Todo casamento suficientemente longo acaba guardando alguns fantasmas. Não é necessário haver adultério, violência, abandono ou uma desgraça espetacular que sirva de motivo para uma separação. Às vezes o problema é mais ordinário e, por isso mesmo, mais difícil de combater. Duas pessoas continuam vivendo juntas, cuidam dos filhos, resolvem contas, comparecem às comemorações, deitam-se na mesma cama e um belo dia uma delas descobre que se transformou numa espécie de funcionária da própria vida. “Desejo” começa nesse lugar pouco romântico e bastante fértil, pondo Ludwika Paleta no centro de um thriller erótico que acerta quando observa Lucero e se atrapalha sempre que resolve explicar demais os perigos que a cercam.
Lucero é uma advogada bem-sucedida, casada com Fernando, mãe, respeitada e dona daquela aparência de mulher que teoricamente não tem direito de estar insatisfeita. É uma armadilha bastante velha. Como poderia reclamar alguém a quem não falta dinheiro, família, conforto ou reconhecimento profissional? Teresa Simone, em seu primeiro longa, compreende que precisamente daí nasce o desconforto da personagem. Não falta coisa alguma que possa ser fotografada. Falta-lhe alguma coisa que ninguém ao redor é capaz de ver.
A chegada de Matías dá forma ao vazio.
O homem que entra pela piscina
Jovem, bonito e contratado como técnico de natação da filha de Lucero, ele pertence à velha família cinematográfica dos intrusos que entram numa casa aparentemente organizada e, sem fazer muito esforço, deixam evidente que a desordem já estava toda ali. O mérito do roteiro de Giulia Cardamone e Vanessa Miklos é não colocar sobre Matías a responsabilidade exclusiva pelo que acontece. Ele não inventa o casamento fatigado de Lucero, não cria sua frustração e tampouco instala nela uma sexualidade que estivesse ausente. Serve apenas de detonador.
Óscar Casas sabe o que seu personagem representa e, felizmente, não tenta dotá-lo de uma profundidade que o texto não oferece. Matías aparece como possibilidade antes de aparecer como homem. A diferença de idade, a relação profissional que o aproxima da família e a facilidade com que se movimenta naquele ambiente tornam tudo mais perigoso, mas Lucero não parece procurar exatamente um rapaz mais jovem. Ela quer experimentar outra vez a sensação de ser desejada sem que isso venha acompanhado das obrigações que se acumulam num relacionamento de vinte anos.
Teresa Simone tira proveito dessa ambiguidade, especialmente nas cenas em que Paleta deixa a personagem imóvel por alguns segundos a mais do que seria confortável. Lucero pensa antes de agir, sabe que está fazendo uma estupidez e faz assim mesmo. É justamente aí que “Desejo” se distancia por algum tempo das tantas produções que tratam mulheres maduras sexualmente insatisfeitas como criaturas descontroladas diante do primeiro abdômen definido que lhes cruza o caminho.
Nada disso absolve Lucero. E não deveria.
O thriller erótico sempre viveu da indiscrição. O espectador é convidado a entrar num quarto onde não foi chamado, observar pessoas tomando decisões ruins e depois desfrutar daquela superioridade moral muito confortável de quem sabe que poderia ter feito diferente. Adrian Lyne construiu boa parte da carreira em cima desse jogo, e “Atração Fatal” ainda assombra qualquer filme em que casamento, desejo e risco dividem a mesma cama. “Desejo” conhece a herança, porém tem a vantagem de deslocar o impulso sexual para uma mulher cuja idade já deveria, segundo certa cartilha tacanha, tê-la convencido a comportar-se.
Ludwika Paleta não está interessada nessa cartilha. Sua Lucero pode ser imprudente, egoísta e até cruel em alguns momentos, mas nunca ridícula, mesmo quando o filme se aproxima perigosamente dessa possibilidade. A atriz encontra as melhores nuances justamente no contraste entre a profissional que domina uma sala e a mulher que, diante de Matías, perde aos poucos aquela noção tão preciosa de controle que organizava seu cotidiano. José María Yazpik joga do outro lado, dando a Fernando uma sobriedade que impede o marido de transformar-se imediatamente no pobre coitado oficial da história.
Quando o desejo vira ameaça
Ocorre que “Desejo” quer ser mais que o estudo de um casamento e resolve avançar para a zona do thriller. Segredos começam a produzir outros segredos; ciúmes exigem novas mentiras; a intimidade deixa de pertencer apenas a Lucero e Matías, e o núcleo familiar, que parecia funcionar à margem da aventura, é tragado por ela. A filha passa a ocupar posição incômoda nessa geometria afetiva, e então o longa revela seu lado mais novelesco.
Não há demérito automático nisso. A telenovela latino-americana passou décadas aperfeiçoando uma verdade elementar que Hollywood demorou a compreender, qual seja, ninguém precisa de um serial killer quando se tem uma família. Uma mesa de jantar, algumas pessoas obrigadas a conviver e um segredo bem escolhido podem produzir mais tensão que uma floresta escura. Simone parece saber disso, mas em certos momentos não confia o bastante no material e apela para mecanismos de suspense que tornam a história mais movimentada e, paradoxalmente, menos interessante.
O sexo também sofre com essa indecisão. “Desejo” apresenta-se como thriller erótico e utiliza a relação física entre Lucero e Matías como elemento central, mas o erotismo verdadeiro surge menos dos corpos que da expectativa. Um olhar no lugar errado, uma proximidade indevida, a percepção de que alguém notou alguma coisa. Quando o filme tenta tornar explícito o que já estava suficientemente carregado, a temperatura cai.
Há também a piscina, espaço em que corpos são observados, treinados, avaliados, expostos. A água opera bem como elemento visual porque oferece uma falsa impressão de limpeza num filme em que ninguém permanece propriamente limpo por muito tempo. Lucero acredita que consegue entrar e sair daquela relação clandestina sem levar consigo o cheiro do lugar, e esse é um dos seus muitos enganos.
Paleta carrega o longa porque compreende algo que o roteiro às vezes esquece. Lucero não deseja apenas Matías. Deseja voltar a experimentar uma versão de si mesma que acredita ter perdido em algum momento entre o casamento, os filhos, a profissão e as pequenas obrigações que não parecem importantes quando examinadas isoladamente, mas que consomem uma vida inteira quando postas umas sobre as outras.
Matías passa. Fernando pode permanecer ou não. Os filhos crescerão. O verdadeiro problema de Lucero é descobrir o que fazer depois de conhecer a mulher que ainda existe por baixo da personagem que passou duas décadas interpretando. “Desejo” teria sido um filme melhor se confiasse mais nessa mulher e um pouco menos nas armadilhas que prepara para ela.

