Outro dia, enquanto ensandecia ao volante, escutei “Epitáfio”, uma canção da banda Titãs, tão antiga quanto nariz escorrendo, defecar agachado ou ficar preso em congestionamentos de trânsito. Confesso que já fui um homem mais polido, mais bem-humorado e que já gostei mais dessa balada, cuja letra lastimosa, confessional, descreve um passado pessoal de desacertos, de exageros e, até mesmo, de autonegligência. Versos como “Devia ter amado mais”, “Devia ter trabalhado menos”, “Devia ter aceitado as pessoas como elas são” e por aí vai.
Aumentei o volume do rádio e ouvi com máxima atenção, apesar do calor dantesco, dos ambulantes vendendo até a mãe e das câmeras de última geração monitorando os instantes de fúria do old-fashioned que me tornei. A letra de “Epitáfio”, ao estilo mea culpa, relatava as impressões de um indivíduo obviamente amargurado, frustrado, em certa medida, ao fazer o balanço pessoal das perdas e danos de uma vida repleta de senões. O condicional não apenas se demonstrava imprestável, como ineficiente, tendo em vista que o arrependimento não fazia os ponteiros do relógio rodarem no sentido inverso.
“Epitáfio” fez retumbante sucesso no início dos anos 2000. Naquela época, eu já era um homem boçal, errado, enterrado até os cornos na roda-viva das lides cotidianas, um cidadão empenhado em sustentar a família e atingir o almejado pé-de-meia. Portanto, a letra da canção atingia-me noutra perspectiva, fazendo mais sentido naqueles tempos do que hoje em dia. Dava pra perceber que se tratava do lamento de um poeta e que eu estava no caminho errado. Sérgio Brito, o autor de “Epitáfio”, por meio de confissões tão amargas, alertava sobre os equívocos do mal viver, conclamando os ouvintes a ficarem mais espertos ao fazer uso do próprio tempo e a perceberem a vida nas entrelinhas.
Hoje, “Epitáfio” provoca em mim mais desconforto do que contentamento, pois soa um tanto moralista. Sob a perspectiva do veterano desencantado que me tornei, confesso, até mesmo, certa irritação. Não temos controle de nada, ou melhor, quase nada. Que me perdoe o Sérgio Brito, pois a culpa não é dele. Tenho problemas. Durante a juventude, no auge das saúdes física e mental, com força produtiva nas grimpas, a maior parte das pessoas não possui a sapiência necessária para antever ou para medir, na justa medida, as consequências dos seus atos e escolhas. Vivendo e aprendendo, quase sempre, errando feio e muito.
Ora, como escreveu o filósofo, ninguém sabe nada. Ainda mais um mancebo querendo vencer na vida a todo custo. Mencionar as frustrações pessoais, além de se mostrar inútil àquele ser decadente que já está do-meio-dia-pra-tarde, não repara o tempo perdido. Pelo simples fato de que a vida não aceita borracha. Fico com a eloquência, com a criatividade, com o ímpeto, com o destempero, com o tesão e com a burrice, ou melhor, com a imaturidade dos mais jovens. Nessa altura do campeonato, o sentimento de culpa depreendido a partir dos versos de “Epitáfio” soa desagradável, a despeito de compreender a louvável intenção do autor que, admitindo o mau uso do tempo, alerta os desavisados para não caírem na mesma esparrela, sob a ótica de alguém que mais errou do que acertou e que, agora, entregue aos rugosos, solitários e moribundos braços da maturidade, depara-se com a famigerada sensação de vazio.
Eu tava de saco cheio. Sim. Acho que era só isso. Trânsito parado. Multas. Excesso de seres humanos no meu caminho. Cheguei em casa. Tomei tento. Tomei cerveja. Aguei as flores. Fiz sexo — não fiz amor, mas também não fiz guerra. Não escrevo estas linhas para depreciar a composição do Sérgio. Somos “parças”. “Epitáfio” é uma pérola, uma grande canção. O grande descompasso, na verdade, soy yo. Tanto assim que me peguei afetado de maneiras diversas, antagônicas, ao ouvir esse clássico dos Titãs em diferentes fases da minha vida. Um fenômeno que só a poesia consegue extrair das pessoas, pegando a gente no contrapé da alegria ou na elegância da tristeza, a depender do alinhamento dos astros no universo de ignorância em que estamos enfurnados. Viva a música brasileira! Viva os Titãs! Sérgio, acredite, eu sou seu fã, cara.

