pedaços que chegam a ela por acidente, e essa posição faz de “A Fera Interior” uma história bastante mais incômoda quando ninguém está rosnando ou mostrando dentes.
O monstro já mora na casa
Noah ora aparece como um pai afetuoso, ora transforma qualquer pequeno incidente numa ameaça. Harington funciona melhor nesse trânsito do que quando o filme finalmente exige dele uma monstruosidade mais convencional. Seu rosto cansado, a barba, o corpo pesado e a maneira como ocupa os ambientes já produzem uma sensação de perigo que nenhum efeito visual consegue ampliar muito. Ashleigh Cummings, por sua vez, faz de Imogen uma mulher que aprendeu a viver antecipando o próximo acesso do marido. Antes de uma palavra atravessada, ela já está preparada para conter a consequência.
James Cosmo completa esse pequeno universo como Waylon, presença que introduz um outro desconforto. O velho sabe. Talvez saiba há tempo demais. E famílias costumam ser especialmente hábeis em transformar conhecimento em cumplicidade quando acreditam que estão preservando alguém, uma casa ou o próprio sobrenome.
É nessa camada que o filme de Farrell e Greer Ellison encontra sua melhor matéria. A criatura não aparece numa comunidade inocente e a invade. Ela já mora ali. Dorme na casa, participa das refeições, é pai e marido. Todos desenvolveram procedimentos para lidar com ela. Há noites específicas, caminhos pela floresta, cuidados que precisam ser tomados e explicações oferecidas à criança. O absurdo tornou-se rotina, o que é muito mais assustador que a ideia de um homem ganhar pelos e presas quando a lua se completa.
Quando a metáfora ganha dentes
A metáfora, infelizmente, vai sendo cada vez menos metáfora.
“A Fera Interior” começa confiando na capacidade do espectador de perceber que a maldição de Noah e a violência doméstica caminham juntas, mas perde essa confiança conforme avança. Farrell sublinha o que já estava claro e reduz algumas ambiguidades que poderiam tornar Noah muito mais perturbador. O lobisomem como representação de um agressor é uma boa ideia justamente porque permite a pergunta incômoda sobre onde termina a doença e começa a responsabilidade. O homem não controla a transformação, talvez. Mas e antes dela? E depois? E em todos os dias em que a lua não serve de desculpa?
Quando o filme encosta nessa questão, Harington encontra seus melhores momentos. O peso de Noah não vem de sua natureza sobrenatural, e sim da capacidade de reconhecer alguma coisa monstruosa em si e ainda assim exigir que os outros convivam com ela. É uma velha dinâmica humana, talvez mais velha que as histórias de licantropia. O agressor sofre, arrepende-se, promete, ama, volta a ameaçar e então oferece seu sofrimento como justificativa para o sofrimento que causa.
Imogen conhece o ciclo. Willow começa a conhecê-lo.
A direção acerta ao manter a paisagem inglesa em estado quase permanente de desconfiança. A floresta não é exatamente má, mas pertence ao pai. A casa não é propriamente segura, mas pertence à família. Até o corpo de Willow, sujeito às limitações respiratórias, parece conspirar para mantê-la onde está. Sua descoberta do segredo deveria libertá-la do desconhecido, contudo faz o oposto. Agora ela sabe o que deve temer.
Farrell poderia ter ido mais longe se tratasse a criatura com menos solenidade. O horror que “A Fera Interior” persegue já estava na mesa do jantar, nos gestos de Imogen, na resignação de Waylon, na maneira como Willow mede o humor do pai antes de aproximar-se dele. Quando o filme lembra disso, arrepia. Quando quer provar que é uma história de lobisomem, perde um pouco dos dentes.
No fim, pouco importa saber se o mal de Noah veio dos antepassados, da lua ou de algum ponto escuro de sua própria natureza. Para Willow, todas essas explicações significam rigorosamente a mesma coisa. A fera é o pai. E a pior parte é que, quando ela não está ali, o pai também pode ser um homem que a menina ama.

