A fronteira entre realidade e ficção é relativa. Nessas duas formas de registro da experiência humana, a memória tem papel central, revelando-se imperfeita, maleável, suscetível às tantas interferências das vontades mais obscuras, cabendo sempre analisar quem pergunta e quem responde, quem investiga e quem é investigado, o que pode trazer mais dúvidas que certezas. Shirley Jackson (1916-1965) lambuzou-se nessas inconstâncias do real e do ilusório, materializando-as na meia centena de livros que publicou em menos de meia centena de anos de vida, eixo em torno do qual move-se “Shirley”. Nem tudo é verdade no filme de Josephine Decker, e o roteiro de Sarah Gubbins volta ao romance homônimo de Susan Scarf Merrell induzindo o espectador a fazer seu próprio juízo acerca dessa figura tão ambígua como sedutora.
Biografia e romanceação
Shirley nunca quis ser convencional. Avessa a interações sociais, agorafóbica, desgrenhada e quase obesa, a escritora vive numa espécie de mundo paralelo, perseguindo um sucesso destinado apenas para homens naqueles longínquos anos 1950 e gozando de sua cota de martírio doméstico nesse departamento ao lidar com Stanley Edgar Hyman (1919-1970), crítico literário e marido vaidoso e infiel. Sua rotina começa a ficar um pouco menos sem graça quando Stanley decide hospedar Fred Nemser, aspirante a professor do Bennington College, onde o anfitrião leciona, e a esposa, Rose, e então Decker concentra-se na progressiva mudança de Shirley, que não só encontra inspiração para novos contos de terror, sua especialidade, mas também parece balançada pela outra mulher. Elisabeth Moss equilibra-se entre as neuroses e medos da protagonista ao passo que oferece ao espectador algumas possibilidades de como vai será o convívio de Shirley com os demais moradores da casa, numa interpretação que monopoliza as atenções, mas deixa brilharem Odessa Young, Michael Stuhlbarg e Logan Lerman, nessa ordem.

