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Em 1960, a escritora italiana Natalia Ginzburg escreveu o texto “As pequenas virtudes”. Contra o pensamento de tudo e todos, ela recomendou que devemos, na verdade, ensinar apenas as “grandes virtudes” aos filhos: generosidade e indiferença pelo dinheiro; coragem e desdém pelo perigo; franqueza e amor à verdade; amor ao próximo e abnegação; e desejo de ser e saber. Mais que autoajuda, as ideias de Natalia se aproximam do que um filósofo de hoje chamou de “defesa das causas perdidas”.

“As grandes virtudes, essas não se respiram no ar: e devem ser a primeira substância da relação com nossos filhos, o primeiro fundamento da educação. Além disso, o grande também pode conter o pequeno: mas o pequeno jamais pode conter o grande”, diz a autora, que nasceu em 1916 e morreu em 1991. Para ela, virtude maior é não dar a importância que as pessoas dão ao dinheiro. “Ser sóbrio consigo mesmo e generoso com os outros: isto significa ter uma relação justa com o dinheiro, estarmos livres diante do dinheiro.”

Natalia teve cinco filhos, em dois casamentos. O primeiro marido foi o professor Leone Ginzburg, um russo que traduziu “Ana Karenina”, de Tolstoi, para o italiano, e foi morto sob tortura pelos nazistas numa prisão de Roma. O filho mais velho, Carlo, tinha cinco anos quando o pai morreu pelo fato de ser judeu. Talvez Natalia não imaginasse que sua própria família se transformaria numa demonstração involuntária dessa ideia de pequenas virtudes que se tornam grandes obras ou feitos.

Um dos resultados dessa história de Natalia foi seu filho, Carlo Ginzburg, morto em 16 de junho de 2026. Outro foi sua neta, Lisa Ginzburg, que vem se firmando como uma grande escritora de ficção, com os romances “Cara Paz” e “Uma Pluma Escondidas”, ambos já lançados no Brasil. Há nessa família uma relação especial com as palavras, o cuidado extremo com a delicadeza da escrita e a força dos significados. Uma capacidade de transformar pequenas observações em obras capazes de atravessar o tempo.

Desde os anos 1960, Carlo abriu um caminho próprio dentro da historiografia. Fez da história uma disciplina para interessar também ao grande público. Seus livros circularam muito além das universidades. A explicação talvez esteja em duas qualidades que aparecem juntas em sua obra: a escrita cuidadosa e a pesquisa minuciosa. O segredo de Carlo estava justamente na minúcia.

“Minha mãe, que foi uma figura crucial em minha formação geral e intelectual, lia e comentava muito do que escrevia, e sinto que me dirijo a ela quando escrevo para um maior público, não profissional. Ela — que foi casada duas vezes com acadêmicos — era fundamentalmente uma romancista e não se impressionava nem se importava com o universo acadêmico. De qualquer modo, o ato de escrever, no meu entender, é algo que está profundamente relacionado ao ato de comunicar algo a alguém”, disse Carlo numa entrevista a Maria Lúcia Pallares-Burke.

Busca pelo detalhe

Em um de seus trabalhos mais influentes, Carlo formulou aquilo que chamou de “paradigma indiciário”. O historiador aparece ali como uma espécie de investigador, não muito diferente de alguém encarregado de desvendar um crime. A verdade não surge dos grandes acontecimentos nem das evidências mais visíveis. Ela aparece num detalhe insignificante, numa pista aparentemente irrelevante, em algo que passou despercebido pela maioria das pessoas, sobretudo dos leitores e leitoras.

O Queijo e os Vermes
O Queijo e os Vermes, de Carlo Ginzburg (tradução de Maria Betânia Amoroso, Companhia de Bolso, 309 páginas)

Carlo construiu boa parte de sua obra a partir dessa ideia. Não olhar apenas para aquilo que está no centro da cena, mas para aquilo que permanece nas bordas. É como se estivéssemos diante de um quadro. A maioria das pessoas observa o que está no meio da situação representada na tela da obra. Carlo, no entanto, preferia examinar as margens. Não porque o centro fosse irrelevante, mas porque os detalhes esquecidos nas bordas podem revelar aspectos decisivos da imagem.

O método de Ginzburg lembra muito a lógica presente no conto “A carta roubada”, de Edgar Allan Poe. O objeto procurado não estava escondido em lugar algum difícil de achar. Estava visível o tempo inteiro. A mesma perspectiva também repercutiria depois no famoso ensaio de Jacques Lacan sobre a narrativa de Poe. A questão central nunca está necessariamente oculta. Muitas vezes, ela apenas deixou de chamar atenção ao primeiro olhar. Carlo transformou essa percepção em método histórico.

Foi também por isso que Carlo Ginzburg se associou ao movimento conhecido como micro-história. O objetivo dessa corrente de historiadores não era reduzir a escala dos acontecimentos a seres, coisas e pessoas insignificantes. Era justamente o contrário. Investigar pequenas histórias, personagens obscuros, relatos esquecidos e situações aparentemente marginais para compreender estruturas maiores. A micro-história servia, sim, para explicar macroestruturas.

Um dos trabalhos mais conhecidos de Carlo foi o livro “O Queijo e os Vermes”. A investigação acompanha a trajetória de Menocchio, um italiano do século 16 que desenvolveu uma cosmogonia própria para explicar a origem e o funcionamento do mundo. Sua explicação envolvia justamente a relação entre o queijo e os vermes como uma representação das formas de vida no planeta. Mas, por causa dessas ideias, acabou perseguido pela Inquisição e julgado. Ficaram os registros do julgamento.

Liberdade de pensar

O caso de Menocchio abre questões muito mais amplas para os leitores e leitoras de hoje. Trata de temas como a liberdade de expressão e de pensamento (algo tão usurpado pela extrema-direita contemporânea no século 21), os limites impostos pelo poder constituído, a sobrevivência de ideias dissidentes. A partir de um único personagem, Carlo Ginzburg alcançou problemas que existem em diversas culturas da modernidade. Talvez não seja coincidência que esses temas tenham ocupado sua atenção.

Carlo aborda a perseguição, a heresia, a bruxaria, a Inquisição e formas marginais de pensamento que apareceram repetidamente em seus trabalhos. Há nisso também uma dimensão italiana. O fascismo dos anos 1930 (o trauma da morte do pai) e o reaparecimento de seus fantasmas na década de 1970 formavam parte do ambiente intelectual em que Carlo desenvolveu suas pesquisas. O que lhe interessava eram justamente as vozes deslocadas, as pequenas manifestações culturais.

Ao mesmo tempo, Carlo dedicou boa parte da sua trajetória a uma pergunta ainda mais ambiciosa: como se escreve a história? Essa investigação o levou para a fronteira entre história e ficção. Qual a diferença entre uma narrativa historiográfica e uma narrativa ficcional? A resposta passava pela ideia de prova. O historiador precisa demonstrar aquilo que afirma. Mas Carlo explorou a imagem poderosa da historiografia como um “espelho distorcido”, o que tornou sua obra muito influente no mundo todo.

“A evidência [a prova para o historiador] não é uma janela aberta à realidade social (como entendem os positivistas), nem uma parede cega que nos impede de olhar para fora, para além da própria evidência (como acreditam os pós-modernistas). Ela mais se assemelha a um espelho distorcido, o que significa dizer que só nos resta descobrir para que lado ele está distorcendo, já que esse é o único meio que temos de ter acesso à realidade”, disse na entrevista a Maria Lúcia Pallares-Burke.

Pensar a vergonha

Nos últimos tempos, Carlo voltou sua atenção para outro tema: o avanço da extrema-direita política. Entre seus textos mais comentados está uma reflexão sobre a vergonha. Ele observava que as nações também são construídas por sentimentos de vergonha. Certos acontecimentos precisam ser lembrados justamente porque provocam vergonha. Essa memória coletiva obriga uma sociedade a reconhecer aquilo que aconteceu e a refletir sobre experiências históricas, como as do nazismo e do fascismo.

Natalia Ginzburg
Natalia Ginzburg, escritora italiana e mãe de Carlo Ginzburg, autora de “As pequenas virtudes”

“Há muitos anos, percebi de repente que o país a que pertencemos não é, como quer a retórica mais corrente, o país que amamos, e sim aquele do qual nos envergonhamos. A vergonha pode ser um vínculo mais forte que o amor. Repetidas vezes testei minha descoberta com amigos de diferentes países: todos reagiram da mesma forma – com surpresa, seguida imediatamente de completa concordância, como se minha sugestão fosse uma verdade evidente por si só”, escreveu no texto “O vínculo da vergonha”.

A vergonha aparece como um sentimento individual e algo que constitui comunidades e nações. Talvez essa preocupação também tenha raízes numa história familiar. Existe quase um propósito nessa trajetória. Uma atenção permanente aos documentos, aos vestígios, às memórias e às histórias que poderiam ser esquecidas. Uma disposição para buscar a delicadeza dos fatos e escolher abordagens inesperadas. A imagem das bordas de um quadro pode ser uma boa forma de resumir a obra de Carlo Ginzburg.

Foi a confiança nos detalhes que transformou sua obra numa referência para historiadores, leitores e escritores. A mãe Natalia escreveu sobre as pequenas virtudes e deixou retratos imprescindíveis de meados do século 20, a era dos extremos. Carlo dedicou a vida às pequenas pistas. E Lisa segue construindo suas histórias a partir das palavras. No fim das contas, talvez a grande herança dos Ginzburg esteja justamente aí: na convicção de que as maiores histórias costumam começar nas bordas e nas aparentes insignificâncias.

Enio Vieira

Jornalista, mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília (UnB) e consultor na área de comunicação.

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