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Em 1946, a escritora Juliet Ashton deixa Londres e viaja até Guernsey para conhecer um clube de leitura criado durante a ocupação nazista. Movida por uma carta e pela possibilidade de escrever um novo livro, ela chega à ilha cheia de perguntas, mas logo percebe que seus moradores ainda protegem dores difíceis de transformar em palavras.

Juliet Ashton (Lily James) vive um período de sucesso profissional após a Segunda Guerra Mundial. Seus livros bem-humorados conquistaram leitores, as sessões de autógrafos ocupam sua agenda e Sidney Stark (Matthew Goode), seu editor e amigo, cuida para que a carreira continue avançando. Apesar da boa fase, Juliet deseja abandonar o pseudônimo Izzy Bickerstaff e produzir uma obra que lhe pareça mais relevante.

Esse desejo começa a ganhar forma quando ela recebe uma carta de Dawsey Adams (Michiel Huisman), agricultor que mora na ilha de Guernsey. Ele comprou um exemplar usado de Charles Lamb que antes pertencera à escritora e pede sua ajuda para conseguir outro livro do autor. No meio da conversa, menciona a Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata, grupo fundado durante a ocupação alemã.

O nome comprido e um tanto absurdo desperta a curiosidade de Juliet. Ela envia o livro solicitado e pede mais informações sobre os integrantes. A correspondência cresce, Dawsey relata parte da história do clube e a escritora percebe que ali pode estar o assunto que procurava. Em pouco tempo, uma mensagem enviada por um desconhecido oferece a ela uma razão para atravessar o Canal da Mancha.

O clube inventado durante a guerra

A sociedade surgiu em 1941, quando Guernsey estava ocupada pelas tropas alemãs. Certa noite, Elizabeth McKenna (Jessica Brown Findlay), Amelia Maugery (Penelope Wilton), Isola Pribby (Katherine Parkinson), Eben Ramsey (Tom Courtenay) e Dawsey foram surpreendidos fora de casa depois do toque de recolher. Para escapar da prisão, Elizabeth afirmou que todos voltavam de uma reunião literária.

A desculpa precisava parecer verdadeira caso os soldados resolvessem investigar. Os amigos, então, criaram um clube de leitura de verdade, estabeleceram encontros regulares e passaram a comentar livros. Alguns integrantes nunca haviam demonstrado grande interesse por literatura. A necessidade, porém, fez leitores bastante improváveis defenderem seus autores preferidos com uma seriedade que talvez nem os próprios escritores esperassem.

A torta de casca de batata apareceu naquele período de escassez, quando ingredientes comuns haviam se tornado artigos preciosos. Sua fama se deve mais à criatividade do que ao sabor. O prato ajuda a explicar o título peculiar da sociedade e também lembra que aquelas reuniões nasceram sob vigilância, fome e medo.

Os livros ofereceram abrigo durante as noites de ocupação. Por algumas horas, os moradores podiam conversar, dividir alimentos e pensar em algo além das patrulhas alemãs. A literatura não eliminava o perigo, mas devolvia ao grupo uma pequena parcela de liberdade dentro de uma ilha controlada por soldados.

Juliet desembarca em Guernsey

Encantada pelas cartas, Juliet decide visitar Guernsey e conhecer os membros da sociedade. A viagem também lhe permitiria reunir material para um artigo. Sidney demonstra preocupação com o projeto, mas conhece bem a insistência da amiga e percebe que mantê-la em Londres seria uma tarefa pouco promissora.

Antes da partida, Mark Reynolds (Glen Powell), oficial norte-americano rico e apaixonado, pede Juliet em casamento. Ele oferece segurança, conforto e uma vida bastante organizada. Ela aceita o pedido, embora sua felicidade pareça menos firme que os planos apresentados pelo noivo. O anel segue com Juliet até Guernsey, mas a distância torna suas dúvidas mais difíceis de ignorar.

Na ilha, Dawsey recebe a escritora com gentileza. A sintonia entre os dois nasce das cartas e cresce nos encontros pessoais, embora ambos mantenham certa reserva. Ele é trabalhador, afetuoso e profundamente ligado aos outros moradores. Juliet, por sua vez, chega com a pressa de quem imagina ficar poucos dias e acaba envolvida por pessoas que não cabem numa matéria breve.

Isola recebe a visitante com entusiasmo e uma curiosidade quase sem freios. Eben compartilha histórias familiares, enquanto Amelia mantém distância e rejeita a proposta de publicação. Para ela, os sofrimentos vividos pelos amigos não devem virar entretenimento para leitores de Londres. Juliet percebe que sua simpatia não lhe concede acesso automático às lembranças alheias.

A ausência de Elizabeth

A principal questão surge quando Juliet pergunta por Elizabeth, responsável pela criação do clube. Ninguém oferece uma explicação completa. A jovem foi presa durante a ocupação e levada para fora da ilha, deixando sua filha Kit (Florence Keen) aos cuidados dos amigos. Dawsey participa da criação da menina, que cresceu cercada pelos integrantes da sociedade.

Juliet prolonga sua permanência em Guernsey para descobrir o que aconteceu. A pesquisa deixa de ser apenas uma oportunidade profissional e passa a envolver pessoas pelas quais ela desenvolve afeto. Cada relato revela um pedaço da ocupação, mas também expõe culpas, perdas e escolhas feitas sob domínio nazista. Amelia teme que a escritora transforme essas feridas em páginas elegantes demais para uma realidade brutal.

Mike Newell distribui as lembranças em breves retornos ao período da guerra. Essas passagens surgem quando os moradores decidem falar e ajudam o público a acompanhar a história sem transformar “A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata” numa aula sobre a ocupação das Ilhas do Canal. O interesse permanece nas pessoas e na maneira particular pela qual cada uma preservou a própria dignidade.

Um romance cercado por escolhas

A convivência aproxima Juliet e Dawsey, mas o romance cresce com discrição. Ele está ligado a Kit, à terra e aos amigos. Ela possui trabalho, editor e noivo em Londres. A atração existe, embora nenhum dos dois possa tratá-la como uma aventura de férias. Qualquer escolha afetiva terá consequências para outras pessoas.

Lily James oferece vivacidade a Juliet sem esconder seu desconforto. A personagem é inteligente, curiosa e por vezes inconveniente, sobretudo quando insiste em perguntas que os moradores preferem deixar guardadas. Michiel Huisman interpreta Dawsey com sobriedade, enquanto Penelope Wilton faz de Amelia a presença mais dura e dolorosa do grupo. Katherine Parkinson traz leveza a Isola, cuja indiscrição carinhosa impede que as reuniões fiquem solenes demais.

Jessica Brown Findlay aparece nas lembranças como Elizabeth, mulher corajosa que se recusa a aceitar passivamente as regras impostas pelos ocupantes. Mesmo ausente em boa parte da história, ela permanece no centro das relações. Suas escolhas explicam a união dos amigos, a criação de Kit e o silêncio que Juliet tenta atravessar.

“A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata” reúne drama de guerra, investigação e romance numa história calorosa, ainda que bastante tradicional. O roteiro abraça certas coincidências e oferece uma Guernsey mais charmosa do que áspera. Ainda assim, o elenco sustenta a emoção sem tornar cada sofrimento uma exibição.

O título pode dar a impressão de uma comédia sobre leitores excêntricos e receitas de aproveitamento. Há um pouco disso, inclusive uma torta que dificilmente venceria um concurso culinário. O filme, porém, ganha força ao acompanhar pessoas que usaram livros para preservar vínculos durante a guerra. Juliet chega à ilha em busca de um tema e permanece porque aqueles moradores deixam de ser personagens possíveis para ocupar um lugar verdadeiro em sua vida.


Filme: A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata
Diretor: Mike Newell
Ano: 2018
Gênero: Drama/Guerra/Romance
Avaliação: 4/5 1 1
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