O dinheiro nasce limpo apenas na fantasia dos que o adoram. Na vida prática, sobretudo quando muda de mãos em salas fechadas, hotéis de trânsito, aeroportos sem alma e mesas onde homens fingem cordialidade enquanto medem a distância até a próxima traição, ele quase sempre já chega com alguma fuligem. “Siberia”, thriller de 2018 dirigido por Matthew M. Ross e escrito por Scott B. Smith a partir de uma história de Stephen Hamel, entende isso muito bem, ainda que nem sempre consiga transformar tal percepção num filme à altura de sua atmosfera. Keanu Reeves vive Lucas Hill, um comerciante americano de diamantes que desembarca em São Petersburgo para vender pedras azuis raríssimas a Boris Volkov, um comprador russo cuja paciência parece ter sido lapidada no mesmo gelo que cerca a história.
Lucas é um desses homens que já chegam derrotados, mesmo antes de o golpe acontecer. Reeves, com sua conhecida expressão de mármore espiritualizado, não tenta fazer dele um aventureiro sedutor, nem um vigarista exuberante, nem um herói de ação pronto para quebrar maxilares com a disciplina zen de John Wick. Aqui, ele parece mais cansado do que perigoso, mais enredado do que astuto, e essa escolha, embora limite o filme em algumas passagens, também o salva de virar uma quinquilharia sobre mafiosos russos, diamantes falsos e mulheres enigmáticas. O negócio começa a ruir quando Pyotr, o parceiro que deveria entregar as pedras, desaparece, empurrando Lucas para uma cadeia de favores, ameaças e deslocamentos que o leva da elegância fria de São Petersburgo ao isolamento de uma pequena cidade siberiana.
É nesse desvio que Matthew Ross encontra o que seu filme tem de mais vivo. Katya, a dona de um café interpretada por Ana Ularu, surge primeiro como uma promessa de descanso, uma mulher de gestos duros, olhar frontal e uma espécie de desencanto sem exibicionismo, mas logo se torna a única presença capaz de romper a espessura mortuária de Lucas. A relação dos dois nasce menos da paixão que do reconhecimento mútuo de duas pessoas acuadas em mundos que não lhes perguntam nada. Ela vive sob as regras tácitas de uma comunidade pequena, em que todos sabem demais e falam de menos; ele traz no bolso um negócio apodrecido, uma esposa distante, Gabby, vivida por Molly Ringwald, e a certeza de que talvez tenha atravessado meio planeta apenas para descobrir que sua vida sempre foi uma negociação mal redigida.
O romance entre Lucas e Katya tem qualquer coisa de febril e ao mesmo tempo mecânico, como se Ross hesitasse entre fazer um thriller erótico à moda antiga e um estudo melancólico sobre a autodestruição masculina. Nos melhores momentos, vence a segunda hipótese. Katya não é só a amante providencial que aparece para humanizar o protagonista, e Ularu entende a personagem sem submetê-la ao exotismo de catálogo. Sua russa não é paisagem, prêmio ou ameaça ornamentada: é uma mulher que percebe, antes do próprio Lucas, que aquele homem trouxe consigo uma desgraça de importação. A química entre ela e Reeves não incendeia o filme, mas o aquece o bastante para que se aceite a ideia de que, naquele território de neve, silêncio e homens armados, o desejo possa nascer como nasce quase tudo ali: por necessidade, atrito e teimosia.
O problema é que “Siberia” parece às vezes interessado demais na pose e de menos no veneno. O roteiro cerca Lucas com figuras que deveriam engrossar a sensação de perigo — Boris Volkov, vivido por Pasha D. Lychnikoff, é a mais evidente delas —, mas muitas dessas presenças entram e saem como peças de um tabuleiro já conhecido, sem a densidade moral que faria do imbróglio dos diamantes algo mais perturbador. Há, claro, o prazer elementar de acompanhar um negócio clandestino se desfazendo aos poucos, com cada personagem tentando salvar a própria pele enquanto finge honrar algum acordo; há também uma fotografia de Eric Koretz que explora interiores amarelados, ruas frias e espaços vazios como se o mundo conspirasse para reduzir Lucas a uma sombra. Ainda assim, o filme demora a decidir se quer sufocar o espectador ou apenas embalá-lo num fatalismo elegante.
Ross, que já havia dirigido “Frank & Lola”, tem apreço por homens que confundem desejo com destino e por mulheres que funcionam como espelhos de uma ruína masculina anterior ao encontro. Em “Siberia”, essa inclinação encontra um ambiente mais áspero, mas nem sempre um drama mais profundo. Lucas é interessante justamente porque não se explica inteiro. Ele vende diamantes de origem suspeita, negocia com gente de péssima reputação, mente por hábito profissional e, mesmo assim, o filme quer que vejamos nele um resíduo de decência, ou ao menos uma espécie de tristeza nobre. Reeves trabalha bem esse vazio, mas também o torna estático em excesso. Em alguns trechos, sua contenção parece precisão; em outros, mera economia de energia dramática.
A engrenagem cresce quando se percebe que não há saída honrosa. O desaparecimento de Pyotr, a pressão de Boris, a fragilidade das pedras, o envolvimento com Katya e a lembrança doméstica de Gabby deixam Lucas dividido entre duas ficções igualmente frágeis: a do negociante capaz de controlar o próprio risco e a do homem que ainda poderia recomeçar ao lado de alguém que conheceu no momento errado. O thriller, então, ganha seu melhor sentido. Não se trata exatamente de descobrir quem engana quem, mas de acompanhar a decomposição de um sujeito que confundiu frieza com inteligência e agora tenta, tarde demais, dar alguma beleza ao desastre.
“Siberia” não é um grande filme, e talvez nem queira sê-lo. Falta-lhe a perversidade de um noir genuíno, falta-lhe a tensão geométrica dos melhores thrillers de transação criminosa, falta-lhe também uma entrega mais selvagem ao erotismo que anuncia. Mas há nele uma melancolia persistente, um desconforto que sobrevive aos seus atalhos e uma boa percepção de que certos homens só descobrem que têm alma quando já a empenharam por um preço baixo demais. Nos seus 104 minutos, Matthew Ross não lapida um diamante raro; encontra, no máximo, uma pedra turva, irregular, de brilho intermitente. Ainda assim, quando Keanu Reeves atravessa aquele gelo como quem caminha para dentro da própria sentença, “Siberia” lembra que negócios ruins terminam. Os homens que os fazem, nem sempre.

