Há poucas coisas que a sociedade perdoa menos a uma mulher bonita que envelhecer sem pedir desculpas. Se ela tiver quarenta anos, uma carreira própria, uma filha adolescente e ainda cometer o desplante de apaixonar-se por um homem muito mais jovem, começa o tribunal. “Uma Ideia de Você” entende esse mecanismo com mais inteligência do que sua embalagem de romance entre uma mulher comum e um astro da música permite supor. Michael Showalter adapta o romance de Robinne Lee colocando Anne Hathaway na pele de Solène, uma galerista de quarenta anos que se envolve com Hayes Campbell, cantor de 24 anos da boy band August Moon, interpretado por Nicholas Galitzine.
O encontro poderia pertencer à mais ordinária comédia romântica. Solène chega ao festival onde a filha pretende assistir ao grupo, entra por engano no espaço reservado a Hayes e começa uma conversa. O cantor está habituado a mulheres que sabem quem ele é; ela, a despeito de reconhecer a celebridade à frente, já não tem idade para desmaiar diante de um rapaz de abdômen fotogênico. É justamente essa indiferença que o atrai.
Anne Hathaway sabe o tamanho da armadilha. Se Solène parecer deslumbrada demais, o filme vira fantasia adolescente para mulheres maduras; se assumir uma postura excessivamente superior, elimina a graça da atração. A atriz encontra um lugar intermediário, onde desejo e prudência brigam sem que nenhuma das duas forças vença com facilidade. Ela olha Hayes como mulher, mas também como mãe de uma adolescente que terá de conviver com as consequências do namoro.
Galitzine é melhor quando abandona a persona de astro. Hayes domina palcos, flashes e multidões, porém a celebridade é uma prisão confortável e tremendamente bem remunerada. Ele pode comprar quase tudo, menos a experiência de ser recebido por alguém que não deseja tirar uma fotografia antes de conhecê-lo. É isso que Solène oferece.
O romance que a fama transforma em julgamento
Showalter é suficientemente esperto para não fazer da diferença etária o único problema. O verdadeiro antagonista é a exposição. O casal viaja, transa, conversa, diverte-se; então aparecem câmeras, comentários, memes, julgamentos. As mesmas pessoas que provavelmente achariam charmoso um homem de quarenta anos namorando uma cantora de 24 transformam Solène numa caricatura de mulher desesperada para não envelhecer.
Nesse momento, o filme deixa a fantasia romântica e ganha alguma carne. Há uma filha no meio, Isabelle, vivida por Ella Rubin, obrigada a frequentar uma escola onde a intimidade da mãe virou entretenimento coletivo. O amor pode enfrentar muita coisa, mas filhos adolescentes humilhados constituem adversários de grande poder.
“Uma Ideia de Você” nunca deixa de ser elegante demais. Casas bonitas, roupas impecáveis, hotéis, obras de arte e bastidores de shows revestem o sofrimento com uma camada de seda, e mesmo as crises parecem ter iluminação adequada. Todavia, seria injusto exigir de Showalter um neorrealismo que jamais esteve em seus planos.
Anne Hathaway fora da idade permitida pelo mundo
O que distingue o filme de tantos romances baseados no poder transformador de um homem excepcional é que Solène já tinha uma vida antes de Hayes. Não precisava ser salva, enriquecida, apresentada ao mundo ou ensinada a desejar. Precisava apenas admitir que ainda podia desejar sem pedir licença.
Anne Hathaway é a razão de quase tudo funcionar. Aos quarenta e poucos, Solène descobre que envelhecer não a expulsou da história — só alterou quem acha que tem o direito de contá-la. E uma mulher que retoma a própria narrativa costuma incomodar mais que qualquer diferença de idade.

