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Escritores bebem porque seres humanos bebem, e procurar no álcool a chave secreta de uma obra costuma produzir mais bobagem biográfica do que boa crítica literária. Ainda assim, certas bebidas adquiriram uma segunda vida ao cruzar o caminho de um grande autor. Algumas foram modificadas por ele. Outras apareceram por poucos segundos num romance e, graças a isso, permanecem no balcão muito depois de seus primeiros consumidores terem ido embora.

Os cinco coquetéis abaixo pertencem a essas categorias. Nenhum exige equipamento de laboratório, ingredientes colhidos numa montanha remota ou talento de bartender acrobático. Exigem atenção às medidas — e a sensatez de não confundir homenagem literária com a leitura integral da obra etílica de Ernest Hemingway.

01Daiquiri Hemingway servido em uma taça de coquetel
Ernest Hemingway

Daiquiri Hemingway

Ernest Hemingway não inventou o daiquiri. Também não inventou Cuba, a pesca oceânica, as touradas, a guerra, o boxe ou a masculinidade ferida, embora sua mitologia pessoal tenha anexado um pedaço de cada uma dessas coisas. Com a bebida ocorreu algo semelhante: ela já existia, mas nunca voltou inteiramente a seus antigos donos depois que passou pelo escritor.

A história se concentra no El Floridita, bar de Havana frequentado por Hemingway nos anos em que viveu em Cuba. Ali trabalhava Constantino Ribalaigua Vert, bartender famoso por suas numerosas variações do daiquiri, combinação de rum, limão e açúcar.

Segundo a versão repetida com pequenas diferenças ao longo das décadas, Hemingway provou o coquetel, considerou-o doce demais e pediu duas alterações bastante compatíveis com o personagem público que cultivava: menos açúcar e mais rum. Surgia o Papa Doble. “Papa” era seu apelido; “doble” dispensa conhecimentos avançados de espanhol ou matemática.

A fórmula continuou a mudar. Entraram o suco de grapefruit — a toranja, fruta ainda pouco íntima dos brasileiros — e o licor de maraschino. O resultado foi padronizado como Hemingway Special: rum branco, grapefruit, limão e maraschino, sem açúcar adicional.

A ausência de açúcar é decisiva. O daiquiri tradicional procura equilibrar álcool, acidez e doçura. O de Hemingway segue por um caminho mais seco, agressivo e cortante. O maraschino entra para perfumar e arredondar a acidez, não para transformar o copo numa sobremesa rosada.

É menos simpático que o original. O homenageado provavelmente tomaria isso como elogio.

Ingredientes

  • 60 ml de rum branco
  • 40 ml de suco de grapefruit ou toranja
  • 15 ml de suco de limão-taiti fresco
  • 15 ml de licor de maraschino
  • Gelo

Como preparar

Coloque todos os ingredientes numa coqueteleira com gelo. Bata vigorosamente e coe para uma taça grande de coquetel previamente gelada.

O resultado deve ser muito frio, cítrico e seco. Caso desça como refresco de praia, alguma coisa saiu errada.

02Gin Rickey servido em copo alto com gelo e limão
F. Scott Fitzgerald

Gin Rickey

O Gin Rickey entra em “O Grande Gatsby” como certas personagens secundárias: aparece por pouco tempo, cumpre uma função precisa e sai antes que alguém lhe pergunte de onde veio.

Sua participação, porém, foi suficiente para ligar o coquetel a F. Scott Fitzgerald e àquele mundo de dinheiro novo, roupas claras, adultério, calor e catástrofes cuidadosamente disfarçadas de festa.

A bebida nasceu em Washington no fim do século 19. A primeira versão conhecida levava bourbon, limão e água gaseificada e ganhou o sobrenome de Joe Rickey, lobista e frequentador do bar Shoomaker’s. O gim assumiria mais tarde o lugar do uísque e se tornaria a base dominante. A característica essencial permaneceu: nada de açúcar.

No capítulo 7 de “O Grande Gatsby”, Tom Buchanan manda preparar quatro Gin Rickeys. Os copos chegam estalando de gelo. Gatsby observa que parecem refrescantes, todos bebem em goles longos e ávidos e, por alguns segundos, o limão e o gás dão a impressão de que ainda é possível aliviar a temperatura da sala. Não é.

Pouco depois, o grupo parte para o Hotel Plaza, onde a disputa de Tom e Gatsby por Daisy explode sem nenhum vestígio de civilidade.

O coquetel é claro, simples e refrescante — tudo o que aquelas relações deixaram de ser.

Ingredientes

  • 50 ml de gim seco
  • 25 ml de suco de limão-taiti fresco
  • 80 a 100 ml de água com gás
  • Gelo
  • 1 meia-lua de limão

Como preparar

Encha um copo alto com gelo. Acrescente o gim e o suco de limão. Complete com água com gás, misture delicadamente e finalize com a meia-lua de limão.

A receita tradicional não leva açúcar. Colocá-lo torna a bebida mais amável, mas elimina justamente o que a distingue. O Gin Rickey refresca sem fazer média.

03Mint Julep servido em copo metálico com gelo e hortelã
William Faulkner

Mint Julep

Nenhuma bebida parece carregar tantas imagens do sul dos Estados Unidos quanto o Mint Julep. Bourbon, hortelã, açúcar, gelo triturado e um copo metálico coberto de condensação. Cavalos correm ao fundo, homens de chapéu conversam numa varanda e uma família respeitável esconde há três gerações algum crime medonho.

William Faulkner não inventou esse cenário. O sul americano trabalhou nele por conta própria. O escritor apenas ajudou a transformá-lo em literatura.

A ligação aqui é diferente das demais. O julepo não nasceu num livro de Faulkner, tampouco há uma história comparável à de Hemingway no Floridita. Trata-se de uma bebida tradicional associada aos hábitos do escritor e à vida em Rowan Oak, sua casa em Oxford, no Mississippi.

Faulkner reinventou a região onde vivia sob o nome de condado de Yoknapatawpha. Ali instalou proprietários falidos, famílias em decomposição, crimes raciais, incestos, suicídios, loucos e mortos incapazes de permanecer decentemente enterrados no passado. Em sua ficção, o sul não é um cenário: é uma doença hereditária.

O Mint Julep oferece uma imagem mais cordial da mesma paisagem. A hortelã aparece primeiro, fresca e perfumada; o bourbon vem logo abaixo, escuro e pesado. Convém não forçar a alegoria, mas Faulkner dificilmente teria reclamado dela.

A erva deve ser pressionada com cuidado. Esmagá-la brutalmente libera amargor e produz uma espécie de salada alcoólica.

Hortelã serve para perfumar a bebida, não para pedir socorro no fundo do copo.

Ingredientes

  • 60 ml de bourbon
  • 10 ml de xarope simples de açúcar
  • 6 a 8 folhas de hortelã
  • Gelo triturado
  • 1 ramo de hortelã

Como preparar

Coloque as folhas e o xarope no fundo de um copo metálico ou de um copo baixo. Pressione a hortelã suavemente. Acrescente o bourbon e complete com gelo triturado.

Misture até que a parte externa do copo fique bem fria. Junte mais gelo e finalize com o ramo de hortelã, próximo à borda, para que o aroma chegue antes da bebida.

04Ponche de Charles Dickens servido quente em uma xícara de vidro
Charles Dickens

O ponche de Charles Dickens

Charles Dickens gostava de público. Lia seus textos em voz alta, representava os personagens, modulava vozes e transformava a literatura num espetáculo de um homem só. Não surpreende que sua receita de ponche incluísse fogo.

A fórmula foi registrada numa carta enviada em janeiro de 1847 a Amelia Filloneau. Levava cascas de limão trabalhadas com açúcar, rum, conhaque e água fervente. Antes da entrada da água, Dickens mandava incendiar os destilados e deixar a chama atuar diante dos convidados.

Era uma bebida e um número teatral. Dickens podia prepará-la no centro de uma reunião doméstica com a mesma desenvoltura com que assumia, diante de uma plateia, as vozes de Scrooge, Fagin ou do senhor Micawber.

A chama iluminava o anfitrião, derretia parte do açúcar e oferecia aos presentes alguns segundos de perigo controlado — definição aceitável para boa parte de sua ficção.

Ao contrário dos drinques individuais, preparados para um consumidor fechado diante de seu copo, o ponche ocupa o centro da mesa. Exige distribuição, conversa e algum excesso coletivo. É uma bebida de hospitalidade, embora quase meio litro de destilados obrigue a desconfiar de tamanha delicadeza.

As cascas de limão são importantes. Trabalhadas com o açúcar, liberam óleos aromáticos e dão à bebida uma profundidade que o suco sozinho não alcança.

O ponche chega doce, perfumado e civilizado. É assim que ele engana.

Ingredientes para oito porções

  • 300 ml de rum escuro
  • 180 ml de conhaque ou brandy
  • 120 g de açúcar demerara
  • Cascas e suco de 2 limões-sicilianos
  • 750 ml de água fervente
  • Noz-moscada, opcional

Como preparar

Coloque o açúcar e as cascas de limão numa tigela resistente ao calor. Pressione e misture durante alguns minutos, até que o açúcar fique úmido e perfumado.

Acrescente o suco, o rum e o conhaque. Junte a água fervente e mexa até dissolver o açúcar. Cubra, deixe descansar durante cinco minutos e sirva ainda quente em xícaras pequenas.

A versão doméstica dispensa o incêndio. Perde-se parte do espetáculo, mas preservam-se a bebida, as sobrancelhas dos convidados e uma convivência razoável com o Corpo de Bombeiros.

05Coquetel Anjo Branco servido em uma taça gelada
Truman Capote

Anjo Branco

Há coquetéis que atravessam décadas de aperfeiçoamento até alcançar uma receita clássica. O Anjo Branco fez o trajeto contrário. Apareceu praticamente pronto nas primeiras páginas de “Bonequinha de luxo”, de Truman Capote: metade vodca, metade gim, nenhum vermute. Fim.

O narrador retorna ao bar de Joe Bell, lugar impregnado pela lembrança de Holly Golightly. Joe lhe apresenta a bebida nova e fornece toda a receita em uma frase. Não há segredos profissionais, xaropes artesanais, espumas ou infusões de procedência amazônica. Apenas dois destilados transparentes em proporções iguais.

O Anjo Branco se parece com um martíni apenas à distância. No martíni, o vermute modifica o gim, acrescenta aromas e reduz — ao menos teoricamente — sua brutalidade. Aqui essa mediação desaparece. Gim e vodca permanecem sozinhos, frios e sem disfarce.

Não há documentação segura de que Capote tenha inventado a bebida ou de que ela circulasse pelos bares de Nova York antes da publicação da novela, em 1958. Sua permanência vem do livro. A literatura lhe forneceu nome, proporção e atmosfera.

A tradução “Anjo Branco” funciona pela ironia. O coquetel é límpido e quase inocente aos olhos. Só aos olhos. Tem a delicadeza alcoólica de uma discussão que começa em voz baixa e termina com a polícia na porta.

O Anjo Branco, como certas personagens de Capote, fica menos encantador quando resolve permanecer tempo demais.

Ingredientes

  • 30 ml de gim seco
  • 30 ml de vodca
  • Gelo

Como preparar

Coloque o gim e a vodca num copo misturador cheio de gelo. Mexa por cerca de 20 segundos e coe para uma taça pequena previamente gelada.

Sirva sem vermute e sem guarnição. A dose deve permanecer pequena, fria e rigorosamente sem enfeites.

Revista Bula

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