Em 2023, nos subúrbios de Nova Jersey, Allison (Florence Pugh) tenta reconstruir a vida depois de um acidente que destruiu seu casamento, sua carreira e a confiança das pessoas ao redor. Dirigido por Zach Braff, “Uma Boa Pessoa” acompanha a jovem enquanto ela enfrenta a dependência de opioides e se aproxima de Daniel (Morgan Freeman), pai de uma das vítimas da tragédia. Os dois carregam culpas diferentes, mas precisam conviver porque Ryan (Celeste O’Connor), neta de Daniel, também tenta sobreviver às perdas da família.
Allison aparece primeiro como uma mulher expansiva, cercada por amigos, planos profissionais e um casamento próximo. Ela está noiva de Nathan (Chinaza Uche), pertence a uma família afetuosa e parece ocupar com facilidade os espaços por onde passa. Essa segurança desaparece depois de um acidente de carro que mata a irmã e o cunhado de Nathan, deixando Allison como única sobrevivente.
Um ano mais tarde, ela mora com a mãe, Diane (Molly Shannon), perdeu o emprego, encerrou o noivado e depende de analgésicos receitados durante a recuperação física. O problema é que os comprimidos deixaram de ser apenas medicamentos. Allison passa a organizar seus dias em torno das doses, escondendo a dependência enquanto tenta convencer a si mesma de que ainda controla alguma coisa.
Florence Pugh interpreta esse período com uma mistura difícil de irritação, vergonha e cansaço. Allison mente, pede ajuda, recusa ajuda e procura comprimidos entre conhecidos que preferiam guardar uma lembrança mais agradável dela. Há algo de dolorosamente comum nessas situações. A antiga amiga popular agora precisa telefonar para pessoas que mal respondem suas mensagens, o que derruba qualquer ilusão de prestígio.
Daniel carrega outra culpa
Daniel vive com Ryan desde a morte da filha. Ex-policial e alcoólatra em recuperação, ele tenta manter a adolescente segura por meio de regras, horários e vigilância. A intenção pode ser legítima, mas sua rigidez transforma a casa em um ambiente pesado. Ryan perdeu os pais, mudou de rotina e ainda precisa lidar com um avô que vigia cada passo por medo de perder outra pessoa.
Morgan Freeman oferece a Daniel uma serenidade aparente que esconde raiva, arrependimento e insegurança. Ele fala pouco, observa bastante e nem sempre sabe separar proteção de controle. O personagem está acostumado a ocupar o lugar de autoridade, embora a convivência com Ryan mostre que experiência e idade não garantem habilidade para cuidar de uma adolescente ferida.
Allison e Daniel voltam a se encontrar em uma reunião de apoio a dependentes químicos. O encontro é desconfortável porque ambos conhecem o papel que o outro ocupa naquela tragédia. Ela estava ao volante. Ele perdeu a filha. Nenhum pedido de desculpas seria capaz de devolver a família que existia antes do acidente.
Ainda assim, os dois permanecem no mesmo espaço. Allison precisa de apoio para abandonar os opioides. Daniel precisa cuidar de Ryan sem sufocá-la e manter a própria sobriedade. A aproximação nasce menos de uma afinidade espontânea do que da consciência de que ambos estão cansados de enfrentar tudo sozinhos.
Ryan rejeita a tutela dos adultos
Ryan poderia ter sido apresentada apenas como a adolescente problemática da história, mas Celeste O’Connor oferece à personagem uma presença mais firme. Ela não aceita ser tratada como peça frágil da família e tampouco acredita que os adultos ao redor saibam o que estão fazendo. Em muitos momentos, sua desconfiança parece bastante razoável.
A relação entre Ryan e Daniel sofre porque ele tenta impedir qualquer perigo antes mesmo que a neta possa falar. Ela reage com irritação, esconde parte de sua vida e procura autonomia fora de casa. Quanto mais Daniel aperta as regras, menos acesso tem ao que realmente acontece com a adolescente.
Allison entra nessa convivência ocupando uma posição delicada. Ela carrega culpa pela morte dos pais de Ryan, mas também percebe a solidão da jovem. Sua presença pode ajudar a criar uma ponte entre avô e neta, embora qualquer gesto seja recebido com suspeita. O vínculo cresce aos poucos, sem apagar o passado nem transformar perdão em obrigação.
A dependência sem glamour
“Uma Boa Pessoa” acompanha a dependência química dentro da rotina. Allison não vive apenas grandes crises. Ela enfrenta telefonemas constrangedores, recusas em farmácias, ansiedade dentro de casa e a humilhação de pedir comprimidos a pessoas que conheciam sua antiga versão.
Zach Braff também permite que Molly Shannon escape do papel habitual de alívio cômico. Diane ama a filha, mas está exausta. Ela tenta oferecer companhia, comida, abrigo e paciência, embora não saiba até onde deve proteger Allison. Algumas conversas entre as duas têm graça porque famílias continuam sendo famílias mesmo durante uma crise. Uma mãe ainda consegue falar demais, escolher a hora errada e oferecer conselhos que ninguém pediu.
O roteiro se perde tentando explicar sentimentos que os atores já haviam revelado por gestos e silêncios. Há falas muito organizadas para personagens tão desorientados. Em certos trechos, Braff parece desconfiar da força de Florence Pugh e Morgan Freeman, quando bastaria deixá-los dividir o mesmo ambiente por alguns minutos.
Pugh não transforma Allison em vítima exemplar. A personagem pode ser egoísta, cruel, engraçada, afetuosa e profundamente cansada dentro da mesma conversa. Sua dor não a torna automaticamente agradável, e essa escolha deixa a recuperação mais honesta. Ela precisa admitir o vício sem usar o sofrimento como licença permanente para ferir quem continua perto.
Cura sem promessa de milagre
A relação entre Allison e Daniel representa o centro emocional de “Uma Boa Pessoa”. Eles não podem mudar o acidente, recuperar os mortos ou devolver a Ryan a família que ela perdeu. O que podem fazer é escolher de que maneira ocuparão o presente, mesmo que essa escolha precise ser refeita todos os dias.
Braff trata a recuperação como um trabalho feito de reuniões, recaídas emocionais, pedidos mal formulados e pequenas responsabilidades. Não há solução capaz de apagar a culpa de Allison nem frase suficiente para aliviar Daniel. Há pessoas tentando permanecer sóbrias, cumprir compromissos e não abandonar umas às outras durante os piores momentos.
“Uma Boa Pessoa” exagera ao tentar arrancar emoção por meio de diálogos muito calculados, mas recupera seu brilho ao observar tarefas simples. Uma porta aberta, uma carona aceita ou uma conversa concluída podem significar mais do que qualquer declaração grandiosa. O filme cresce porque Florence Pugh, Morgan Freeman e Celeste O’Connor tratam seus personagens como pessoas difíceis de amar, mas ainda dignas de companhia.
A recuperação de Allison não apaga o que aconteceu. Daniel também não abandona a raiva de uma hora para outra, e Ryan continua cobrando dos adultos uma estabilidade que eles mal conseguem oferecer. O passo possível está em permanecer, assumir responsabilidades e cumprir o próximo combinado. Para aquela família quebrada, chegar à reunião, voltar para casa e atender ao telefone já pode significar que alguém decidiu continuar vivo.

