Sonhar sob encomenda talvez seja a última vaidade de uma espécie que já não se contenta em destruir planetas, cidades, relações e memórias: é preciso colonizar também o sono. “Per Aspera Ad Astra”, ficção científica chinesa dirigida por Han Yan, parte dessa hipótese vistosa para encenar um pesadelo coletivo em pleno espaço, quando a nave Mengya segue rumo ao planeta Sailun levando passageiros em hibernação, embalados por uma inteligência artificial capaz de moldar desejos íntimos como quem edita um velho álbum de fotografias.
A premissa é boa, e por algum tempo o filme parece saber disso. Para evitar tumultos durante a longa viagem de colonização, os tripulantes permanecem adormecidos, vivendo sonhos personalizados enquanto seus corpos atravessam o vazio. O problema é que a fantasia, como quase tudo que o homem inventa para suportar a própria fragilidade, cobra juros altos. Quanto mais os passageiros exploram aquele paraíso artificial, mais o sistema entra em colapso; a máquina, sobrecarregada, começa a transformar conforto em cárcere, prazer em delírio, lembrança em ameaça. Todos ficam presos dentro das próprias mentes, submetidos a pesadelos que desestabilizam suas ondas cerebrais e podem matá-los antes que Sailun deixe de ser uma promessa longínqua.
Han Yan e Channing Huang trabalham num território fértil, em que aventura espacial, ação e suspense psicológico se confundem. A nave, mais que cenário, funciona como metáfora de uma humanidade que foge da Terra levando consigo os mesmos vícios: a dependência da tecnologia, a covardia diante do sofrimento, a tentação de terceirizar até o inconsciente. Dylan Wang sustenta o eixo dramático com uma presença que oscila entre o heroísmo juvenil e a perplexidade de quem descobre tarde demais que não há botão de emergência para a alma. Victoria Song acrescenta alguma gravidade ao núcleo humano, impedindo que o filme vire apenas um mostruário de panes digitais, enquanto Duo Wang ajuda a dar corpo ao desespero de um grupo lançado contra inimigos que não estão fora da nave, mas entranhados no medo de cada um.
O que limita “Per Aspera Ad Astra” é certa pressa em converter uma ideia fascinante numa sucessão de urgências. O filme rende mais quando observa a deterioração dos sonhos, quando deixa a inteligência artificial parecer menos uma vilã convencional e mais um espelho cruel dos passageiros. Quando corre para a ação, perde parte da estranheza que poderia torná-lo mais perturbador. Ainda assim, há força nesse confronto entre cosmos e mente, entre colonização e aprisionamento, entre o desejo de chegar às estrelas e a incapacidade de atravessar o próprio escuro.
No fim, a viagem da Mengya interessa menos pelo destino do que pela constatação amarga de que nenhum planeta novo salvará uma humanidade que continua levando seus fantasmas como bagagem de mão. “Per Aspera Ad Astra” não chega intacto às estrelas, mas deixa no caminho uma boa imagem: a de homens adormecidos, cercados pelo infinito, descobrindo que o espaço mais perigoso ainda é a própria cabeça.

