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Há famílias para as quais qualquer deslocamento de mais de cinquenta quilômetros já assume ares de expedição civilizatória, com seus tratados de paz, suas pequenas guerras, sua diplomacia de posto de gasolina e um cheiro persistente de salgadinho, suor e ressentimento. O cinema americano fez desse inferno sobre rodas uma de suas mitologias mais duráveis, talvez porque não exista nada mais identificável para a classe média dos Estados Unidos que a fantasia de empurrar mulher, filhos, malas e frustrações para dentro de um carro e sair pelo país em busca de uma felicidade que, em geral, já se perdeu antes da primeira parada. “Férias Frustradas”, dirigido e escrito por John Francis Daley e Jonathan Goldstein, volta a esse filão com a desfaçatez de quem sabe estar remexendo numa lembrança querida, mas prefere tratá-la como piada escatológica, reboot tardio e sequência sentimental ao mesmo tempo.

Rusty Griswold cresceu, mas não amadureceu o bastante para perceber que repetir a aventura do pai talvez não seja uma homenagem, e sim um diagnóstico. Piloto da EconoAir, uma companhia de baixo custo em que o profissionalismo parece menos importante que a tolerância ao ridículo, ele vive um casamento morno com Debbie, interpretada por Christina Applegate com aquela eficiência seca de atriz que compreende o absurdo da situação antes do personagem. Os filhos, James e Kevin, formam uma dupla estranhamente invertida: o mais velho é tímido, educado, quase frágil em sua dificuldade de habitar o próprio corpo; o caçula, uma peste mirrada, persegue o irmão com requintes de psicopatia doméstica. Ao notar que sua família já se encontra em estado avançado de desagregação funcional, Rusty decide salvar todos pela via mais perigosa: uma viagem de carro até Wally World, o mesmo parque de diversões que seu pai, Clark Griswold, transformara em delírio familiar em 1983.

Daley e Goldstein não escondem a reverência ao “Férias Frustradas” de Harold Ramis, mas tampouco têm a delicadeza de preservar sua inocência cafajeste. O que antes nascia da fricção entre a obsessão suburbana de Clark e as aberrações da estrada agora surge de um acúmulo de gags mais agressivas, mais sujas, mais conscientes de que o público de 2015 já não se escandaliza com quase nada. O carro albanês alugado por Rusty, uma monstruosidade chamada Tartan Prancer, resume bem o espírito da empreitada: feio, tecnológico de modo inútil, cheio de botões inexplicáveis, emblema de uma modernidade que promete conforto e entrega humilhação. É a bordo desse pequeno túmulo metálico que os Griswold atravessam os Estados Unidos, topando com piscinas de esgoto, guias suicidas, acidentes em monumentos turísticos e toda sorte de contratempos que fariam qualquer pessoa sensata desistir da paternidade, do casamento e da nação.

Ed Helms não é Chevy Chase, e o filme sabe disso. Seu Rusty não tem o cinismo elástico de Clark, aquele misto de vendedor de seguros, patriarca alucinado e criança contrariada que Chase fazia parecer tão naturalmente abjeto. Helms compõe um sujeito mais dócil, quase bovino, cuja estupidez nasce menos da arrogância que de uma confiança constrangedora no poder regenerador da família. Ele irrita, mas sua irritação é útil ao filme, porque Rusty precisa mesmo ser um homem capaz de confundir insistência com amor. Quando Debbie tenta recordar a juventude dissoluta que teve antes do casamento, Christina Applegate injeta um vigor inesperado na trama; ela faz com que a personagem pareça alguém que aceitou a vida doméstica sem jamais ter se reconciliado com ela por completo. O melhor do filme está justamente nesses momentos em que a comédia deixa escapar, por descuido ou sorte, a tristeza de adultos que não sabem mais como conversar sem transformar tudo em piada.

A passagem pela casa de Audrey, agora vivida por Leslie Mann, leva “Férias Frustradas” a seu instante mais espalhafatoso, com Chris Hemsworth surgindo como Stone Crandall, um apresentador local de meteorologia cuja masculinidade é tão monumental que já se torna uma paródia de si mesma. Hemsworth entende o jogo e se entrega ao papel com uma falta de pudor quase heroica, roubando o filme por alguns minutos na pele de um caubói sexualmente ostensivo, casado com a irmã de Rusty e plenamente consciente do estrago que provoca ao simplesmente existir em cena. A sequência é vulgar, claro, mas há nela uma espécie de inteligência pândega: a família Griswold, que já era um laboratório do constrangimento, encontra ali uma versão ainda mais grotesca da prosperidade doméstica americana, com cavalos, armas, músculos e uma felicidade tão fabricada quanto qualquer comercial de margarina texana.

O problema é que Daley e Goldstein nem sempre sabem quando parar. A comédia escatológica, quando funciona, precisa de precisão cirúrgica; aqui, muitas vezes, vem aos borbotões, como se o excesso pudesse compensar a irregularidade. A visita aos quatro cantos, a briga entre famílias, o encontro com o caminhoneiro misterioso vivido por Norman Reedus, a participação de Charlie Day como guia de rafting: tudo isso produz risos em graus variados, mas também revela a ansiedade do filme em provar que não é apenas uma continuação nostálgica. Essa pressa por ser irreverente acaba tirando algum peso da jornada. O primeiro “Férias Frustradas” era cruel porque deixava Clark afundar em sua fantasia de pai exemplar; este prefere atirar seus personagens de uma situação absurda para outra antes que qualquer mal-estar amadureça.

Ainda assim, seria injusto negar que o longa tem energia. A aparição de Chevy Chase e Beverly D’Angelo, já como relíquias de um tempo em que as comédias podiam ser mais displicentes sem pedir desculpas por isso, dá ao filme um lampejo melancólico. Clark e Ellen surgem menos como personagens que como fantasmas de uma tradição, lembrando a Rusty — e ao público — que toda geração acredita estar inventando seus próprios vexames, quando apenas troca o modelo do carro e a intensidade da grosseria. “Férias Frustradas” não alcança a insolência do original, tampouco reinventa a comédia de viagem em família, mas tem bons momentos de demência controlada e uma percepção nada desprezível de que o amor familiar, nos Estados Unidos ou fora deles, muitas vezes se confunde com a capacidade de sobreviver ao outro dentro de um veículo fechado. A viagem é irregular, o humor às vezes atropela a si mesmo, mas os Griswold continuam chegando ao destino por pura teimosia. No fundo, talvez nunca tenha havido outro motivo.


Filme: Férias Frustradas
Diretor: John Francis Daley e Jonathan Goldstein
Ano: 2015
Gênero: Comédia
Avaliação: 4/5 1 1
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