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Em meados do século 19, o médico Victor Frankenstein (Oscar Isaac) desafia a ciência europeia ao criar um ser vivo a partir de cadáveres. Dirigido por Guillermo del Toro e inspirado no romance de Mary Shelley, “Frankenstein” acompanha um homem brilhante que deseja vencer a morte, mas demonstra pouca disposição para cuidar da vida produzida em seu laboratório. O experimento desperta uma Criatura interpretada por Jacob Elordi, cuja aparência provoca medo antes mesmo que ela possa aprender a falar ou explicar quem é.

Victor cresce numa casa rica, sob a autoridade do pai, o barão Leopold Frankenstein (Charles Dance), médico respeitado e homem de temperamento cruel. A morte da mãe durante o nascimento de William marca o garoto e alimenta sua revolta contra os limites do corpo humano. Enquanto o irmão recebe a atenção do pai, Victor transforma o luto em ambição científica.

Já adulto, ele se torna um cirurgião talentoso, arrogante e obcecado pela possibilidade de reanimar os mortos. Victor apresenta suas experiências a outros médicos, mas o caráter perturbador da pesquisa fecha as portas da instituição. Seus colegas admitem a habilidade do cientista, embora não estejam dispostos a permitir cadáveres reanimados numa sala de aula. Há limites até para uma faculdade de medicina do século 19.

A rejeição profissional não encerra o projeto. Heinrich Harlander (Christoph Waltz), empresário rico e interessado nos resultados da pesquisa, oferece dinheiro, equipamentos e uma torre afastada. Victor aceita a proposta porque precisa de liberdade para trabalhar longe da fiscalização. Harlander, porém, não financia o laboratório por generosidade. Ele espera receber algo valioso em troca e deixa o cientista preso a um acordo cada vez mais desconfortável.

Um corpo desperta na torre

Victor reúne partes de cadáveres e constrói um organismo alto, forte e resistente. Após uma experiência cercada por eletricidade e instrumentos cirúrgicos, a Criatura (Jacob Elordi) desperta. O feito confirma que o médico conseguiu produzir vida, mas também coloca diante dele uma responsabilidade para a qual nunca se preparou.

A Criatura nasce sem vocabulário, referências ou conhecimento do mundo. Ela depende de Victor para aprender palavras, reconhecer objetos e controlar os próprios movimentos. O cientista deseja uma mente capaz de acompanhar seu raciocínio, porém se irrita quando o aprendizado leva tempo. Ele trata o novo ser como resultado de laboratório e espera desempenho, obediência e gratidão. Cuidado, paciência e afeto ficam para depois, e esse “depois” demora demais.

Jacob Elordi dá ao personagem uma presença imponente sem transformá-lo apenas numa ameaça física. A altura assusta, as cicatrizes denunciam a origem do corpo, mas o comportamento inicial pertence a alguém desorientado. A Criatura observa, repete sons e procura contato. Seu maior perigo, naquele estágio, nasce da força que ainda não sabe controlar e do medo provocado nas pessoas ao redor.

Victor responde a essa dificuldade com dureza. Quanto mais a Criatura demonstra carência, maior fica a impaciência do criador. A relação entre os dois ganha a forma de uma paternidade recusada. Victor quer o prestígio de ter produzido vida, mas rejeita as obrigações trazidas por ela.

Elizabeth entra no laboratório

Elizabeth Lavenza (Mia Goth), prometida de William Frankenstein (Felix Kammerer), visita a propriedade e descobre o ser mantido na torre. Diferentemente de Victor, ela percebe curiosidade, medo e desejo de comunicação por trás da aparência assustadora. Sua aproximação oferece à Criatura algo até então raro naquele ambiente, atenção sem violência.

A relação entre Elizabeth e o novo ser desperta desconforto em Victor. Ele percebe que sua criação responde melhor à delicadeza dela do que às ordens recebidas no laboratório. A constatação fere seu orgulho e agrava a disputa por autoridade. O médico começa a temer aquilo que produziu, embora boa parte do perigo tenha sido cultivada por seu próprio comportamento.

Mia Goth interpreta Elizabeth com firmeza e sensibilidade. A personagem ocupa mais espaço do que o de uma figura romântica à espera dos homens. Ela questiona Victor, aproxima-se da Criatura e percebe o abismo entre inteligência científica e responsabilidade afetiva. Elizabeth não ignora os riscos, mas se recusa a tratar um ser consciente como simples material descartável.

Oscar Isaac trabalha Victor por meio dessa contradição. O cientista pode ser persuasivo diante de médicos e financiadores, mas perde a compostura quando alguém contesta suas escolhas. Isaac não transforma o personagem num gênio descontrolado de caricatura. Seu Victor sabe o que deseja, conhece o preço de cada etapa e insiste mesmo quando outras pessoas começam a pagar a conta.

A Criatura conquista a própria voz

Guillermo del Toro divide parte da história entre o relato de Victor e a experiência da Criatura. Essa mudança permite acompanhar acontecimentos que o cientista desconhece ou prefere omitir. O público deixa de observar o ser apenas pelos olhos do criador e passa a conhecer sua aprendizagem, sua solidão e sua tentativa de viver longe da torre.

Quando sai do laboratório, a Criatura procura abrigo e observa uma família à distância. O contato com outras pessoas lhe oferece palavras, conhecimento e alguma noção de convivência. Ela aprende que seres humanos podem demonstrar bondade, mas também descobre que sua aparência costuma encerrar qualquer possibilidade de aproximação. Cada tentativa de pertencer ao mundo termina ameaçada pelo medo alheio.

Esse trecho sustenta o lado mais sensível de “Frankenstein”. Del Toro preserva a fantasia gótica, os cenários grandiosos e o peso da ficção científica, mas concentra a atenção num ser que precisa aprender tudo sozinho. A Criatura começa a falar, formular desejos e questionar a razão de sua existência. Quanto maior seu conhecimento, mais dolorosa se torna a ausência de família e lugar.

A interpretação de Jacob Elordi cresce junto com esse aprendizado. Os gestos inicialmente duros ganham delicadeza, enquanto a voz revela uma consciência ferida. O personagem permanece perigoso por causa da força, porém sua revolta possui origem identificável. Ele foi criado por um homem que desejava derrotar a morte e abandonado quando passou a exigir cuidado.

Criador e criação seguem ligados

A Criatura decide procurar Victor porque deseja respostas e uma forma possível de companhia. O médico tenta proteger a família e esconder as consequências do experimento. Nenhum dos dois, contudo, consegue apagar o vínculo existente entre eles. Victor conhece a origem daquele corpo, enquanto a Criatura conhece o nome do homem responsável por sua solidão.

“Frankenstein” preserva os elementos mais conhecidos da obra de Mary Shelley, mas Guillermo del Toro aproxima a história de seus interesses recorrentes. Para o diretor, a figura assustadora nem sempre ocupa o lugar mais cruel da sala. O laboratório revela que inteligência e bondade podem morar em pessoas diferentes, uma descoberta particularmente desagradável para Victor.

A duração extensa exige atenção, sobretudo porque o longa dedica tempo à infância do médico, ao financiamento da pesquisa e à aprendizagem da Criatura. Ainda assim, essas etapas ajudam a esclarecer por que a relação se deteriora. Cada decisão de Victor estreita suas opções e oferece ao ser abandonado novos motivos para voltar.

Com atuações fortes de Oscar Isaac, Jacob Elordi, Mia Goth e Christoph Waltz, “Frankenstein” mostra uma história conhecida sem depender apenas da fama do monstro. Del Toro preserva o espetáculo, mas deixa o coração da obra na relação entre um criador vaidoso e uma criatura que pede reconhecimento. Quando Victor tenta esconder aquilo que fez, já existe um ser consciente disposto a bater novamente à sua porta.

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