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Em Los Angeles, em novembro de 2019, Rick Deckard (Harrison Ford) é chamado de volta ao trabalho porque quatro replicantes Nexus 6 chegaram à Terra depois de um motim em uma colônia fora do planeta. Eles foram criados pela Tyrell Corporation para tarefas perigosas, mas agora são considerados ilegais entre os humanos. A polícia quer que Deckard faça o serviço que os blade runners chamam de “aposentar”, uma palavra fria para eliminar seres artificiais que parecem, falam, sofrem e desejam quase tudo o que qualquer pessoa desejaria. Dirigido por Ridley Scott e lançado em 1982, “Blade Runner: O Caçador de Androides” acompanha essa perseguição como uma investigação policial em meio a chuva, neon, prédios sufocantes e uma pergunta incômoda sobre quem tem autorização para decidir o valor de uma vida.

A missão começa quando o capitão Bryant (M. Emmet Walsh) retira Deckard de sua rotina e o empurra de volta para uma função que ele já havia deixado. Deckard não retorna por vocação, muito menos por entusiasmo. Ele volta porque a polícia precisa dele, porque os replicantes representam um risco para a ordem da cidade e porque a Tyrell Corporation, dona da tecnologia que criou esses seres, está perto demais do problema para parecer inocente. O agente Gaff (Edward James Olmos), sempre presente com seus olhares e pequenos gestos calculados, reforça a sensação de que Deckard também está sendo observado enquanto observa os outros.

A pista dentro da corporação

O primeiro fio da investigação passa por Leon Kowalski (Brion James), um dos replicantes fugitivos. Leon tenta se infiltrar na Tyrell Corporation usando a aparência de um funcionário comum, mas a tentativa desanda quando ele é submetido a um teste destinado a distinguir humanos de replicantes. A cena estabelece a regra cruel daquele mundo. A identidade deixou de ser algo íntimo e virou um procedimento aplicado por uma autoridade. Se a resposta não convence, a pessoa perde o direito de seguir em circulação.

Deckard segue os vestígios deixados por Leon e entra em um caso que depende de detalhes pequenos, quase burocráticos. Uma fotografia, um endereço, uma pergunta feita na hora errada, tudo passa a ter valor. Ridley Scott trabalha essa investigação sem pressa, deixando a cidade pesar sobre cada passo. A Los Angeles de “Blade Runner: O Caçador de Androides” não parece feita para acolher ninguém. É uma cidade úmida, escura, cheia de anúncios luminosos e apartamentos fechados, onde até uma refeição simples pode parecer um intervalo antes da próxima ameaça.

Rachael muda o peso da missão

A caçada ganha outra camada quando Deckard conhece Rachael (Sean Young), assistente de Eldon Tyrell (Joe Turkel), o criador dos replicantes. Rachael vive dentro da Tyrell Corporation e acredita ser humana, até que o teste aplicado por Deckard coloca essa certeza em risco. Ela não se comporta como uma fugitiva. Não corre pelas ruas nem ameaça a polícia. Seu drama nasce de algo mais delicado. As memórias que sustentam sua identidade podem ter sido implantadas para torná-la mais obediente e mais fácil de controlar.

Sean Young dá a Rachael uma mistura de elegância e desamparo que torna o dilema de Deckard mais difícil. Ele foi chamado para caçar replicantes, mas passa a lidar com alguém que não sabe ser alvo. O vínculo entre os dois não surge como romance confortável. Surge como problema. Deckard precisa cumprir uma ordem, mas Rachael o obriga a olhar para a palavra “aposentar” sem o verniz policial. Quando a vítima tem rosto, voz e lembranças, a tarefa perde a limpeza de relatório.

Roy Batty busca seu criador

Do outro lado da investigação está Roy Batty (Rutger Hauer), líder do grupo de replicantes. Ele retorna à Terra com Pris (Daryl Hannah), Zhora (Joanna Cassidy) e Leon porque quer chegar a Tyrell. O motivo é simples e terrível. Os Nexus 6 têm uma vida curta, marcada por um prazo de validade que eles não escolheram. Roy não quer apenas fugir da polícia. Ele quer cobrar uma resposta de quem o fabricou, e essa busca faz dele uma figura perigosa e triste ao mesmo tempo.

Rutger Hauer transforma Roy em alguém muito mais interessante do que um vilão de ficção científica. Ele tem força física, inteligência e uma presença quase teatral, mas sua urgência vem do medo de acabar. Pris, por sua vez, usa fragilidade e sedução para se aproximar de J.F. Sebastian (William Sanderson), um funcionário ligado à Tyrell Corporation. Sebastian vive isolado, cercado por criações estranhas, e sua solidão abre uma passagem que a segurança da empresa talvez não permitisse. O roteiro costura essa aproximação com cuidado, sem tirar de Roy a ameaça nem apagar sua condição de criatura abandonada pelo próprio criador.

Uma ficção policial sobre identidade

“Blade Runner: O Caçador de Androides” funciona tão bem porque trata sua ficção científica como uma apuração urbana. Deckard não atravessa a história com frases heroicas ou grandes certezas. Ele segue pistas, entra em lugares suspeitos, encara pessoas que podem matá-lo e descobre que sua função tem mais rachaduras do que parecia. A ação existe, mas vem sempre ligada a uma decisão concreta. Entrar em um prédio, seguir uma mulher, interrogar uma lembrança, aceitar ajuda de Rachael. Cada gesto muda o risco da caçada.

A direção de Ridley Scott também ajuda a tornar o enredo mais denso sem deixar a história desaparecer sob a estética. A chuva constante, os corredores apertados, as luzes de propaganda e os ambientes esfumaçados não estão ali apenas para enfeitar. Eles fazem a investigação parecer mais difícil, mais lenta, mais contaminada. O espectador precisa procurar informações junto com Deckard, muitas vezes sem saber se pode confiar no que vê. Essa escolha dá ao filme um charme raro, desses que envelhecem melhor do que muito efeito especial cheio de pose.

Há ainda uma ironia amarga em toda essa operação. Os humanos criaram os replicantes para trabalhos arriscados, proibiram sua presença na Terra e depois montaram uma força policial para apagá-los quando eles voltam em busca de respostas. Convenhamos, é uma burocracia bastante eficiente para produzir culpa e depois terceirizar o incômodo. O humor, quando aparece, vem desse absurdo seco, nunca de piadas abertas. A cidade inteira parece ocupada demais vendendo futuro para perceber o estrago do presente.

“Blade Runner: O Caçador de Androides” é poderoso porque faz o público acompanhar uma perseguição e, pouco a pouco, desconfiar dela. Deckard começa como agente convocado para resolver um problema de segurança. Rachael surge como assistente elegante de uma corporação poderosa. Roy aparece como ameaça em fuga. Aos poucos, cada um perde a etiqueta que recebeu no começo, e a investigação passa a expor uma cidade onde a diferença entre criar, usar e descartar ficou perigosa demais. Quando Deckard precisa escolher seu próximo passo, a caçada já cobrou mais do que a polícia havia informado.


Filme: Blade Runner: O Caçador de Androides
Diretor: Ridley Scott
Ano: 1982
Gênero: Ação/Drama/Ficção Científica
Avaliação: 5/5 1 1
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