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Pecorino, na Itália, não é apenas queijo. É também uma uva branca antiga, cultivada no Abruzzo e nas Marche, cujo nome talvez afaste justamente o consumidor que teria prazer em conhecê-la. Algo semelhante acontece com o Rosso di Montepulciano, produzido principalmente com Sangiovese, enquanto o Montepulciano d’Abruzzo nasce de uma variedade chamada Montepulciano. O vinho italiano começa a cobrar atenção antes mesmo de a garrafa ser aberta.

Os preços modestos acrescentam outra camada de desconfiança. Rótulos compridos, denominações regionais e palavras como barricato e governo all’uso costumam sugerir uma solenidade incompatível com os valores encontrados nas lojas brasileiras. Ainda assim, há uvas parcialmente desidratadas na Toscana, cortes tradicionais do Vêneto, brancos minerais do Abruzzo e tintos meridionais que conservam acidez mesmo sob o sol da Puglia e da Sicília. Nem todos tentam parecer maiores por meio de álcool, doçura ou madeira; alguns se contentam com a tarefa bem mais difícil de apresentar fruta limpa, taninos ajustados e alguma memória do lugar de onde vieram.

Essa combinação explica por que certas garrafas parecem ter escapado de uma etiqueta mais cara. Não substituem Barolos, Brunellos ou Amarones, tampouco precisam carregar tamanho disfarce. Entregam origem, técnica e personalidade dentro de uma faixa em que o vinho importado frequentemente se resume a marca vistosa e conteúdo anônimo. Convém começar pela Sicília, onde a Nero d’Avola deixa de servir como reforço obscuro de outros tintos e assume o centro da taça.

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Cusumano BaglioRe Nero d’Avola 2022

Sicília Preço de referência: R$ 80 a R$ 99

A Nero d’Avola já foi usada durante muito tempo para acrescentar cor e força a vinhos produzidos fora da Sicília. Nesta garrafa da Cusumano, porém, ela não desempenha papel secundário. O vinho nasce na Tenuta San Giacomo, em Butera, no sudeste da ilha, região quente, de solos com elevada presença de calcário e submetida à influência marítima do Canal de Malta. A combinação favorece o amadurecimento da uva sem transformar o resultado numa massa pesada de fruta e álcool.

O vinho não passa por barricas. Permanece durante cinco meses em contato com as borras finas, dentro de tanques de aço inoxidável, preservando a nitidez da fruta e acrescentando textura. Na taça, aparecem cereja, ameixa, amora, ervas, notas florais e especiarias doces, entre elas uma lembrança de canela. O corpo médio, os taninos maduros e a acidez bem marcada fazem dele um tinto menos óbvio do que muitos exemplares meridionais excessivamente maduros.

É uma garrafa que entrega identidade regional, equilíbrio e a assinatura de um produtor respeitado sem recorrer ao peso da madeira. Pelo preço encontrado no Brasil, representa uma das maneiras mais seguras de conhecer a principal uva tinta siciliana em uma versão séria, gastronômica e muito superior aos vinhos italianos genéricos que aparecem na mesma faixa de valor.

Características

Tinto seco produzido exclusivamente com Nero d’Avola. Tem coloração rubi intensa com reflexos violáceos, 13% de álcool, corpo médio, acidez viva e taninos maduros. Deve ser servido entre 16 e 18 °C.

Harmonização

Combina com massas ao molho de tomate, berinjela à parmegiana, carnes suínas, linguiças artesanais, vegetais grelhados, carnes vermelhas pouco gordurosas e queijos amarelos.

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La Grotta Barricato Primitivo 2021

Puglia Preço de referência: cerca de R$ 99

O sucesso da Primitivo no Brasil tem uma explicação relativamente simples: é uma uva capaz de oferecer fruta madura, maciez e sensação de volume sem exigir anos de paciência ou treinamento especializado. O problema começa quando essas virtudes são levadas ao exagero e o vinho se transforma numa mistura de doçura, álcool e madeira. O La Grotta Barricato evita boa parte dessa armadilha ao conservar acidez suficiente para equilibrar sua concentração.

Produzido na Puglia, no sul da Itália, apresenta aromas de ameixa, amora e outras frutas vermelhas e negras maduras, acompanhados por ervas, especiarias doces, chocolate e notas terrosas. A passagem por carvalho acrescenta estrutura e arredonda a textura, mas não elimina o caráter frutado da variedade. Em boca, é carnudo, encorpado e persistente, com taninos firmes que impedem que o conjunto se torne excessivamente macio.

Não é um tinto delicado nem pretende ser. Sua força está justamente na capacidade de acompanhar carnes, molhos e preparações substanciosas sem desaparecer diante do prato. Entre os Primitivos encontrados por menos de R$ 100, oferece mais estrutura e acabamento do que os rótulos produzidos apenas para impressionar no primeiro gole. É indicado para quem gosta de vinhos intensos, mas ainda espera equilíbrio, personalidade e alguma complexidade.

Características

Tinto seco elaborado exclusivamente com Primitivo. Possui 14% de álcool, corpo pronunciado, taninos firmes e aromas de frutas maduras, ervas, especiarias, chocolate e madeira. Recomenda-se servir entre 16 e 18 °C.

Harmonização

Vai bem com costela assada, picanha, cordeiro, hambúrguer artesanal, carnes de panela, massas com ragu, polenta com carne, queijos curados e embutidos.

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Soprasasso Valpolicella 2021

Vêneto Preço de referência: cerca de R$ 90

Valpolicella costuma ser lembrada no Brasil por seus vinhos mais potentes e caros, especialmente Amarone e Ripasso. O Soprasasso segue o caminho anterior a essa concentração: é leve, fresco, frutado e construído para permanecer à mesa. O corte reúne Corvina, Corvinone e Rondinella, variedades tradicionais do Vêneto, sem passagem por barricas de carvalho. A ausência de madeira permite que a fruta e a acidez ocupem o centro da experiência.

Os aromas lembram cerejas, groselhas e outras frutas vermelhas, acompanhadas por flores, ervas secas, especiarias e discretos elementos terrosos. Em boca, o vinho apresenta corpo leve para médio, taninos firmes, mas sem aspereza, e final suculento. Não possui a densidade de um Amarone, mas tampouco carrega seu teor alcoólico elevado ou a necessidade de pratos muito pesados.

É justamente essa fluidez que diferencia o rótulo numa faixa de preço dominada por tintos intensos e adocicados. O Soprasasso consegue ser reconhecivelmente italiano sem depender de força, barrica ou fruta sobremadura. Pode acompanhar uma refeição inteira e funciona especialmente bem com receitas à base de tomate, nas quais sua acidez encontra uma correspondência natural. É uma compra inteligente para quem já percebeu que complexidade não significa necessariamente peso, doçura ou excesso de madeira.

Características

Tinto seco elaborado com Corvina, Corvinone e Rondinella. Possui 12% de álcool, corpo leve para médio, acidez refrescante, taninos firmes e aromas de cereja, groselha, ervas, flores e especiarias.

Harmonização

Acompanha pizza, lasanha, nhoque, massas ao molho sugo, polenta, risoto de cogumelos, frango assado, embutidos, antepastos e queijos de média maturação.

04

Borgotorre Montepulciano d’Abruzzo 2024

Abruzzo Preço de referência: R$ 70 a R$ 93

A semelhança dos nomes provoca uma confusão frequente: Montepulciano, neste caso, não se refere à cidade toscana ligada ao Vino Nobile, mas à uva cultivada principalmente no centro-leste da Itália. No Abruzzo, ela costuma originar tintos frutados, acessíveis e particularmente adequados à comida. O Borgotorre, produzido pela família Castellani, preserva esse perfil sem tentar transformá-lo num vinho excessivamente pesado.

Elaborado exclusivamente com Montepulciano e sem passagem por barricas, apresenta cereja, morango e outras frutas vermelhas, acompanhadas por notas florais, ervas, especiarias suaves e toques terrosos. O paladar tem corpo médio, acidez nítida e taninos firmes, mas bem integrados. A fruta permanece reconhecível do início ao fim, sem ser escondida por baunilha, café ou tostado.

Sua qualidade está menos na imponência do que na precisão. É um vinho direto, limpo e gastronômico, capaz de acompanhar massas e carnes sem dominar a refeição. Também funciona para consumidores que desejam avançar além dos tintos genéricos de supermercado, mas ainda não pretendem pagar o preço de denominações italianas mais prestigiadas. Encontrado no Brasil por valores inferiores a R$ 100, entrega tipicidade, equilíbrio e uma facilidade de beber que não deve ser confundida com falta de qualidade.

Características

Tinto seco produzido com 100% Montepulciano. Possui 12% de álcool, corpo médio, acidez refrescante, taninos finos e aromas de cereja, morango, flores, ervas, especiarias e terra.

Harmonização

Combina com espaguete à bolonhesa, massas com ragu, pizza de calabresa, almôndegas, frango assado, carnes suínas, polenta, queijos semiduros e embutidos.

05

Borgotorre Pecorino 2023

Abruzzo Preço de referência: R$ 75 a R$ 93

O nome pode causar estranhamento, mas Pecorino não é apenas um queijo italiano. É também uma antiga variedade branca cultivada principalmente nas regiões de Abruzzo e Marche. Depois de perder espaço para uvas mais produtivas, voltou a despertar interesse por sua capacidade de produzir vinhos frescos, estruturados e marcados por acidez e mineralidade. O Borgotorre apresenta essas qualidades sem recorrer a barricas ou técnicas destinadas a aumentar artificialmente seu peso.

Na taça, aparecem pera, maçã verde e frutas brancas frescas, acompanhadas por flores, ervas, notas cítricas e uma sensação salina no final. A textura é mais firme do que a encontrada em muitos brancos baratos, e a acidez mantém o vinho vivo durante a refeição. Embora seja delicado nos aromas, não desaparece quando colocado ao lado de peixes, frutos do mar ou massas leves.

O rótulo também cumpre uma função importante nesta seleção: demonstra que os bons vinhos italianos abaixo de R$ 100 não se limitam a tintos maduros. A Pecorino oferece personalidade própria e foge das fórmulas repetidas de Chardonnay excessivamente amadeirado ou Sauvignon Blanc dominado por aromas tropicais. É uma garrafa indicada para quem procura frescor, definição e um branco capaz de atuar tanto como aperitivo quanto como companhia para a mesa.

Características

Branco seco elaborado exclusivamente com Pecorino, sem passagem por madeira. Possui 12% de álcool, acidez elevada, textura firme e aromas de pera, maçã verde, flores, ervas, frutas cítricas e minerais.

Harmonização

Acompanha peixes grelhados, camarões, lula, polvo, saladas, risotos leves, massas com frutos do mar, frango com ervas, queijos frescos e entradas frias.

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Santapietra Governo all’Uso Toscana 2022

Toscana Preço de referência: R$ 89 a R$ 99

O nome Governo all’Uso Toscano descreve uma técnica tradicional, e não uma classificação política ou burocrática. Parte das uvas é deixada para desidratar antes de ser acrescentada ao vinho, provocando uma nova fermentação e aumentando concentração, textura e intensidade aromática. O procedimento lembra, em princípio, o ripasso utilizado no Vêneto, embora esteja ligado à história da Toscana.

O Santapietra combina 80% de Sangiovese, 10% de Ciliegiolo e 10% de Cabernet Sauvignon. Não passa por barricas, o que impede que a madeira se torne um atalho para criar complexidade. Os aromas reúnem cereja negra, groselha, ameixa, flores, ervas secas, tabaco e especiarias doces. Em boca, apresenta 14% de álcool, taninos firmes e textura ligeiramente arenosa, equilibrados por uma acidez que evita a sensação de peso.

A utilização de uvas parcialmente desidratadas torna o vinho mais amplo e envolvente do que um tinto toscano básico, mas a presença da Sangiovese conserva frescor e vocação gastronômica. É uma boa escolha para consumidores atraídos por tintos maduros, desde que não queiram abrir mão de acidez e estrutura. Por menos de R$ 100, entrega método tradicional, composição bem definida e uma experiência que se distancia dos cortes italianos genéricos elaborados apenas para exportação.

Características

Tinto seco produzido com Sangiovese, Ciliegiolo e Cabernet Sauvignon. Possui 14% de álcool, corpo médio para encorpado, taninos firmes e aromas de frutas maduras, ervas, tabaco e especiarias.

Harmonização

Combina com queijos curados, carnes assadas, cordeiro, massas com ragu, lasanha, ossobuco, polenta com carne, cogumelos, embutidos e pratos à base de tomate.

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Carpineto Rosso di Montepulciano 2024

Toscana Preço de referência: R$ 85 a R$ 99

Apesar da semelhança dos termos, Rosso di Montepulciano não é produzido com a uva Montepulciano. O nome se refere à histórica cidade toscana de onde vêm as uvas, e a base do vinho é a Sangiovese, variedade que localmente também pode ser chamada de Prugnolo Gentile. A Carpineto produz o rótulo em vinhedos situados a cerca de 250 metros de altitude, dentro do território protegido pela denominação.

A proposta é oferecer uma expressão mais jovem e acessível da região do que o Vino Nobile di Montepulciano. Na taça, aparecem cereja, morango e outras frutas vermelhas, acompanhadas por notas florais, ervas e especiarias discretas. O corpo é leve para médio, os taninos são macios e a acidez característica da Sangiovese dá movimento ao paladar. Não é um vinho de grande concentração, guarda prolongada ou madeira ostensiva.

Seu valor está na origem, na nitidez e na capacidade de acompanhar comida. Enquanto muitos tintos baratos tentam parecer caros acumulando álcool, doçura e aromas tostados, o Carpineto segue uma lógica mais italiana: fruta, acidez e equilíbrio à mesa. É uma porta de entrada legítima para os vinhos de Montepulciano e uma compra especialmente interessante quando encontrado abaixo de R$ 100, faixa rara para um rótulo toscano de produtor estabelecido.

Características

Tinto seco produzido principalmente com Sangiovese. Apresenta corpo leve para médio, acidez viva, taninos macios e aromas de cereja, morango, flores, ervas e especiarias. Deve ser servido entre 14 e 16 °C.

Harmonização

Vai bem com massas ao molho de tomate, pizza margherita, lasanha, carnes brancas, porco assado, polenta, salames, presunto cru, queijos semiduros e cogumelos.

08

Frescobaldi Rèmole Rosso 2024

Toscana Preço de referência: R$ 95 a R$ 99

A família Frescobaldi atravessou séculos ligada à história política, econômica e vinícola da Toscana, mas o Rèmole não tenta condensar toda essa tradição numa garrafa solene. É o vinho de entrada do produtor: jovem, direto, frutado e construído para acompanhar refeições cotidianas. O corte reúne 70% de Sangiovese e 30% de Cabernet Sauvignon, combinação que aproxima o frescor toscano de uma textura mais macia e reconhecível.

A safra 2024 apresenta frutas vermelhas e negras, com destaque para cereja, amora e groselha, seguidas por especiarias delicadas e notas balsâmicas. O vinho amadurece em aço, sem o uso ostensivo de barricas, preservando a fruta e a acidez. Em boca, tem corpo médio, taninos polidos e final persistente o suficiente para acompanhar uma refeição sem se tornar cansativo.

Não é um substituto barato para os grandes Chianti, Brunello ou supertoscanos da família, e seria desonesto tratá-lo dessa forma. Sua qualidade está em outro lugar: acabamento correto, equilíbrio, versatilidade e a assinatura de um produtor experiente por um preço ainda acessível. Entre as garrafas italianas encontradas por menos de R$ 100, poucas combinam apresentação elegante, origem reconhecida e facilidade de harmonização com a mesma eficiência.

Características

Tinto seco elaborado com 70% de Sangiovese e 30% de Cabernet Sauvignon. Possui 12,5% de álcool, corpo médio, taninos macios, boa acidez e aromas de frutas vermelhas e negras, especiarias e notas balsâmicas.

Harmonização

Combina com lasanha à bolonhesa, massas ao molho de tomate, pizza, carnes assadas, sobrecoxa com batatas, tábuas de frios, salames, queijos e pratos toscanos de estrutura moderada.

Revista Bula

A Revista Bula é uma plataforma digital brasileira fundada em 1999, que atua como revista e também como editora de livros. Com foco em literatura, cultura, comportamento e temas contemporâneos, adota uma linha editorial autoral, com ênfase em textos opinativos e ensaísticos. Seu conteúdo é amplamente difundido por meio das redes sociais e alcança milhões de leitores por mês, consolidando-se como uma das referências em jornalismo cultural no ambiente digital. Além da produção de conteúdo editorial, a Bula mantém uma linha de publicações próprias, com títulos de ficção e não ficção distribuídos em formato digital e impresso.

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