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A máquina do crime gosta de fingir que tem códigos. Há sempre uma palavra pomposa para encobrir o serviço sujo, uma estrutura clandestina que se imagina acima da polícia, acima da política e, não raro, acima da própria ideia de humanidade. “O Coletivo” nasce dessa fantasia já bastante rodada: homens e mulheres de mira certeira, passado nebuloso e convicções negociáveis decidem enfrentar monstros piores que eles, como se a violência, quando bem endereçada, pudesse passar por uma forma aceitável de justiça.

Tom DeNucci conduz a história de Sam Alexander, vivido por Lucas Till, um novato convocado por uma organização de assassinos profissionais para uma missão que logo se revela maior que seu treinamento e menor que suas hesitações morais. O alvo é uma rede de tráfico de seres humanos protegida por uma família de bilionários intocáveis, gente que atravessa a vida como quem nunca precisou pedir licença a ninguém. A premissa promete um thriller de ação sobre poder, dinheiro e corpos descartáveis, mas o longa prefere quase sempre o atalho da pose: armas apontadas, corredores escuros, frases de efeito e personagens que parecem mais preocupados em sustentar uma silhueta ameaçadora do que em existir de fato.

Sam é o elemento mais vulnerável desse tabuleiro, e por isso mesmo deveria ser também o mais interessante. Lucas Till tenta imprimir ao rapaz uma indecisão que o diferencie dos matadores veteranos, mas o roteiro de Matthew Rogers e Jason James não lhe oferece muita coisa além da função de aluno em prova final. Ele precisa provar que pertence ao grupo, precisa agir contra seus próprios valores, precisa entender que algumas batalhas não permitem mãos limpas. Tudo isso, no papel, poderia render um bom conflito interno. Na tela, porém, essa crise aparece mais anunciada que sentida, como se o filme tivesse pressa demais para empurrá-lo à próxima sequência de confronto.

Ruby Rose, com sua presença seca e quase sempre eficiente em papéis de combate, surge como uma figura que combina melhor com o universo de “O Coletivo” do que o próprio protagonista. Ela tem o tipo físico e a frieza cênica que esse cinema pede, mas também fica presa a um desenho estreito, desses que confundem economia dramática com ausência de vida. Don Johnson, por sua vez, traz ao elenco uma autoridade automática, uma lembrança de outros thrillers, de outra televisão, de um tempo em que personagens duros ainda podiam parecer feitos de carne, ironia e cansaço. Aqui, sua presença ajuda, mas não resolve a sensação de que todos circulam por um filme que acredita mais no impacto imediato de sua superfície do que na força de seus dilemas.

Há bons instantes quando DeNucci aceita a natureza direta do material. “O Coletivo” funciona melhor quando para de querer parecer grave e assume a energia de produção enxuta, violenta, quase descartável, feita para entregar uma missão, alguns embates e uma conspiração suficientemente repulsiva para justificar a carnificina. O problema é que o tema do tráfico humano exige uma gravidade que o filme não consegue carregar. A família de bilionários surge como encarnação genérica do mal absoluto, e a denúncia social, em vez de contaminar a ação com indignação verdadeira, vira combustível narrativo, uma senha para que os tiros pareçam moralmente autorizados.

Mesmo com apenas noventa minutos, o longa às vezes parece lutar contra a própria falta de imaginação. Falta-lhe a elegância cruel de um bom thriller criminal, falta-lhe a inventividade física dos melhores filmes de ação de baixo orçamento, falta-lhe principalmente um protagonista cuja transformação deixe alguma marca. Sam Alexander atravessa a história como quem recebe uma lição amarga, mas o espectador sai com a impressão de que viu apenas o resumo dessa lição, não sua ferida.

“O Coletivo” não é exatamente um fracasso; é um filme funcional, áspero quando precisa, suficientemente movimentado para não se desmanchar por completo. Mas sua promessa é maior que sua entrega. No fim, fica a imagem de um grupo de assassinos tentando salvar inocentes enquanto o próprio filme tenta salvar uma ideia boa de uma execução sem grande surpresa. A missão termina; o incômodo, não. E talvez aí esteja, por acidente, sua verdade mais dura.


Filme: O Coletivo
Diretor: Tom DeNucci
Ano: 2024
Gênero: Ação/Suspense
Avaliação: 3/5 1 1
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