Máquinas não assustam por pensarem; assustam porque talvez pensem melhor que nós, com menos vaidade, menos ressentimento, menos prazer em devastar tudo quanto se lhes ponha à frente. A inteligência artificial, esse espantalho reluzente que o século 21 pendurou no meio da sala, tem servido ao cinema ora como profecia apocalíptica, ora como desculpa para que homens armados até os dentes continuem fazendo o que sempre fizeram: invadir territórios, eleger inimigos, justificar massacres e chamar a própria brutalidade de segurança. Em “Resistência”, título brasileiro um tanto genérico para o mais sugestivo “The Creator”, Gareth Edwards leva essa paranoia a um futuro em que a humanidade e as inteligências artificiais travam uma guerra de extermínio, depois que uma explosão nuclear em Los Angeles passa a ser atribuída às máquinas. O ponto de partida parece saído de meia dúzia de distopias conhecidas, mas Edwards, que assina o roteiro com Chris Weitz, tem olho suficiente para transformar ideias já bastante visitadas numa experiência visual de rara imponência.
Joshua, o ex-agente vivido por John David Washington, é um homem que se move como quem já morreu e apenas se esqueceu de cair. Ferido no corpo, devastado pela perda da esposa, Maya, a personagem de Gemma Chan, ele é convocado para voltar ao front e localizar Nirmata, o tal Criador, arquiteto de uma arma capaz de encerrar a guerra — e, segundo os americanos, de liquidar a humanidade. A missão leva Joshua e um pelotão de soldados a uma região da Nova Ásia dominada por inteligências artificiais, cenário em que vilarejos, arrozais, templos e corredores subterrâneos convivem com drones, simulantes, tanques e a presença onipotente de Nomad, uma estação militar suspensa no céu como uma divindade genocida. É quando o filme encontra sua imagem mais poderosa: a guerra moderna não precisa mais descer à terra para esmagar os homens; basta pairar sobre eles.
A surpresa, claro, é que a arma procurada tem a forma de uma criança. Alphie surge como o MacGuffin sentimental de uma ficção científica que deseja falar de império, paternidade, culpa, fé e livre-arbítrio, nem sempre com a mesma precisão com que organiza seus planos abertos, suas explosões e seus silêncios. A menina não é apenas uma inteligência artificial avançada; é também a chance de Joshua reencontrar algo de humano em si, ainda que essa humanidade venha justamente pelo contato com aquilo que ele fora treinado para destruir. Edwards entende bem essa contradição e sustenta boa parte do filme na aproximação entre o soldado cansado e a criança-máquina, cuja inocência desmonta as certezas morais do protagonista sem que seja necessário muito discurso. O problema é que o roteiro, vez ou outra, não confia no que as imagens já disseram e insiste em sublinhar o óbvio.
John David Washington tem uma presença curiosa: parece sempre contido demais para o tamanho do drama, mas essa contenção acaba funcionando quando se entende Joshua como um homem embalsamado pela culpa. Ele não interpreta um herói inflamado, e sim um sobrevivente que vai aceitando, aos poucos, a vergonha de estar do lado errado da História. Gemma Chan, por sua vez, aparece menos como mulher do que como lembrança, mito, promessa de ressurreição; sua Maya é importante não pela densidade que o texto lhe dá, mas pelo buraco que deixa no protagonista. Ken Watanabe confere gravidade a Harun, um simulante que carrega no rosto a fadiga de quem já compreendeu que toda guerra é uma derrota administrada por vencedores provisórios. Allison Janney, na pele da coronel Howell, endurece o filme com uma amargura quase caricatural, mas eficiente: sua personagem é o tipo de militar que chama vingança de dever.
“Resistência” é melhor quando abandona a pretensão de ser uma grande tese sobre inteligência artificial e assume sua natureza de aventura trágica, com perseguições, resgates, emboscadas e uma criança no centro de um tabuleiro que adultos, humanos ou sintéticos, parecem incapazes de compreender. Edwards filma ruínas com beleza, máquinas com alma e soldados com a estupidez funcional de sempre. Há ecos de “Blade Runner”, “Apocalypse Now”, “A.I. — Inteligência Artificial” e até de “Rogue One”, não tanto por cópia deliberada, mas porque o diretor pertence a essa linhagem de cineastas que veem na ficção científica uma forma elegante de falar sobre colonialismo, sacrifício e obediência.
Nem tudo se resolve. A mitologia de Nirmata é mais sedutora do que clara, o terceiro ato se rende a alguns atalhos melodramáticos e o filme, por vezes, quer comover antes de merecer inteiramente a comoção. Ainda assim, há vigor no conjunto, sobretudo porque Edwards sabe que a ficção científica não vive apenas de conceitos, mas de assombro. “Resistência” talvez não seja a obra definitiva sobre a angústia humana diante das máquinas, mas é uma dessas produções raras em que a tecnologia em cena parece menos perigosa que o homem que a contempla com medo, ódio e uma arma na mão. A criança artificial não ameaça o futuro. Quem ameaça é quem acredita que precisa matá-la para salvar o mundo.

