Lançado em 2022, o drama romântico “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Arie Posin, acompanha a jovem Tessa Young (Joey King), uma aspirante a fotógrafa que tenta lidar com a morte do namorado, Skylar (Kyle Allen), depois de um acidente de carro. A história se passa entre o presente do luto e as lembranças do romance vivido pelos dois, enquanto Tessa começa a acreditar que Skylar ainda tenta se comunicar com ela. É esse ponto, entre a saudade e o sobrenatural, que transforma o filme em uma história de amor adolescente com cara de lenço por perto, mas sem abandonar a tensão de quem precisa escolher entre continuar vivendo ou permanecer presa a uma ausência.
Tessa Young (Joey King) entra em “Ainda Estou Aqui” como alguém que já aprendeu a desconfiar da permanência. Criada em lares adotivos, ela carrega uma sensação de deslocamento que aparece no modo como se relaciona com as pessoas e com a própria arte. A fotografia é sua forma de observar o mundo sem se colocar demais dentro dele. Ela registra rostos, paisagens e momentos, mas hesita quando precisa mostrar o que produz. Há talento, mas também há medo. Para Tessa, ser vista parece quase tão arriscado quanto amar.
A rotina dela muda quando conhece Skylar (Kyle Allen), um rapaz gentil, romântico e interessado demais para ser ignorado com facilidade. Ele não chega como salvador, ainda bem, porque esse tipo de figura costuma envelhecer mal até em romance de adolescente. Skylar se aproxima com paciência, presta atenção nas fotos de Tessa e reconhece nela uma artista que ainda não consegue acreditar no próprio olhar. O vínculo nasce dessa insistência delicada. Ele oferece presença, ela responde com cautela. Cada avanço do casal parece pequeno, mas abre espaço para uma intimidade que Tessa não esperava viver.
O filme alterna esses momentos de aproximação com o presente marcado pelo acidente. Tessa sobrevive, Skylar morre, e a separação dos dois passa a organizar tudo ao redor dela. A jovem acorda no hospital, encara a ausência do namorado e volta para uma vida que perdeu o eixo. A dor não surge apenas no choro. Ela aparece na dificuldade de voltar à escola, na tensão dentro de casa e no incômodo de ouvir adultos tentando transformar o luto em uma fase administrável. Para Tessa, nada parece administrável.
O passado invade o presente
Arie Posin organiza a história em dois tempos. O passado mostra como Tessa e Skylar se aproximaram. O presente acompanha a jovem tentando decifrar sinais que parecem vir dele. Essa alternância ajuda o espectador a compreender por que a perda pesa tanto. O namoro não é tratado apenas como paixão bonita de verão. Ele mexe com planos, inseguranças e escolhas. Skylar incentiva Tessa a levar a fotografia adiante, enquanto ela começa a aceitar a possibilidade de ser amada sem precisar fugir antes.
No presente, objetos, músicas e pequenos acontecimentos começam a sugerir que Skylar ainda está por perto. Tessa se apega a essas pistas porque precisa acreditar que a morte não encerrou a conversa entre os dois. O filme caminha por essa fronteira com um suspense leve, às vezes intenso, mas sem transformar a história em terror. A pergunta que fica não é apenas se Skylar está mesmo tentando se comunicar. A questão mais dolorosa é o que Tessa fará se conseguir ouvi-lo.
A amiga Shannon (Celeste O’Connor) ajuda a dar algum respiro à história. Ela acompanha Tessa, participa das buscas e oferece uma energia mais terrena para uma situação que poderia ficar pesada demais. Shannon não desfaz a dor da protagonista, mas impede que ela atravesse tudo sozinha. Em uma narrativa tão concentrada no luto, essa presença é importante. Alguém precisa lembrar Tessa de que ainda existem pessoas do lado de cá, mesmo quando ela só consegue procurar sinais do outro lado.
A casa também pressiona
Vickie (Kim Dickens) e Mel (John Ortiz), os pais adotivos de Tessa, representam outra camada do conflito. Eles tentam proteger a adolescente, mas também precisam lidar com uma dor que não conseguem controlar. A preocupação deles tem razão de existir. Tessa não está apenas triste. Ela passa a perseguir mensagens, conexões e possibilidades que colocam sua recuperação em risco. A casa vira um espaço de cuidado e atrito. Todo mundo quer que ela melhore, mas ninguém consegue oferecer aquilo que ela mais deseja.
O roteiro escrito por Marc Klein trabalha melhor quando mantém essa dor ligada a ações concretas. Tessa revisita memórias, observa fotografias, procura sinais e tenta reorganizar os fragmentos do romance. A câmera acompanha esse esforço com delicadeza, mas o filme não escapa de alguns momentos previsíveis. Há cenas em que a emoção parece chegar antes da naturalidade. Ainda assim, Joey King sustenta bem a fragilidade de Tessa. Ela dá à personagem uma mistura de irritação, tristeza e desejo de desaparecer por alguns segundos, algo bastante reconhecível para quem já viu o luto transformar tarefas simples em pequenas batalhas.
Kyle Allen também funciona bem como Skylar. O personagem poderia virar apenas o namorado perfeito, desses que parecem escritos por uma equipe de cartões comemorativos. Mas o ator encontra uma doçura menos artificial, especialmente quando contracena com Joey King. A química entre os dois faz o romance parecer crível, e isso é essencial para que o drama posterior tenha peso. Se o espectador não comprar o amor dos dois, todo o resto desaba. O filme sabe disso e dedica tempo suficiente à relação antes de mergulhar no sobrenatural.
A fotografia guarda o que resta
A fotografia é uma das escolhas mais bonitas de “Ainda Estou Aqui”. Ela não aparece como simples detalhe de personalidade. Para Tessa, fotografar é guardar aquilo que pode sumir. Depois da morte de Skylar, as imagens ganham outro valor. Elas deixam de ser apenas registros e passam a funcionar como vestígios de uma vida interrompida. Cada foto lembra que houve encontro, toque, riso e promessa. Também lembra que nada disso está disponível da mesma maneira.
O filme fala de vida após a morte, mas seu melhor assunto está na vida antes dela. Tessa precisa decidir se continuará procurando Skylar a qualquer custo ou se aceitará permanecer entre aqueles que ainda estão ao seu lado. Essa escolha não é tratada com frieza. Há romantismo, há lágrimas e há uma vontade assumida de emocionar. Em alguns momentos, a produção até carrega um pouco na intensidade, mas a sinceridade compensa boa parte dos excessos. “Ainda Estou Aqui” sabe que seu público busca emoção, e entrega isso sem pedir desculpas.
Arie Posin encontra um caminho eficiente ao unir luto adolescente, memória afetiva e uma pergunta que atravessa qualquer idade. O que fazer quando alguém vai embora antes da conversa terminar? Tessa Young (Joey King) procura a resposta nas fotos, nos sinais e nas lembranças de Skylar (Kyle Allen). Aos poucos, percebe que amar também exige voltar para o mundo, mesmo quando a saudade ainda insiste em chamar pelo nome.

