Setenta anos depois de Ishirō Honda ter feito uma criatura radioativa emergir do mar para pisotear o Japão, Godzilla já não precisa representar culpa nuclear, trauma de guerra ou medo do progresso. Em “Godzilla e Kong: O Novo Império”, Adam Wingard entrega-lhe placas dorsais cor-de-rosa, velocidade de atleta e a liberdade de derrubar cidades como quem atravessa uma maquete. O longa de 2024, quinto capítulo do MonsterVerse da Legendary, reúne Rebecca Hall, Brian Tyree Henry, Dan Stevens e Kaylee Hottle em torno de uma ameaça escondida nas profundezas da Terra Oca. A solenidade foi dispensada. Wingard deseja monstros correndo, saltando e trocando pancadas, e organiza quase tudo para atender a esse propósito.
Kong vive no mundo subterrâneo e procura outros integrantes de sua espécie, jornada interrompida por uma dor de dente que o leva até Trapper, o veterinário vivido por Dan Stevens. Depois de receber uma prótese metálica, o macaco encontra Suko, um filhote ruivo que primeiro tenta atraí-lo para uma armadilha e depois o conduz a um reino de grandes primatas escravizados. O lugar pertence ao Rei Skar, tirano magro, ágil e armado com um chicote que lhe permite controlar Shimo, titã glacial mantida sob coerção por meio de um cristal. Wingard concede a Kong expressões, hesitações e gestos suficientes para que ele sustente longos trechos sem diálogo humano. O vínculo com Suko oferece ao espetáculo um núcleo reconhecível, feito de desconfiança, aprendizado e uma paternidade improvisada entre criaturas capazes de usar outros macacos como armas de arremesso.
Na superfície, Godzilla cumpre a função de fiscal truculento do planeta. Ele enfrenta Scylla em Roma, atravessa prédios históricos, encerra o serviço e adormece dentro do Coliseu, enrolado feito um gato de proporções apocalípticas. Um sinal captado pela Monarch desperta visões em Jia, sobrevivente dos Iwi e filha adotiva da antropóloga Ilene Andrews. Godzilla também percebe a ameaça, abastece-se de radiação numa usina francesa e parte para o Ártico, onde mata Tiamat e absorve energia suficiente para adquirir a nova coloração. A montagem salta entre essas duas linhas com pressa, acumulando explicações sobre profecias, portais, cristais gravitacionais e civilizações telepáticas. Rebecca Hall mantém alguma gravidade na relação entre Ilene e Jia, enquanto Kaylee Hottle faz da inquietação da menina um conflito mais legível que toda a mitologia recitada pelos especialistas da Monarch.
Humanos perdidos entre profecias e portais
Brian Tyree Henry volta como Bernie Hayes, podcaster conspiracionista que compreende os sinais antes dos cientistas, e Dan Stevens invade o filme com camisas abertas, dentes muito brancos e a alegria suspeita de alguém que gostaria de morar para sempre entre feras gigantes. Trapper é o único humano que parece entender em que produção se encontra. Ele pilota máquinas absurdas, arranca dentes de Kong e aceita sem resistência as descobertas sobre a civilização Iwi, ao passo que Hall recebe a tarefa menos grata de explicar a genealogia da ameaça para que a pancadaria prossiga. O roteiro de Terry Rossio, Simon Barrett e Jeremy Slater trata os personagens humanos como funcionários encarregados de abrir portas entre uma luta e outra, ainda que Ilene e Jia consigam preservar um laço afetivo no meio do barulho.
A sequência de gravidade invertida escancara a vocação do filme. Rochas, macacos e répteis flutuam enquanto Godzilla, Kong, Shimo e o Rei Skar transformam o centro da Terra num ringue sem chão. A coreografia é clara, os corpos mantêm peso mesmo quando o cenário deixa de obedecer à física e Wingard sabe alternar planos gerais com golpes cuja brutalidade pode ser compreendida. Mothra surge para pacificar Godzilla e conduzi-lo à aliança, aparição programada para provocar reconhecimento imediato nos fãs. O espetáculo funciona enquanto assume sua condição de desenho animado caríssimo; perde vigor nas tentativas de revestir a aventura com uma mitologia que o filme não tem tempo nem disposição para desenvolver.
O Rio vira brinquedo dos titãs
O combate final chega ao Rio de Janeiro. Copacabana, os prédios da orla e os morros tornam-se objetos quebráveis sob as patas dos titãs, sem que um único morador adquira rosto ou história. Poucos meses antes, “Godzilla Minus One” havia devolvido ao monstro japonês o terror de uma presença capaz de destruir vidas específicas, casas, famílias e projetos; Wingard segue na direção contrária e transforma a devastação numa festa cromática. Não há equívoco nessa escolha, somente um limite. Quando tudo pode ruir sem consequência, a escala deixa de impressionar e passa a medir apenas o orçamento.
Kong liberta os primatas, Suko encontra nele uma figura de autoridade e Godzilla regressa ao Coliseu para dormir depois de salvar novamente uma humanidade que mal percebeu. “O Novo Império” é melhor quando acompanha o grande macaco por cavernas, enfrentando a solidão e tentando decidir o que fazer com o filhote insolente que lhe caiu nas mãos. Wingard domina a pancadaria, ri da lógica e entrega um parque de diversões eficiente, vistoso, às vezes exaustivo. Godzilla continua enorme. O filme, cercado por tanta grandeza, termina menor que Kong e Suko caminhando juntos para dentro da Terra.

