Em 1937, durante uma viagem pelo Egito, Hercule Poirot embarca em um cruzeiro pelo Nilo e acaba investigando o assassinato de uma jovem herdeira. Cercado por passageiros elegantes, ressentimentos antigos e interesses financeiros, o detetive precisa descobrir quem transformou uma lua de mel em crime.
Dirigido por Kenneth Branagh, “Morte no Nilo” adapta o romance de Agatha Christie e retoma o detetive apresentado em “Assassinato no Expresso do Oriente”. Branagh também interpreta Hercule Poirot, investigador belga conhecido pela inteligência, pela vaidade e por um bigode que parece exigir mais cuidados do que muitos relacionamentos.
A história começa antes do embarque. Jacqueline de Bellefort (Emma Mackey) apresenta o noivo, Simon Doyle (Armie Hammer), à amiga Linnet Ridgeway (Gal Gadot). Rica, admirada e acostumada a conseguir o que deseja, Linnet oferece trabalho ao rapaz. Pouco depois, Simon abandona Jacqueline e se casa com a herdeira.
A situação transforma uma amizade em guerra íntima. Jacqueline passa a seguir os recém-casados pelo Egito e aparece nos mesmos hotéis, restaurantes e pontos turísticos. Ela não precisa ameaçá-los abertamente. Sua presença basta para lembrar que aquele casamento nasceu da ruína de outra pessoa.
Linnet procura Poirot e pede proteção. O detetive reconhece o perigo, mas também sabe que uma mulher abandonada não pode ser presa por frequentar lugares públicos. Sem cometer um crime, Jacqueline permanece livre para perseguir o casal. A milionária tem dinheiro para mudar os planos da viagem, porém não consegue comprar distância.
O luxo não oferece proteção
Simon decide levar os convidados para o Karnak, um sofisticado barco que percorre o rio Nilo. A intenção é afastar Jacqueline e preservar a lua de mel. O plano produz o efeito contrário. Ao reunir todos numa embarcação, Simon cria um ambiente fechado onde antigas mágoas, dívidas e interesses passam a dividir os mesmos corredores.
Poirot embarca ao lado de Bouc (Tom Bateman), amigo falante que já havia acompanhado suas investigações. O rapaz viaja com a mãe, Euphemia Bouc (Annette Bening), pintora rica, desconfiada e pouco interessada em respeitar a privacidade alheia. Ela desaprova o romance do filho com Rosalie Otterbourne (Letitia Wright), jovem inteligente que trabalha como empresária da tia, a cantora Salome Otterbourne (Sophie Okonedo).
A lista de passageiros inclui ainda Louise Bourget (Rose Leslie), empregada de Linnet, e Andrew Katchadourian (Ali Fazal), primo e administrador dos negócios da herdeira. Marie Van Schuyler (Jennifer Saunders), madrinha da noiva, viaja acompanhada pela enfermeira Mrs. Bowers (Dawn French). Também está presente o médico Linus Windlesham (Russell Brand), antigo pretendente de Linnet.
Cada um carrega uma relação mal resolvida com a recém-casada. Alguns dependem de seu dinheiro. Outros perderam oportunidades por causa dela. Há ainda quem considere aquela fortuna uma afronta moral, embora ninguém pareça disposto a manter grande distância dos privilégios oferecidos. O Karnak possui quartos confortáveis, boa comida e uma quantidade preocupante de passageiros com razões para odiar a anfitriã.
Um crime interrompe o passeio
Quando Linnet é assassinada, o barco deixa de ser cenário de férias e se torna o único lugar onde o criminoso pode estar escondido. Poirot assume a investigação, examina os horários e interroga os viajantes. Como ninguém consegue abandonar a embarcação, todas as versões podem ser comparadas com os deslocamentos registrados durante a noite.
O trabalho exige cuidado porque quase todos mentem, embora nem sempre sobre o assassinato. Um passageiro esconde uma dívida. Outro protege um romance. Há quem tema perder dinheiro, emprego ou reputação caso a verdade apareça. Poirot precisa separar os segredos constrangedores das informações que realmente podem identificar o assassino.
Bouc ajuda o detetive a circular entre os convidados, mas sua ligação com Rosalie também desperta suspeitas dentro da própria família. Euphemia contratou Poirot para investigar a jovem e descobrir se ela seria adequada ao filho. O belga, portanto, chega ao caso carregando uma tarefa particular que Bouc desconhece. Quando essa interferência vem à tona, a amizade entre os dois sofre um abalo.
Branagh apresenta a investigação com ritmo paciente. Os depoimentos revelam pouco a pouco os vínculos entre os passageiros, enquanto portas, cabines e corredores mantêm informações fora do alcance de Poirot. O suspense nasce da falta de espaço. Todos permanecem próximos, mas ninguém sabe quem pode atacar outra vez.
Poirot também carrega perdas
O roteiro escrito por Michael Green acrescenta uma história pessoal ao detetive. Um prólogo ambientado na Primeira Guerra Mundial revela a origem das cicatrizes de Poirot e associa seu famoso bigode a uma perda amorosa. A explicação aproxima o personagem do público, embora dedique bastante tempo a um detalhe que funcionava muito bem sem biografia.
Essa abordagem reaparece na relação entre Poirot e Salome. Ele se mostra atraído pela cantora, mas hesita em abandonar a proteção criada após anos de solidão. Branagh interpreta o detetive com maior vulnerabilidade e diminui a distância entre o investigador brilhante e os passageiros consumidos pelo amor. Até Poirot, tão seguro diante das pistas, parece menos competente quando precisa lidar com os próprios sentimentos.
A escolha combina com uma história movida por desejo, ciúme e posse. Linnet acredita que sua fortuna pode afastar os riscos. Jacqueline usa a persistência para impedir que o antigo noivo esqueça o passado. Simon tenta preservar o casamento enquanto vive cercado pelas consequências de sua escolha. Todos querem controlar alguém, e o Nilo apenas leva esse grupo para mais longe de qualquer ajuda.
Um mistério elegante e irregular
Gal Gadot dá a Linnet uma segurança que perde força conforme a perseguição aumenta. Emma Mackey oferece mais intensidade a Jacqueline e faz da personagem uma presença difícil de ignorar. Mesmo quando está fora de cena, a antiga noiva permanece na memória dos demais. Armie Hammer interpreta Simon com uma mistura de charme e desconforto, adequada a um homem preso entre duas mulheres que conhecem seus pontos fracos.
Tom Bateman traz leveza ao papel de Bouc, enquanto Annette Bening transforma Euphemia numa mãe capaz de investigar uma possível nora antes mesmo de convidá-la para o almoço. Sophie Okonedo domina as aparições de Salome com voz firme e elegância. Já Letitia Wright apresenta Rosalie como alguém acostumada a se defender de julgamentos sociais.
O cenário egípcio oferece escala e beleza, mas alguns efeitos digitais deixam paisagens e monumentos artificiais demais. O luxo do Karnak possui maior força quando Branagh fecha as portas e permite que a suspeita circule entre as cabines. Nesses trechos, o barco volta a cumprir sua função principal e mantém assassino, vítimas e investigador presos na mesma rota.
“Morte no Nilo” perde algum tempo ao explicar demais o passado de Poirot, mas recupera interesse quando o detetive começa a ligar horários, depoimentos e interesses financeiros. O mistério permanece compreensível sem tratar o público com condescendência. Branagh entrega uma adaptação acessível, vistosa e envolvente, sustentada por um elenco numeroso e por uma pergunta simples que atravessa toda a viagem. Entre tantos passageiros feridos pelo amor ou pelo dinheiro, qual deles decidiu matar?

