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Homens feitos para defender instituições costumam descobrir tarde demais que as instituições não foram feitas para defender ninguém. A espionagem, esse ofício de patriotas desconfiados, burocratas armados e mentirosos com crachá, sempre parece mais excitante quando observada à distância, de preferência por quem nunca precisou escolher entre obedecer a uma ordem e preservar a própria alma. “Jack Ryan de Tom Clancy: Guerra Fantasma” entende bem essa contradição, ainda que nem sempre consiga escapar da aparência de episódio avantajado de uma série que já havia dito quase tudo quanto tinha a dizer. Andrew Bernstein, veterano do universo televisivo de Ryan, leva o analista da CIA novamente ao campo de batalha moral, agora num longa de 106 minutos em que a geopolítica serve menos como reflexão sobre o estado do mundo que como engrenagem para perseguições, explosões, informes sigilosos e alianças que jamais deveriam ser tomadas como definitivas.

Jack Ryan, vivido outra vez por John Krasinski, é arrancado de uma tranquilidade que nunca lhe pertenceu de verdade quando uma missão secreta internacional revela uma conspiração de proporções muito maiores que as admissíveis pela cartilha do funcionalismo patriótico. Esse é o ponto de partida mais ou menos inevitável de qualquer aventura envolvendo o personagem criado por Tom Clancy: Ryan começa como o homem que gostaria de ficar longe da lama, mas termina, por vocação ou infortúnio, mergulhado nela até o pescoço. Krasinski continua eficiente na composição desse herói de sobrancelha franzida, um sujeito que tenta parecer comum mesmo quando o roteiro o empurra para o centro de uma crise global, e sua maior qualidade está justamente em não vender Ryan como brucutu. Ele pensa antes de atirar, desconfia antes de correr e, quando corre, carrega consigo a expressão de quem gostaria de estar em qualquer outro lugar.

A volta de James Greer e Mike November, personagens de Wendell Pierce e Michael Kelly, dá ao filme a camada de familiaridade que os fãs da série esperam. Pierce conserva em Greer aquela autoridade algo fatigada de quem já viu o bastante para não se impressionar com relatórios alarmistas, ao passo que Kelly faz de November uma espécie de profissional do desencanto, menos heroico que funcional, menos idealista que útil. A entrada de Emma Marlow, a agente do MI6 interpretada por Sienna Miller, acrescenta ao conjunto um contraste necessário, embora o filme pareça hesitar entre fazê-la peça decisiva do tabuleiro ou apenas a representante britânica de uma trama que nunca se decide a explorar melhor seus estrangeiros. Miller tem presença, sabe ocupar o quadro e empresta à personagem uma inteligência seca, mas o roteiro de Aaron Rabin e Krasinski prefere, quase sempre, fazer dela uma extensão elegante da máquina de espionagem, não uma fissura real nessa máquina.

A tal unidade rebelde de operações secretas que Ryan precisa enfrentar funciona como ameaça adequada para o gênero: tem recursos, métodos, traidores convenientes e aquela capacidade quase sobrenatural de estar sempre dois passos à frente dos mocinhos até o momento em que a narrativa exige o contrário. Bernstein conduz as sequências de ação com clareza, o que já é uma virtude num tempo em que muitos filmes confundem tremedeira de câmera com urgência dramática. Há tiroteios secos, deslocamentos por ambientes fechados, conversas em salas onde todos parecem saber mais do que dizem, e uma sensação constante de que o mundo está sendo decidido por meia dúzia de homens e mulheres exaustos diante de monitores. O problema é que “Guerra Fantasma” às vezes se contenta com a superfície desses elementos, como se bastasse juntar CIA, MI6, conspiração, atentado e lealdades fraturadas para que o velho coração do thriller político voltasse a bater com força.

Não volta exatamente. Bate, mas com arritmia.

A melhor parte do filme está na tentativa de recolocar Jack Ryan diante de uma pergunta que o acompanha desde suas encarnações anteriores, de Alec Baldwin a Harrison Ford, de Ben Affleck a Chris Pine: o que resta de um homem decente quando ele precisa servir a um sistema cuja decência é, no mínimo, negociável? Krasinski não tem a gravidade ferida de Ford nem a elegância cerebral de Baldwin, mas compensa com uma espécie de honestidade física, um desconforto permanente que combina com esse Ryan amadurecido, menos encantado com a própria inteligência e mais consciente de que a razão, sozinha, não desarma bombas nem salva amigos. Quando o filme se concentra nele e nos vínculos que o puxam de volta à guerra invisível, funciona. Quando se entrega às generalidades de manual — a conspiração, a corrida contra o tempo, o inimigo interno, a ameaça internacional de contornos elásticos —, transforma-se num produto competente, lustroso, mas menos memorável do que pretende.

“Jack Ryan de Tom Clancy: Guerra Fantasma” não é um desastre, tampouco uma ressurreição gloriosa. É um thriller de ação sólido, feito com dinheiro, elenco capaz e direção segura, mas preso demais à obrigação de prolongar uma marca que talvez funcionasse melhor respirando em capítulos. Ainda assim, há algo de curioso nesse Jack Ryan que insiste em voltar contra a própria vontade, como se já soubesse que o mundo nunca estará salvo o bastante para deixá-lo em paz. No fim, essa talvez seja sua condenação mais convincente: Ryan não é chamado porque é indispensável; ele é chamado porque, numa paisagem infestada de cínicos, continua parecendo o último sujeito disposto a se envergonhar do que faz.


Filme: Jack Ryan de Tom Clancy: Guerra Fantasma
Diretor: Andrew Bernstein
Ano: 2026
Gênero: Ação/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
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