Dona de uma das carreiras mais respeitadas do cinema, Emma Thompson passa do drama à comédia sem dificuldade, talvez por causa daquele sorriso charmosamente irregular coroado por olhos azuis que vêm ficando serenos e misteriosos com a maturidade. Thompson vai atrás dos personagens que merecem ganhar vida, e transcende sua vocação artística para materializá-los, como se atesta em “O Frio da Morte”, um trabalho de fôlego, metafórica e literalmente. Por quase cem minutos, sua Barb Sørengen enfrenta um inverno excepcionalmente rigoroso em Minnesota, na fronteira dos Estados Unidos com o Canadá, dirigindo uma caminhonete velha, e quando se achega de seu objetivo, o chão se abre sob seus pés.
Melodrama com tensão
Thompson está sozinha na maior parte do tempo, e o diretor Brian Kirk sabe o que isso pode significar. Aos poucos, o texto de Nicholas Jacobson-Larson e Dalton Leeb revela detalhes que esclarecem o porquê de tanta solidão: Barb ficou viúva há alguns meses, e quer lançar as cinzas de Karl num certo lago Hilda, enquanto aproveita a viagem para relembrar seus bons momentos com o marido. Essas memórias são exibidas em flashbacks dinâmicos nos quais Gaia Wise e Cúán Hosty-Blaney assumem a versão jovem do casal, em cenas que prestam-se a enganar o público. Como se oculta sob o gelo dessa alma partida, está a tragédia de uma maternidade frustrada, ideia que Kirk desdobra no instante em que Barb encontra um homem de barba grisalha e hirsuta numa jaqueta camuflada e pensa que deve temê-lo, sem saber que perigosa de verdade é sua esposa, que os créditos identificam como a Mulher de Roxo. O andamento melodramático da narrativa ganha ritmo com essas figuras sombrias, meio repugnantes, e Marc Menchaca e Judy Greer são a sujeira que justifica a anti-heroína estoica de Thompson. O filme é deles também.

