Discover

Em “O Negro Artificial” (1955), Flannery O’Connor (1925-1964) esgrima acerca do inegável preconceito racial no sul dos Estados Unidos recorrendo à linguagem da época. O’Connor ilumina as contradições dos personagens, explicando como o racismo estrutura-se nas sociedades ao redor do mundo, e com saborosa ironia, prova que a ignorância tem muitas caras, penetrando em ambientes os mais diversos, até que tudo esteja perdido de uma vez por todas. Com talento invulgar, Trey Edward Shults emula O’Connor e faz de “As Ondas” um comentário sobre o quão sofisticada pode ser a estultice humana, movendo seus tentáculos sobre uma família orgulhosa de sua felicidade e de sua falsa perfeição, até ser colhida pelo infortúnio.

Bonança e tempestade

Os Williams têm beleza, garra, sucesso e fortuna e decerto inspirariam muitos afro-americanos a conquistar tudo isso — se os conhecessem. Essa é a primeira das alfinetadas do diretor-roteirista, que lança mão de toda a sutileza quando insinua que essa família parece ensimesmada demais, absorta em seus apanágios e planos. Quem melhor encarna a harmonia serena do clã é Tyler, um atleta de luta greco-romana que namora Alexis, uma garota latina, e tudo leva a crer que, no momento certo, eles também irão casar e ser pais maravilhosos. Shults ancora boa parte do enredo em Tyler e Alexis, e Kelvin Harrison Jr. e Alexa Demie dão aos personagens a substância necessária para que o público entenda o motivo do filme mudar tanto no terceiro ato. É como se o mar secasse e renascesse para, então, arrastar o que encontra diante de si.


Filme: As Ondas
Diretor: Trey Edward Shults
Ano: 2019
Gênero: Coming-of-age/Drama/Romance
Avaliação: 4.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

Leia Também