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Há vitórias que o placar não sabe registrar. O esporte, no cinema americano, quase sempre serviu para organizar sonhos de grandeza, disciplinar corpos, fabricar heróis de peito aberto e mandíbula cerrada; mas “Rocky, um Lutador” prefere começar num lugar mais baixo, mais feio, menos interessado em glória. Antes de ser adversário de Apollo Creed, Rocky Balboa é um homem que atravessa a Filadélfia como quem pede licença ao mundo, ganhando trocados em ringues pequenos, cobrando dívidas para um agiota e voltando para casa com o rosto marcado, o casaco surrado e a ternura meio escondida sob a fala pastosa de quem aprendeu a apanhar antes de aprender a pedir qualquer coisa.

John G. Avildsen não trata Rocky como um escolhido. Esse é o grande acerto do filme escrito por Sylvester Stallone, que também se encarrega de dar ao personagem uma humanidade quase constrangedora. Rocky é um pugilista medíocre, sim, mas a palavra não basta. Ele é medíocre porque o mundo o empurrou para uma vida miúda, porque ninguém espera muito dele, porque talvez ele mesmo já tenha desistido de esperar. Mora sozinho, conversa com tartarugas, tenta parecer mais duro do que é, visita a loja de animais onde trabalha Adrian, a moça tímida de Talia Shire, e insiste num flerte que poderia soar incômodo se Stallone não deixasse tão claro que aquele homem, no fundo, não sabe se aproximar de ninguém sem tropeçar em si mesmo.

A entrada de Apollo Creed, vivido por Carl Weathers com brilho, vaidade e uma alegria quase cruel, muda a escala da história. O campeão mundial dos pesos-pesados precisa de um adversário depois que seu oponente se machuca, e decide transformar a luta num espetáculo patriótico: dará chance a um desconhecido, um “garanhão italiano”, como se pudesse embrulhar a miséria alheia em papel de presente e vendê-la ao público. Apollo não escolhe Rocky por respeito; escolhe porque o nome soa bem no cartaz. A partir daí, o filme cresce sem perder de vista sua origem: cada corrida pelas ruas pobres, cada soco nos pedaços de carne pendurados no frigorífico, cada subida na escadaria do Museu de Arte da Filadélfia carrega menos a promessa do triunfo que a necessidade de provar existência.

A direção de Avildsen tem uma limpidez rara. Ele poderia fazer do treinamento um desfile de superação fácil, mas prefere observar o corpo pesado de Rocky adquirindo ritmo, a respiração encontrando alguma ordem, a cidade deixando de ser só cenário para virar extensão daquela luta íntima. A fotografia de James Crabe ajuda muito nesse efeito, com uma Filadélfia fria, de esquinas duras, bares pobres, apartamentos apertados e manhãs cinzentas. Nada ali parece feito para consagrar ninguém. Por isso a célebre música de Bill Conti funciona tão bem: ela não entra apenas para inflamar o espectador, mas para arrancar daquele homem uma dignidade que estava soterrada sob anos de resignação.

Ao redor de Rocky, os coadjuvantes nunca são enfeites. Paulie, interpretado por Burt Young, é uma figura áspera, ressentida, às vezes insuportável, que ama mal porque não sabe fazer melhor. Mickey, o treinador de Burgess Meredith, surge primeiro como um velho amargo, quase abusivo, e depois como alguém que enxerga em Rocky a última oportunidade de também escapar do esquecimento. Adrian, por sua vez, é o coração silencioso do filme. Talia Shire não interpreta uma musa à espera do campeão, mas uma mulher encolhida pela vida, que aos poucos descobre na companhia de Rocky um espaço para falar, desejar, contrariar o irmão, existir sem pedir desculpas. O romance dos dois é desajeitado, e justamente por isso convence.

“Rocky” tem a inteligência de saber que sua luta final não depende da surpresa. Pouco importa se Apollo cairá ou não. O que está em jogo é outra coisa: Rocky quer permanecer de pé até o último gongo, sair do ringue sem ter sido apagado, provar para si mesmo que não é apenas mais um corpo útil para apanhar enquanto outros lucram. A violência do combate, filmada com intensidade mas sem sadismo, transforma o espetáculo publicitário de Creed num confronto moral. O campeão continua magnífico, mas percebe tarde demais que aquele desconhecido levou para o ringue uma fome que não cabia no roteiro da festa.

Mais que um filme sobre boxe, “Rocky, um Lutador” é uma crônica sobre gente pequena tentando arrancar alguma grandeza do pouco que recebeu. Stallone, ainda longe da caricatura muscular que o tempo lhe pregaria, oferece aqui uma atuação de rara vulnerabilidade: seus ombros caídos, seus olhos mansos, sua fala hesitante e seu jeito de ocupar os lugares como se sempre estivesse sobrando fazem de Rocky um herói improvável, e por isso mesmo inesquecível. No fim, quando ele chama por Adrian em meio ao tumulto, o cinema americano encontra uma de suas imagens mais simples e mais justas: um homem derrotado no resultado oficial, mas salvo por ter descoberto, enfim, que podia resistir.


Filme: Rocky, um Lutador
Diretor: John G. Avildsen
Ano: 1976
Gênero: Drama
Avaliação: 4.5/5 1 1
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