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Laird Koenig (1927-2023) tem a infância como um território de solidão e descobertas amargas. Muitos de seus anti-heróis e anti-heroínas são crianças e adolescentes que desafiam as tantas convenções do árido universo dos adultos, e por meio deles o autor investiga a ambivalência do ser humano, vulnerável tenha a idade que tiver. Essas reflexões sobre as dores e perdas do crescimento vêm a lume com crueza e uma dose de poesia em “A Garota do Fim da Rua”, conto de horror cujo mal-estar aumenta sem grandes reviravoltas num cálculo milimétrico. Nicholas Gessner (1931-2023) materializa o roteiro do próprio Koenig, nascido do romance publicado em 1974, atento ao mínimo detalhe, tirando de cada cena todo incômodo que pode. E ele dispõe da atriz ideal para a tarefa.

Menina solta

É difícil classificar Rynn Jacobs. Sua figura inspira comiseração, mas ela não é uma pobre menina indefesa. Rynn cuida de si mesma, toma conta da casa e bota os invasores para correr, tudo para manter a salvo da curiosidade alheia — e da polícia — um segredo. Seu espírito atormentado só não se despedaça de vez porque ela sabe que está exatamente onde deve, certeza que não pode dividir com ninguém. Sua primeira ameaça é Frank Hallet, um vizinho abelhudoque revela-se um predador sexual; quando os dois encontram-se pela primeira vez, Gessner conduz uma sequência aparentemente ilógica, deixando que o público especule e devaneie, mas não consiga desvendar o enigma. MartinSheenvai fundo no cinismo de Frank, valendo-se da sóbria estampa de bom moço, mas é uma Jodie Foster sempre estimulante, surpreendente e perturbadora aos catorze anos quem cativa o espectador, mais até que Iris Steensma, a prostituta juvenil de “Taxi Driver” (1976), clássico niilista de Martin Scorsese. Gessner sai-se bem, “A Garota do Fim da Rua” é ótimo, mas Foster é ainda melhor.


Filme: A Garota do Fim da Rua
Diretor: Nicholas Gessner
Ano: 1976
Gênero: Mistério/Suspense
Avaliação: 4.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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