Espionagem e patriotismo nunca foram exatamente bons amigos da sutileza. Quando dois países carregam décadas de desconfiança, atentados, disputas territoriais e mortos demais para qualquer reconciliação simples, basta pôr um homem do lado errado da fronteira para que todo gesto adquira a gravidade de uma declaração de guerra. “Dhurandhar” sabe disso e Aditya Dhar não perde tempo fingindo neutralidade. Seu filme olha para o Paquistão através dos olhos da inteligência indiana, assume os perigos dessa perspectiva e converte uma operação clandestina num épico de infiltração em que ninguém parece inteiramente humano até sangrar. A inspiração vem de acontecimentos geopolíticos reais, mas Dhar prefere a liberdade da ficção, território em que pode juntar crime organizado, terrorismo, política, espionagem e uma quantidade industrial de violência sem ter de se comportar como historiador.
Depois do ataque ao Parlamento indiano em 2001, Hamza Ali Mazari infiltra-se em Lyari, bairro de Karachi corroído pela guerra entre quadrilhas e por negócios em que armas, política e interesses de Estado começam a se confundir. Ranveer Singh surge inicialmente com uma discrição quase suspeita para um ator que fez carreira expandindo-se em cena. Hamza trabalha, observa, fala pouco e espera. É depois de salvar o filho de um chefão durante um atentado num casamento que ganha a oportunidade de penetrar no círculo de Rehman Dakait, o bandido interpretado por Akshaye Khanna, e nesse momento “Dhurandhar” deixa de ser apenas um filme de espião muito caro para tornar-se alguma coisa bem mais interessante.
Dhar compreende que uma boa história de infiltração não depende tanto do segredo que o protagonista guarda quanto da possibilidade de ele começar a gostar do mundo que deveria destruir. É o princípio que sustentava “Donnie Brasco” (1997), de Mike Newell, e que Martin Scorsese levou a outra chave em “Os Infiltrados” (2006). Hamza precisa convencer criminosos experimentados de que pertence àquela selva, e Ranveer Singh vai diminuindo deliberadamente o tamanho de sua atuação, como se soubesse que qualquer exuberância seria fatal para o personagem. A esperteza do diretor está em não fazer dele o homem mais fascinante da sala.
Akshaye Khanna toma o centro da operação
Esse lugar pertence a Akshaye Khanna. Rehman Dakait entra no filme como se já estivesse ali havia vinte anos, dono não apenas de Lyari, mas do tempo dos outros personagens. Khanna não precisa esgoelar-se, quebrar mesas ou ameaçar subordinados a cada cinco minutos. Há qualquer coisa de desagradavelmente serena em sua maneira de sorrir, mover os olhos, esperar que alguém termine uma frase. Rehman pode demonstrar afeto, participar de festas e agir como um patriarca benevolente, mas nenhum desses sinais apaga a sensação de que um homem será morto assim que ele deixar de achar graça. É uma composição soberba, dessas que fazem o público esquecer por alguns minutos quem deveria ser o protagonista. A percepção de que Khanna frequentemente rouba o centro dramático de Singh foi destacada também na recepção indiana do filme.
Ao redor dos dois, Dhar monta uma fauna masculina que não conhece a palavra moderação. Sanjay Dutt é Choudhary Aslam, policial que parece ter sido retirado de algum western e largado em Karachi com licença para matar; Arjun Rampal dá a Major Iqbal uma rigidez quase cadavérica; R. Madhavan, como Ajay Sanyal, representa o outro extremo, o sujeito que entende a guerra como um tabuleiro e prefere mover homens a empunhar armas. Rakesh Bedi introduz um humor venenoso como o político Jameel Jamali, lembrando que em lugares dominados por criminosos profissionais os amadores costumam ocupar cargos públicos. Sara Arjun, na pele de Yalina, abre uma fresta pela qual o filme tenta deixar entrar alguma normalidade num universo saturado por homens decidindo quem deve viver.
Há excesso, claro. “Dhurandhar” dura mais de três horas e gosta demais de sua própria musculatura. Dhar prolonga confrontos, banha algumas sequências em sangue e às vezes parece convencido de que todo silêncio deve terminar numa explosão ou numa frase destinada ao aplauso. A convicção ideológica é ainda mais evidente. O Paquistão institucional aparece quase sempre associado à corrupção, ao terrorismo ou à perversidade militar, e a certeza moral com que o filme organiza seu mundo reduz ambiguidades que poderiam fazer desta história algo mais perturbador. Não é preciso exigir neutralidade de uma obra de ficção para perceber quando ela já decidiu antecipadamente quem merece todas as virtudes e quem ficará com quase todos os pecados.
Lyari resiste à simplificação
Felizmente, Lyari resiste a essa simplificação. Quanto mais Hamza avança, mais o bairro deixa de ser apenas território inimigo e passa a ter hierarquias, lealdades, famílias, comerciantes, chefes, traidores e gente que nasceu no lugar errado da guerra particular de outros homens. É aí que a duração nababesca começa a justificar-se. Dhar não está apenas preparando uma missão; está construindo um mundo suficientemente convincente para que o infiltrado possa se perder dentro dele. O espectador também.
Ranveer Singh sabe esperar sua hora, o que talvez seja a maior surpresa de um filme que dispõe de metralhadoras, explosivos e homens interessados em conquistar um pedaço do planeta. Quando Hamza cresce, já não cresce sozinho. Ele leva consigo Rehman, Iqbal, Aslam, Sanyal e toda aquela Karachi fictícia que Dhar ergueu para depois ameaçar incendiar. “Dhurandhar” poderia ter sido apenas mais uma fantasia nacionalista sobre um agente indiano capaz de entrar na casa do inimigo e pôr ordem no mundo. Não é. Nos melhores momentos, torna-se uma história muito mais perigosa, sobre um homem que precisa aprender a parecer um monstro até o dia em que já não sabe, com absoluta certeza, quanto daquilo continua sendo representação. E Akshaye Khanna, sentado tranquilamente no meio dessa carnificina, parece saber a resposta antes de todos.

