Lançado em 2020, “Emma” leva o público à pequena Highbury, na Inglaterra do começo do século 19, para acompanhar uma jovem rica, esperta e muito convencida de que sabe organizar a vida amorosa dos outros melhor do que eles mesmos. Dirigido por Autumn de Wilde e inspirado no romance de Jane Austen, o filme acompanha Emma Woodhouse (Anya Taylor-Joy), uma herdeira bonita, mimada e inteligente, que tenta brincar de casamenteira em sua comunidade. O problema é que, quando se mexe com sentimentos, orgulho e posição social, até uma conversa educada durante o chá pode virar uma pequena catástrofe.
Emma Woodhouse (Anya Taylor-Joy) vive em Hartfield com o pai, Mr. Woodhouse (Bill Nighy), um homem afetuoso, excêntrico e assustado com quase qualquer mudança de temperatura, cardápio ou rotina. Rica, respeitada e sem grandes preocupações materiais, Emma ocupa um lugar confortável em Highbury, uma comunidade onde visitas, bailes, cartas e convites dizem muito mais do que parecem. Ela não precisa trabalhar, não precisa correr atrás de casamento e, por isso mesmo, acha que pode dedicar seu tempo a organizar o destino sentimental dos outros.
O filme começa quando Emma celebra o casamento de sua antiga governanta, Miss Taylor, agora Mrs. Weston (Gemma Whelan), e toma o enlace como uma espécie de vitória pessoal. Para ela, aquela união não aconteceu apenas porque duas pessoas se aproximaram, mas também porque sua interferência ajudou a empurrar a história na direção certa. É aí que mora o perigo. Emma passa a acreditar que possui talento especial para perceber combinações amorosas, embora sua experiência venha mais do privilégio do que da sabedoria.
George Knightley (Johnny Flynn), amigo da família e uma das poucas pessoas capazes de contrariá-la sem rodeios, observa essa confiança com certa impaciência. Ele gosta de Emma, conhece sua inteligência e também reconhece sua tendência a mandar na vida alheia com a delicadeza de quem arruma flores num vaso. A relação entre os dois ganha força justamente por esse atrito. Knightley não se deslumbra com a posição social da protagonista e costuma enxergar, antes dela, o estrago que uma opinião mal colocada pode causar.
Harriet vira projeto social
A chegada de Harriet Smith (Mia Goth) ao círculo de Emma dá novo fôlego à fantasia de controle da protagonista. Harriet é doce, insegura e não possui a mesma posição das famílias mais influentes de Highbury. Emma enxerga nela uma jovem que poderia subir alguns degraus sociais, desde que fosse orientada da maneira correta. A partir desse ponto, a amizade entre as duas ganha um desequilíbrio curioso. Harriet admira Emma, enquanto Emma passa a tratar Harriet como um projeto pessoal.
Quando Robert Martin (Connor Swindells), um fazendeiro honesto e interessado em Harriet, demonstra afeto pela moça, Emma interfere com a convicção de quem acredita estar prestando um favor. Para ela, Harriet poderia aspirar a algo mais elegante, mais refinado e, sobretudo, mais compatível com os planos que a própria Emma inventou. A recusa a Robert Martin deixa Harriet vulnerável a expectativas que talvez nunca fossem dela. O gesto também revela a crueldade involuntária da protagonista, que confunde cuidado com vaidade.
Essa parte do enredo é essencial porque deixa “Emma” mais do que uma comédia de salão. O filme tem graça, sim, mas sua graça vem do constrangimento. Emma comenta, interpreta olhares, sugere intenções e distribui conselhos com uma segurança quase absurda. O público ri porque reconhece o perigo de alguém muito inteligente, muito jovem e muito protegida usando talento social sem maturidade emocional. Em Highbury, uma frase dita na hora errada pode custar um convite, uma amizade ou uma chance de casamento.
O reverendo e os enganos
Mr. Elton (Josh O’Connor), o reverendo local, entra na história como mais uma peça do jogo imaginado por Emma. Ela acredita que ele seria uma boa opção para Harriet e passa a ler cada gentileza do homem como sinal de interesse pela amiga. O problema é que Mr. Elton tem ambições próprias e mira mais alto. A confusão, quando se revela, desmonta a segurança de Emma e coloca Harriet em uma situação dolorosa, pois a jovem havia sido encorajada a sonhar com algo que nunca esteve realmente ao seu alcance.
Autumn de Wilde filma esse universo com uma elegância quase teatral, mas sem deixar que a beleza engula o comportamento dos personagens. As casas, os jardins, os vestidos e os salões criam uma superfície impecável, enquanto por baixo dela circulam ciúme, desejo, cálculo social e medo de humilhação. A direção usa a aparência arrumada de Highbury para ressaltar o ridículo das pequenas disputas. Tudo é bonito demais para tanta bobagem humana, e talvez por isso a bobagem fique tão divertida.
Bill Nighy, como Mr. Woodhouse, oferece alguns dos momentos mais leves do filme. O pai de Emma vive preocupado com correntes de ar, doenças, comida pesada e qualquer alteração na paz doméstica. Sua fragilidade tem graça, mas também explica parte do confinamento emocional da filha. Emma permanece presa a Hartfield não por falta de liberdade material, e sim porque a casa exige sua presença. Ela ocupa o tempo interferindo nos romances alheios porque sua própria vida parece suspensa numa rotina confortável e estreita.
Frank, Jane e o desconforto
A entrada de Frank Churchill (Callum Turner) aumenta a movimentação em Highbury. Charmoso, esperado por todos e cercado de comentários antes mesmo de aparecer, ele desperta curiosidade em Emma e anima a comunidade. Ao mesmo tempo, Jane Fairfax (Amber Anderson), reservada, educada e talentosa, provoca na protagonista uma irritação difícil de admitir. Jane possui qualidades que Emma reconhece, mas não gosta de reconhecer. A comparação entre as duas expõe uma insegurança que a protagonista tenta esconder sob frases espirituosas e gestos elegantes.
Os encontros públicos, especialmente bailes e reuniões sociais, tornam os enganos mais visíveis. Em um ambiente onde todos observam todos, a escolha de um par, a demora de uma visita ou o tom de uma conversa podem ganhar proporções enormes. O filme aproveita esse código social para transformar acontecimentos simples em pequenas crises de reputação. Ninguém precisa levantar a voz para que algo fique constrangedor. Às vezes, basta um sorriso interpretado da maneira errada.
Nesse ponto, “Emma” revela seu equilíbrio entre romance, comédia e crítica de costumes. O romance cresce sem pressa, ancorado nas conversas entre Emma e Knightley, que têm afeto, irritação e uma intimidade construída antes do desejo. A comédia nasce das ilusões da protagonista, dos sustos de Mr. Woodhouse e das entradas desastrosas de personagens que tentam parecer mais sofisticados do que são. Já a crítica social surge no modo como dinheiro, origem familiar e reputação definem quem pode sonhar sem pagar um preço alto.
O charme do erro
Anya Taylor-Joy faz de Emma uma personagem adorável e irritante na medida certa. Sua Emma pode ser generosa, espirituosa e encantadora, mas também arrogante, intrometida e cega para as feridas que provoca. A atriz não tenta suavizar demais essas falhas, o que torna a personagem mais interessante. Emma erra porque sempre pôde falar mais alto dentro de seu pequeno mundo. Quando suas escolhas começam a machucar Harriet, ela precisa lidar com uma responsabilidade que dinheiro nenhum consegue varrer para debaixo do tapete.
Johnny Flynn, por sua vez, dá a Knightley uma mistura de firmeza e vulnerabilidade que impede o personagem de virar apenas o juiz moral da história. Ele repreende Emma quando considera necessário, mas também se deixa afetar por ela. Essa ambiguidade sustenta boa parte do romance. O interesse entre os dois não nasce de encantamento súbito, e sim de convivência, irritação e reconhecimento mútuo. Poucos casais de Austen são tão bons em discordar antes de admitir qualquer ternura.
“Emma” trata o amadurecimento da protagonista sem pressa e sem sermão. Autumn de Wilde preserva o prazer da comédia, a beleza dos cenários e o brilho dos figurinos, mas mantém o olhar atento para o que está em jogo. Emma precisa aprender que inteligência sem escuta vira capricho, e que boas intenções podem ferir quando partem de alguém acostumado a mandar. O filme termina deixando a sensação de que, em Highbury, até o amor precisa passar pela prova mais difícil de todas, que é permitir que o outro escolha por si.

