Há crianças que parecem ter vindo ao mundo para lembrar aos adultos que fé, ciência e medo são quase sempre a mesma coisa quando ninguém sabe explicar o que vê. “Destino Especial”, de Jeff Nichols, começa como uma fuga e logo se revela uma oração sem igreja: Roy, vivido por Michael Shannon com aquela secura de homem que ama sem saber pedir licença, arranca o pequeno Alton do Rancho, comunidade religiosa que transformou o menino em profecia ambulante.
Alton, interpretado por Jaeden Martell ainda creditado como Jaeden Lieberher, tem oito anos, óculos de natação, ouvidos cobertos, poderes que o impedem de suportar a luz do dia e uma tristeza antiga demais para seu corpo. Para os fanáticos que o criaram, ele é a promessa de salvação. Para o FBI, um risco de segurança. Para Roy, é apenas o filho que precisa chegar a algum lugar antes que todos o devorem com explicações. Lucas, o amigo vivido por Joel Edgerton, entra nessa travessia como uma lealdade silenciosa, dessas que o cinema americano já quase não sabe filmar sem discursos.
Nichols conduz a perseguição com admirável contenção. Há carros cortando estradas escuras, motéis baratos, sirenes, armas, agentes federais e homens do culto à espreita, mas “Destino Especial” não se entrega ao espetáculo fácil. Sua ficção científica nasce da poeira, da paternidade, do desamparo e de uma América rural onde qualquer clarão pode ser milagre ou catástrofe. Michael Shannon sustenta o filme no maxilar cerrado; fala pouco, sofre muito, e transforma Roy num desses pais que não compreendem o mistério, mas aceitariam ser destruídos por ele.
O problema, quando existe, está justamente na reverência excessiva ao enigma. Nichols protege tanto Alton que por vezes o menino parece menos uma criança que uma chave cósmica, um símbolo a ser transportado de um ponto a outro. Ainda assim, a economia do diretor dá força ao que poderia resvalar no sentimentalismo. Quando a revelação final se impõe, “Destino Especial” não explica tudo — e faz bem. Alguns filhos pertencem aos pais apenas por um tempo; depois, pertencem ao assombro.

