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O mal raramente se apresenta com a cara que esperamos dele. Quase nunca chega babando, de olhos injetados, arrastando correntes ou anunciando, em voz cavernosa, a própria monstruosidade. Às vezes usa bons modos, fala com inteligência, lembra dos filhos, mantém algum charme de salão, negocia com advogados, ri na hora certa e sabe exatamente quando deve parecer humano para continuar sendo perigoso. É nessa fresta moral, muito mais incômoda que qualquer cena de violência explícita, que James Vanderbilt finca “Nuremberg”, drama histórico sobre o momento em que o mundo, ainda coberto pelas cinzas da Segunda Guerra, tentou transformar horror em processo, barbárie em prova documental, vingança em justiça.

A Alemanha de 1945 é aqui menos um país derrotado que uma espécie de necrotério político. Hitler está morto, o regime nazista ruiu, mas seus homens continuam ali, respirando, comendo, reclamando, dormindo em celas, esperando que alguém decida se ainda merecem o nome de seres humanos antes de receberem a sentença dos tribunais. Vanderbilt, que também assina o roteiro, parte do livro “The Nazi and the Psychiatrist”, de Jack El-Hai, para concentrar boa parte da tensão em Douglas Kelley, o psiquiatra militar americano vivido por Rami Malek, escalado para avaliar a sanidade dos 22 oficiais nazistas que seriam submetidos ao julgamento. A premissa é perturbadora porque se recusa a oferecer ao espectador o conforto mais banal: o de acreditar que aqueles homens eram aberrações clínicas, criaturas divorciadas da humanidade comum, animais que por algum erro da natureza aprenderam a usar uniforme.

Kelley entra nesse labirinto com a curiosidade de quem imagina encontrar uma chave científica para a origem do mal. Malek interpreta o personagem como um homem brilhante, vaidoso, algo nervoso, possivelmente encantado demais com a própria inteligência para perceber que também está sendo estudado. Seu Douglas Kelley quer compreender Hermann Göring, mas antes precisa admitir que Göring sabe ser compreendido quando isso lhe convém. O personagem de Russell Crowe, braço direito de Hitler e figura mais vistosa entre os réus, não é apresentado como um demônio berrante, e sim como um aristocrata do abismo, um sujeito capaz de alternar cordialidade, cinismo, orgulho ferido e manipulação com a destreza de quem ainda se imagina no comando da sala. Crowe faz do nazista uma presença pesada, quase oleosa, e esse é o grande acerto do filme: quanto mais civilizado Göring parece, mais repulsivo se torna.

Há um duelo evidente entre os dois, e Vanderbilt sabe que está ali sua matéria mais cinematográfica. Nas conversas entre Kelley e Göring, “Nuremberg” se aproxima do thriller psicológico, ainda que jamais consiga se libertar por completo da solenidade exigida pelo tema. O psiquiatra tenta abrir uma fissura na couraça do prisioneiro; o prisioneiro, por seu turno, tenta seduzir o psiquiatra, não no sentido vulgar, mas naquele mais ardiloso, de impor sua narrativa, de parecer mais sofisticado que seus acusadores, de transformar genocídio em uma questão administrativa, guerra em destino nacional, obediência em virtude. É nesse jogo que o filme encontra seus melhores momentos, porque deixa de lado a obrigação de ilustrar a História e passa a observar dois homens num quarto, cada qual tentando provar que domina melhor a linguagem do outro.

Ao redor deles, Robert H. Jackson, o promotor-chefe dos Aliados interpretado por Michael Shannon, carrega a parte mais institucional do enredo. Shannon tem a austeridade necessária para um papel que poderia virar estátua antes mesmo de se mover. Seu Jackson não é um herói inflamado, mas um homem que entende o tamanho da tarefa: provar crimes que pareciam exceder a própria capacidade do direito de nomeá-los. A presença de Richard E. Grant, Leo Woodall, John Slattery e Colin Hanks ajuda a dar corpo a essa engrenagem de gabinetes, prisões, corredores e salas de audiência, mas é Shannon quem melhor encarna a dimensão jurídica do filme, essa tentativa quase desesperada de dizer ao século 20 que nem todo vencedor precisa se comportar como carrasco.

O problema de “Nuremberg” nasce justamente de sua ambição. Vanderbilt quer fazer drama de tribunal, estudo psiquiátrico, épico moral, filme histórico de prestígio e alerta contemporâneo sobre o fascínio recorrente por líderes autoritários. Nem sempre essas camadas se acomodam com naturalidade. Há momentos em que o roteiro explica demais o que a situação já deixava claro, como se temesse que a plateia não alcançasse sozinha a evidência de que o nazismo não foi um surto isolado, mas uma possibilidade humana organizada por burocratas, propagandistas, militares, industriais, covardes e entusiastas. O filme melhora quando se cala um pouco e permite que o rosto de Crowe, a inquietação de Malek ou a secura de Shannon façam o trabalho que certas falas insistem em sublinhar.

Mesmo assim, há uma força inegável na escolha de deslocar o centro dramático do campo de batalha para a sala de interrogatório. “Nuremberg” não se interessa por soldados heroicos marchando sob fumaça, tampouco por generais decidindo o destino do mundo diante de mapas. O que o move é o depois, essa zona moral mais ingrata em que a humanidade precisa olhar para cadáveres, documentos, filmes, confissões, números e ainda assim impedir que tudo se converta em abstração. Quando o julgamento enfim ocupa o primeiro plano, Vanderbilt recupera o peso do rito público. A corte não está ali apenas para condenar homens, mas para criar uma gramática contra a desculpa eterna dos poderosos: eu obedecia ordens, eu defendia meu país, eu não sabia de tudo, eu apenas cumpri meu papel.

Rami Malek, por vezes, parece atuar um pouco acima da temperatura ideal do filme. Seu Kelley tem tiques, olhares oblíquos, pausas calculadas, uma inquietação que funciona quando o personagem começa a perceber que sua investigação não o deixará ileso, mas que em alguns trechos roça uma afetação desnecessária. Crowe, ao contrário, compreende que Göring assusta mais quando não se esforça para assustar. Seu trabalho é de contenção venenosa; ele sorri como quem negocia uma vitória, mesmo já derrotado, e fala como se a História fosse apenas uma disputa de versões na qual ainda poderia sair bem na fotografia. Essa diferença de temperatura entre os dois atores, que poderia comprometer o filme, acaba por reforçar a assimetria da relação: Kelley quer decifrar; Göring quer governar até a própria derrota.

A direção de Vanderbilt é mais correta que propriamente inventiva, mas há dignidade nessa correção. Ele sabe que qualquer excesso ornamental poderia soar obsceno diante do assunto, e por isso prefere uma encenação sóbria, de tons fechados, interiores opressivos e ritmo de progressiva intoxicação. “Nuremberg” não é um filme perfeito, tampouco o monumento definitivo que talvez pretendesse ser. Falta-lhe, em certos momentos, a coragem de confiar mais no silêncio e menos na explicação; falta-lhe também uma dramaturgia mais afiada para que os personagens secundários não pareçam apenas funções históricas orbitando os dois Oscarizados no centro da ribalta.

Mas o que sobra é relevante. Ao recusar a ideia cômoda de que o mal pertence apenas aos monstros, o filme acerta em cheio. Göring não assombra porque parece inumano, e sim porque, em muitos instantes, parece humano demais. Kelley sai de sua convivência com os nazistas menos interessado em encaixá-los numa patologia que em compreender a terrível normalidade de sua torpeza. Eis a verdadeira desdita que “Nuremberg” põe diante do espectador: o tribunal pode condenar homens, registrar provas, fundar precedentes e salvar alguma ideia de civilização, mas não consegue eliminar a semente que fez tudo aquilo germinar. Essa, como o filme sugere em seus melhores momentos, continua guardada em solo fértil, esperando apenas o próximo jardineiro.


Filme: Nuremberg
Diretor: James Vanderbilt
Ano: 2025
Gênero: Drama/História
Avaliação: 4/5 1 1
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