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Por mais que faça, o homem não contorna sua própria sorte. Talvez, graças ao avanço da medicina, seja capaz de livrar-se de uma ou outra pedra ao longo da viagem, mas chega uma hora em que o infortúnio fica tão dono das circunstâncias que viver parece tornar-se pouco mais que uma birra, e a força que resta obedece a um movimento dialético, submergindo e tornando a aparecer não se sabe até quando, como se num jogo perverso. Ninguém escapa da vida, como se assiste em “A Boa Metade”, uma trama arejada, na qual o humor presta-se a fustigar os costumes enquanto planta dúvidas sobre o quão feliz alguém pode ser, a despeito dos privilégios mais vulgares de que desfrute. Robert Schwartzman desvia do politicamente correto dizendo verdades óbvias e inspirando discussões honestas e cheias de revelações sobre um tema espinhoso. O resultado chega a surpreender.

A dor de crescer depois da despedida

Existem pessoas que atravessam a vida a sentir as dores do crescimento, fenômeno que tem mesmo fundo científico, mas que deveria perdurar apenas até a cessação da puberdade. Renn Wheeland é uma dessas pessoas, como esclarece o roteiro de Brett Ryland, com razão. Há algum tempo, Renn trocara Cleveland, sua cidade natal, por Los Angeles atrás do sonho de trabalhar como roteirista, mas uma ou outra traulitada fizeram-no repensar suas intenções. Nenhuma delas, claro, foi maior que a morte da mãe, Lily, e uma cena particularmente tocante na introdução mostra quão ligados eles eram. Schwartzman encadeia flashbacks nos quais Renn e Lily aparecem em momentos distintos, inclusive no descontraído jantar em que ela reúne a família, incluindo o marido e o ex-marido, para dizer que tem câncer, e é proibido chorar. Quando a narrativa avança, Renn, a irmã, Leigh, e o padrasto deles, Rick, estão numa funerária escolhendo o caixão como alguém escolhe um cacho de bananas na feira, até que o caçula se lembra da expressão que Lily lhe havia ensinado, YOLO, e tudo fica menos penoso. Constatações tolas como a de que só se vive uma vez ganham um novo significado, e os personagens refletem acerca do que Lily quis ser para cada um. A química entre Elisabeth Shue e Nick Jonas sustenta boa parte do filme, mas é impossível não se entusiasmar com Brittany Snow e Alexandra Shipp na pele de Zoey Abbot, aspiração romântica gorada de Renn, anti-herói tão hermético quanto adorável.


Filme: A Boa Metade
Diretor: Robert Schwartzman
Ano: 2023
Gênero: Comédia/Coming-of-age/Drama
Avaliação: 4/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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