Existir é mesmo um misterioso paradoxo, com reviravoltas que atiram-nos a uma constante luta pela sobrevivência e obrigam-nos a ter uma postura mais agressiva diante dos outros. Enquanto não se impõe o tempo mágico em que o pouco bem é capaz de fazer frente à onipresença do mal, a vida esfacela-se por si só, num dos incontáveis movimentos dos homens para desvendar as fraquezas de seu próximo e subjugá-lo, tudo em nome do bem. Deixar que alguém partilhe de nossa intimidade pode ser só a resposta mais tola para a solidão, essa força maligna que leva uma pessoa a ver em relações frágeis a luz que já não tem em si. A hospitalidade logo muda-se em instrumento de controle, e explora a tensão que nasce quando a segurança desaparece e um generalizado desconforto se impõe, monstruosamente, como se vê nas desnorteadoras cenas de “O Anfitrião Perfeito”, um jogo de manipulação, medos e suspeitas. Buscando o equilíbrio mais justo de terror e suspense, C. Bailey Werner mistura sustos com insinuações sobre o desvario dos personagens, deixando que o público julgue quem é o quê.
A cordialidade do terror
Leva-se muitas vezes uma eternidade para que se chegue ao paraíso onde restam sepultadas as ilusões e as neuroses não encontram mais lugar porque todos conseguimos nos entender. Velhos amigos, Avery e Sam vão passar o fim de semana numa casa à beira lago. Ele deseja ser promovido a namorado, ela acha que tudo está bem assim, e os dois brigam. Por alguma estranha coincidência, Tad, o dono do imóvel, chega nesse momento, vai ficando, apesar do embaraço dos inquilinos, e a pouco e pouco a história avança para uma sucessão de constrangimentos que degringolam em horror. Werner e a corroteirista Emily Hiott adiam as possíveis conclusões quanto à real natureza de cada um ao adicionar um comentário sobre a obsessão pela estética de Tad e as alienações pequeno-burguesas de Avery e Sam, brincando com anseios os mais secretos e inconfessáveis do espectador, artifício que só se realiza em plenitude graças às atuações firmes de Brady Burleson Johnson, Jeff McQuitty e Koko Marshall, nessa ordem.

