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Heróis costumam nascer de uma deficiência do mundo, e quase sempre a corrigem com uma violência que a plateia aceita porque vem fantasiada de justiça. “Watchmen — O Filme”, dirigido por Zack Snyder em 2009, parte justamente do momento em que essa fantasia já apodreceu, adaptando a graphic novel de Alan Moore e Dave Gibbons com roteiro de David Hayter e Alex Tse, 162 minutos de solenidade, couro, chuva, neon sujo, corpos quebrados e uma fé quase infantil na imagem como argumento. Snyder vem de “300” (2006), e isso se nota na maneira como cada golpe parece pedir licença à eternidade antes de atingir a carne. Há beleza nisso, claro. Há também uma perigosa vontade de transformar todo dilema moral em pôster.

A América alternativa de 1985 em que se passa a história tem Richard Nixon ainda no poder, a Guerra Fria à beira do delírio atômico e antigos vigilantes mascarados removidos das ruas pela Lei Keene, aprovada em 1977. O crime que reabre a gaveta mais fétida desse passado é o assassinato de Edward Blake, o Comediante, lançado pela janela de seu apartamento depois de uma surra brutal. Blake, interpretado por Jeffrey Dean Morgan com uma mistura convincente de deboche, crueldade e cansaço, era um patriota do tipo que só ama seu país porque reconhece nele a mesma torpeza que carrega dentro de si. Sua morte leva Rorschach, o mascarado vivido por Jackie Earle Haley, a farejar uma conspiração contra os antigos combatentes do crime.

Rorschach é, de longe, o personagem que melhor sobrevive ao transplante dos quadrinhos para o cinema. Haley o compõe como um rato profético saído dos bueiros de Nova York, pequeno, crispado, dono de uma voz que parece ter sido lixada por noites sem sono e comida ruim. Seu diário em off, expediente que poderia soar ridículo em qualquer outra adaptação, ganha uma aspereza funcional porque o personagem não raciocina: sentencia. Para ele, o mundo está dividido entre culpa e punição, sem zona neutra, sem piedade, sem tribunal. A máscara mutável, com manchas negras que se reorganizam como um teste psiquiátrico enlouquecido, é a melhor ideia visual do filme e talvez a única que Snyder não tenta melhorar por excesso.

Dan Dreiberg, o Coruja de Patrick Wilson, e Laurie Jupiter, a Espectral de Malin Åkerman, pertencem a outra espécie de fracassados. Ele é um aposentado melancólico, dono de aparelhos caríssimos e de uma virilidade trancada num porão; ela é filha de Sally Jupiter, uma heroína dos tempos em que a exploração do corpo feminino ainda podia ser vendida como glamour patriótico, e passa boa parte do enredo tentando escapar da sombra da mãe, do tédio de Dr. Manhattan e da própria irrelevância dentro de uma trama dominada por homens feridos de maneiras mais espetaculares. Wilson entende bem a hesitação de Dan, seu desejo de voltar a vestir a fantasia não por grandeza moral, mas porque a vida sem ela ficou estreita. Åkerman, por sua vez, oscila. Quando Laurie discute com Manhattan ou se aproxima de Dan, falta-lhe uma fúria mais precisa, alguma coisa que faça a personagem existir fora da moldura amarela e preta em que o diretor a aprisiona.

Dr. Manhattan, vivido por Billy Crudup sob uma camada azul de indiferença digital, é a grande aposta filosófica de “Watchmen”. Jon Osterman era um cientista comum até ser desintegrado num acidente e retornar como uma entidade capaz de manipular a matéria, enxergar passado e futuro e vencer guerras só pela presença. Snyder o filma como um deus cansado de ser observado por formigas. A sequência em Marte, quando Manhattan reconstrói sua trajetória e Laurie tenta convencê-lo a se importar outra vez com os humanos, tem uma gravidade que por momentos escapa à afetação. O problema é que a frieza do personagem contamina cenas demais, e a imagem do super-homem nu, luminoso, gigantesco, logo deixa de perturbar para virar ornamento.

Adrian Veidt, o Ozymandias de Matthew Goode, aparece como o sujeito que entendeu antes dos outros que a máscara renderia mais dinheiro fora das ruas. Revelou sua identidade, construiu um império empresarial e passou a vender uma versão higienizada do heroísmo, como se a salvação do mundo pudesse ser planejada numa sala de vidro por alguém sem uma ruga de dúvida no rosto. Goode lhe dá uma elegância esquisita, quase cadavérica, adequada a um personagem que transforma inteligência em isolamento e isolamento em monstruosidade. Ainda assim, seu Ozymandias carece de peso. Quando a história finalmente coloca sobre ele a responsabilidade pelo gesto mais terrível do enredo, falta a esse homem a grandeza perversa que tornaria sua solução ainda mais repulsiva.

Snyder é fiel ao texto original até onde sua natureza permite. Ele conserva a estrutura de investigação, os flashbacks no funeral do Comediante, a decadência dos Minutemen, a sombra do Vietnã, a paranoia nuclear, o ressentimento sexual de heróis desativados e a pergunta incômoda que sustenta tudo: quem vigia os vigilantes quando eles se convencem de que a humanidade precisa ser salva apesar de si mesma? A troca do desfecho da HQ por uma solução mais diretamente ligada a Dr. Manhattan é discutível, e talvez funcione melhor para o cinema, por simplificar a ameaça e amarrá-la ao medo concreto de um deus americano. Perde-se algo do absurdo grotesco de Moore, ganha-se uma coerência sombria com o personagem de Crudup.

A abertura ao som de “The Times They Are A-Changin’”, de Bob Dylan, ainda é o melhor resumo do filme. Em poucos minutos, Snyder conta a ascensão e a decomposição dos mascarados, mistura assassinato de Kennedy, Vietnã, cultura pop, violência urbana e celebridades com uma precisão que o restante do longa tenta alcançar a golpes de câmera lenta. Larry Fong fotografa esse mundo como uma vitrine de luxo depois de um saque, e Tyler Bates empurra a trilha para uma solenidade que às vezes pesa demais. Quando funciona, “Watchmen” tem a força de uma elegia para super-heróis que jamais mereceram estátuas. Quando derrapa, parece fascinado demais pela brutalidade que deveria examinar com mais desconfiança.

Ainda assim, há algo de admirável nesse excesso. “Watchmen — O Filme” não é uma adaptação domesticada, nem um capítulo qualquer da atual indústria de bonecos invencíveis e piadas de intervalo. É uma obra irregular, inchada, vaidosa, cheia de momentos magníficos e tropeços constrangedores, quase sempre mais interessante quando deixa seus personagens fracassarem sem pedir que gostemos deles. Rorschach termina como começa, preso à própria noção miserável de justiça; Dan e Laurie descobrem que a normalidade também pode ser uma fantasia; Manhattan abandona a Terra como quem fecha uma porta sem bater; e Ozymandias fica sozinho com a paz que fabricou. Snyder talvez tenha amado demais os corpos, os uniformes e a pose. Mesmo assim, deixou um filme que entende uma coisa rara: às vezes o apocalipse não chega quando as bombas caem, mas quando alguém decide que pode escolher, por todos nós, quem deve continuar respirando.


Filme: Watchmen — O Filme
Diretor: Zack Snyder
Ano: 2009
Gênero: Ação
Avaliação: 4/5 1 1
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