Discover

A docência sempre parece mais bonita quando observada de longe, sob a luz piedosa das boas intenções. De perto, entre carteiras quebradas, crianças que precisam antes aprender a confiar para só então aprender qualquer outra coisa, professores malpagos e comunidades esquecidas por todas as formas de progresso, ela revela sua substância menos fotogênica: ensinar é, muitas vezes, aceitar que ninguém será salvo na velocidade que o salvador imaginava. “O Bom Professor”, título brasileiro de “My Good Chinese Countrymen”, o drama de 2019 escrito e dirigido por Louyi Tang, parte desse engano civilizatório bastante conhecido — o estrangeiro em terra alheia, levando consigo as próprias frustrações como se fossem método pedagógico — e tenta convertê-lo numa fábula de humildade, cura e pertencimento, sem esconder certa inclinação para o sermão edificante.

Martin, vivido por Zack Gold, é um escritor americano às voltas com um fracasso íntimo que já não consegue disfarçar. Apaixona-se por uma mulher chinesa, imagina ter encontrado nesse encontro a saída elegante para suas irresoluções, e logo descobre que a vida, essa péssima roteirista de finais felizes, preferiu encaminhá-la a outro casamento. A desilusão não o torna exatamente mais profundo, apenas mais disponível para uma fuga com aparência de missão. É assim que ele chega ao interior remoto da China, onde passa a dar aulas numa pequena comunidade rural, cercado por gente que não tem tempo para as afetações sentimentais de um americano em crise.

Tang sabe que há um risco enorme nesse tipo de história. Um homem branco atravessando meio mundo para ensinar crianças pobres poderia facilmente resvalar naquela fantasia colonial tardia em que o visitante se descobre essencial para a redenção de um povo que sobrevivia muito bem antes dele aparecer. “O Bom Professor” contorna parcialmente essa armadilha ao fazer de Martin menos um mestre iluminado que um sujeito deslocado, frequentemente inepto, obrigado a perceber que sua cultura, sua língua e sua dor não ocupam o centro de coisa alguma. O melhor do filme está justamente quando a aldeia deixa de ser paisagem terapêutica e impõe ao protagonista uma lógica própria, feita de hierarquias locais, pequenos constrangimentos, afetos tímidos e uma dignidade que não pede tradução.

Beilong Wang, como o professor Ma, funciona como contraponto mais interessante a Martin. Há nele a autoridade discreta de quem conhece o terreno onde pisa e não precisa transformar cada gesto numa epifania. Peng Luo, na pele do chefe da vila, acrescenta ao enredo uma presença burocrática e comunitária ao mesmo tempo, dessas figuras que parecem representar menos um indivíduo que uma ordem de mundo; já Chen Hao e Baolong Go aparecem como tipos laterais que ajudam a engrossar a textura rural do filme, ainda que Tang nem sempre lhes dê espaço suficiente para que escapem da função dramática. A câmera, em geral, prefere o rosto atônito de Martin, e esse é também o limite mais incômodo da experiência: a China que o longa registra às vezes pulsa, às vezes vira espelho para o estrangeiro reorganizar sua consciência.

Aos poucos, o roteiro desloca Martin da pose de homem ferido para uma forma menos vaidosa de utilidade. Ele aprende que ensinar numa comunidade rural não consiste em despejar conteúdos sobre cabeças vazias, e sim em entender que cada criança já chega à sala carregando a casa, a família, a lavoura, a escassez, os medos dos pais e a esperança muda de quem talvez nunca vá embora dali. Quando o filme se detém nesse cotidiano, ganha uma aspereza boa, modesta, quase documental, e Zack Gold encontra um caminho mais honesto para o personagem: baixa o tom, abandona a perplexidade turística e passa a reagir com uma espécie de cansaço atento, como alguém que enfim percebe que sua tristeza não o autoriza a ser o personagem principal da tristeza dos outros.

O problema é que Louyi Tang, também roteirista e produtor, nem sempre confia nessa simplicidade. Há momentos em que “O Bom Professor” parece desejar arrancar uma comoção mais clara do que aquela que suas cenas comportam, e a música, os diálogos e alguns encadeamentos dramáticos se aproximam de um humanismo muito sublinhado, como se o espectador precisasse ser conduzido pela mão até a conclusão de que diferenças culturais podem ser vencidas pela escuta, pela paciência e pelo trabalho. Podem, claro, quando não viram frase de cartaz motivacional. Nos melhores instantes, o filme sabe disso e deixa que um olhar atravessado, uma dificuldade de comunicação ou a teimosia de uma criança digam mais que qualquer discurso sobre aceitação.

Há também uma beleza discreta na maneira como o longa registra o deslocamento físico de Martin. A viagem à China não surge como aventura exótica, e sim como um rebaixamento necessário. O escritor que talvez sonhasse com uma grande obra descobre-se útil em tarefas pequenas, diante de alunos que não o admiram de imediato, colegas que não se curvam a sua presença e uma comunidade que o obriga a abandonar a mania ocidental de transformar desconforto em grande aprendizado. A inspiração do filme nasce daí, menos da vitória pedagógica que da derrota moral de um homem obrigado a ficar menor para, enfim, caber no lugar onde foi parar.

“O Bom Professor” é um drama irregular, sincero em sua vontade de comover e às vezes ingênuo na forma de organizar essa comoção. Seus 80 minutos correm com a economia de uma produção independente que sabe não dispor de muitos recursos, e essa contenção ajuda mais do que atrapalha. Tang não realiza um filme memorável sobre educação, tampouco escapa por completo das facilidades do relato edificante, porém encontra alguma verdade na figura desse americano que chega ao campo chinês tentando fugir de uma mulher e termina confrontado por crianças que nada têm a ver com sua desdita. Martin não se torna grande por ensinar. Torna-se menos incômodo quando aprende a não atrapalhar tanto.


Filme: O Bom Professor
Diretor: Louyi Tang
Ano: 2019
Gênero: Drama
Avaliação: 3/5 1 1
Leia Também