Iates de luxo são uma maneira engenhosa de provar que dinheiro demais também pode comprar claustrofobia. Cercado de mármore, vidro, champanhe e empregados que parecem saber o momento exato de desaparecer, o milionário em alto-mar desfruta da vantagem adicional de manter centenas de quilômetros de água entre si e qualquer pessoa que possa estragar-lhe a festa. “A Mulher na Cabine 10” entende muito bem esse potencial e transforma uma embarcação para privilegiados num lugar de onde ninguém consegue simplesmente sair.
Baseado no romance de Ruth Ware, publicado em 2016, o filme põe Keira Knightley na pele de Laura “Lo” Blacklock, jornalista experiente que aceita acompanhar a viagem inaugural de um superiate comandado pelo bilionário Richard Bullmer. Ela chega à embarcação ainda abalada por um episódio traumático e um pouco desconfortável com a tarefa de circular entre pessoas cuja filantropia parece tão cuidadosamente produzida quanto os drinques oferecidos a bordo.
Na primeira noite, Lo cruza com uma mulher na cabine vizinha. Mais tarde, ouve uma movimentação, sai à varanda e acredita ver alguém caindo no mar. Entretanto, segundo a tripulação, a cabine 10 estava vazia. Todos os passageiros estão contabilizados. Ninguém desapareceu. Ninguém viu coisa alguma. Por isso, a jornalista passa de testemunha a inconveniente com uma velocidade que diz muito sobre aquela gente.
Quando a realidade precisa de autorização
Simon Stone faz uma opção inteligente ao não transformar Lo numa narradora cuja percepção o público deve investigar. O interesse não está em descobrir se ela viu o que pensa ter visto, mas em acompanhar uma mulher cercada por gente empenhada em convencê-la de que a realidade precisa submeter-se à versão mais conveniente. Desse modo, Knightley sabe explorar a situação sem recorrer ao repertório habitual da heroína histérica que Hollywood cultivou por décadas.
Ela está especialmente bem nos momentos em que Lo percebe que insistir na história começa a fazê-la parecer menos confiável. Quanto mais pergunta, mais olhares recebe. Quanto mais procura, mais razões oferecem-lhe para parar. Ao mesmo tempo, o medo não vem apenas da possibilidade de haver um assassino no barco, mas da facilidade com que um grupo socialmente poderoso estabelece uma narrativa e transforma qualquer dissidente em pessoa desequilibrada.
Guy Pearce, por outro lado, compreende a utilidade da polidez na pele de Bullmer. Seu personagem pertence à longa tradição de homens que não precisam erguer a voz porque toda a estrutura ao redor já fala por eles. Além disso, Hannah Waddingham, Kaya Scodelario, Gugu Mbatha-Raw, David Morrissey e Daniel Ings engrossam um elenco numeroso, talvez numeroso demais para 95 minutos.
Um barco cheio de gente importante
Enquanto isso, Stone nem sempre encontra uma função dramática à altura de intérpretes tão interessantes. Alguns passageiros são apresentados com a solenidade de grandes suspeitos para depois permanecerem pouco mais que peças decorativas de uma sala muito cara. Ainda assim, o elenco mantém aquela sensação de que qualquer conversa banal pode esconder alguma coisa mais incômoda.
Há bastante Hitchcock na configuração e ecos de suspenses dos anos 1970. No entanto, “A Mulher na Cabine 10” é liso demais para a paranoia que pretende produzir. O superiate é magnífico, a fotografia de Ben Davis sabe explorar superfícies refletoras, corredores estreitos e o cinza do mar, e Benjamin Wallfisch empurra a tensão na direção certa. Porém, o roteiro de Stone, Joe Shrapnel e Anna Waterhouse começa a depender de coincidências e conveniências precisamente quando deveria apertar o cerco.
Ainda assim, Knightley mantém o filme acima da água. Lo não investiga porque seja destemida, e sim porque sabe que viu alguém cair. Parece pouco, mas toda boa reportagem começa com uma coisa concreta que alguém poderoso preferiria que não tivesse acontecido. Afinal, em terra firme, seria possível ir embora. No meio do mar, restam duas alternativas: aceitar a mentira ou descobrir quem precisa tanto dela.

