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Kabeto entra no táxi já meio derrotado, mas ainda disposto a colaborar com o desastre. A noite oferece aquilo que, para ele, ainda parece uma chance razoável de salvação: Mina ao lado, ex-namorada rebaixada ou promovida, depende do cinismo de quem olha, a parceira sexual; um iPhone aceso; um pino de cocaína sendo administrado com alguma cerimônia; e a promessa de uma suruba em Higienópolis. Fora do carro, São Paulo está presa no ano de 2013, entre trânsito, manifestações, buzinas, panelaços e aquela irritação diária que sobe do asfalto. Dentro, um escritor cinquentão, bêbado, vaidoso, com reunião marcada para as 10h da manhã, ainda tenta acreditar que o corpo vai entregar algum tipo de glória antes do expediente.

Noitada”, novo romance de Reinaldo Moraes publicado pela Todavia, passa de 450 páginas e tem uma estrutura simples, quase teatral, embora nada ali se comporte com muita disciplina. Primeiro, o táxi leva Kabeto e Mina até o apartamento de Audra, atriz ruiva, lituana da Vila Zelina, ligada ao teatro, ao pó, ao gim e a uma desenvoltura sexual que bagunça a cabeça do protagonista antes mesmo de aparecer por inteiro. Depois, o livro se entrincheira nesse apartamento de Higienópolis, entre champanhe rosé, conversa pornográfica, vídeos de uma montagem libertina do grupo Covil e a espera por uma terceira mulher. Por fim, a madrugada escorre para a kitinete de Kabeto, na Roosevelt, onde a excitação já vem misturada a pânico, cansaço, lombalgia e ao canto dos sabiás-laranjeira, esses fiscais insuportáveis do amanhecer.

Noitada
Noitada, de Reinaldo Moraes (Todavia, 464 páginas)

Moraes nasceu em São Paulo, em 1950, e construiu sua reputação quase mítica com “Tanto Faz”, de 1981, lançado pela Brasiliense no projeto Cantadas Literárias. Mas foi com “Pornopopeia”, de 2009, que se tornou definitivamente objeto de culto. Em “Noitada”, ele volta ao território em que se move melhor, o da fala masculina em combustão, da digressão de bar, do palavrão usado como vírgula, do sujeito que transforma qualquer assunto em performance. Boteco, editora, apartamento de classe média alta, teatro alternativo, quarto desarrumado. Tudo entra. O livro é o romance de uma noite só, mas sua matéria é a longa decadência de um tipo de homem que envelheceu sem abandonar o status de predador verbal.

O narrador é o principal acontecimento. Kabeto pensa em ondas, e cada onda carrega sexo, literatura, rancor, música, política, memória editorial, piada ruim, erudição torta, medo da velhice e cálculo frio do próprio desempenho. Moraes acompanha esse movimento sem tentar higienizá-lo. A cabeça de Kabeto salta, volta, se contradiz, se excita, se ofende, lembra de um livro recém-concluído, repara no taxista, se irrita com o smartphone de Mina, ouve a rua e arrasta tudo para dentro da mesma torrente. No táxi, sobretudo, o romance encontra algumas de suas páginas mais vivas. A embriaguez ali não vira neblina; vira sintaxe. Uma ideia esbarra na outra, o desejo fica atravessado por vaidade, e a libido, quando começa a se imaginar pensamento filosófico, acaba falando como habitué de balcão.

São Paulo, nesse livro, não está ali para decorar. A cidade atrapalha. Demora. Buzina. Congela. Encarece a corrida. Separa o bar da cama prometida. O Edifício Bretagne, as ladeiras de Higienópolis, a Roosevelt, a Consolação, a memória de inferninhos e editoras desenham uma geografia reconhecível, mas nada turística. Moraes trata cada deslocamento como um pequeno castigo. Ir de um lugar a outro nunca é neutro; sempre muda a temperatura moral da cena. No apartamento de Audra, o luxo meio kitsch, a vitrola, o Buda gordo, a telona e o champanhe introduzem a diferença de classe. Na kitinete de Kabeto, o lençol sujo, o aquecedor pobre e a pia que serve para louça e para o resto fazem a conta chegar sem precisar chamar o sociólogo para explicar o estrago.

O sexo ocupa espaço enorme, às vezes espaço demais, mas, em se tratando de Moraes, talvez esse demais não exista, ou nunca tenha existido. Ele descreve corpos, fluidos, falhas, posições, próteses, fantasias e pudores com uma mistura de comicidade fisiológica e desprezo ao bom gosto. Quando funciona, e quase sempre funciona, a obscenidade revela o ridículo dos personagens. Kabeto quer parecer livre, mas tropeça em ciúme, medo anal, machismo, culpa paterna e vaidade de escritor. Mina e Audra, mais jovens e mais rápidas, desmontam sua pose, embora também sejam filtradas pelo olhar dele, esse olhar que tudo deseja e tudo transforma em comentário. A diferença geracional dá faísca ao romance. O cinquentão que se julga experiente descobre, repetidas vezes, que a experiência também caduca.

Há momentos em que Moraes estica a piada, volta à enumeração escatológica e prolonga uma cena sexual até a página começar a pesar na mão. Mas esse excesso não chega como defeito externo ao livro. Ele nasce da própria aposta de “Noitada”, dessa prosa que prefere avançar por acúmulo, insistência e pela graça suja das coisas levadas um pouco além do aceitável. Um pouco além, aliás, costuma ser o endereço natural de Moraes.

A virada familiar que atravessa o segundo movimento muda o tom da narrativa. A comédia pornográfica ganha contornos de ferida, com paternidade negligente, abandono, vergonha, um laço de sangue que Kabeto preferiu transformar em nota de rodapé. Moraes não abandona o riso, mas deixa entrar um frio desconcertante, que não chega a destoar, embora altere o ritmo. O melhor dessa parte está menos no susto da revelação do que no mal-estar que ela instala depois. A falação pornográfica de Kabeto começa a parecer também uma técnica de fuga. Enquanto comenta, enumera, exagera, interpreta e faz graça, ele adia a pergunta mais simples, que é também a pior: o que fez da própria vida?

“Noitada”, como praticamente toda a obra de Reinaldo Moraes, é para o leitor que aceita dividir a sala com personagens inconvenientes, narradores moralmente avariados e uma linguagem em estado de embriaguez (quase) controlada. Quem procura elegância, personagens exemplares ou erotismo com luz baixa e lençol passado vai sofrer, e talvez mereça um pouco. O humor nasce do excesso; a inteligência, da sujeira; o risco, da crença de que a desmedida, quando tem ritmo, pode sustentar quase tudo.

Na madrugada final, já quebrado de corpo, Kabeto tenta dormir enquanto Mina lhe oferece uma espécie de massagem imprópria e Audra some no banheiro. Do lado de fora, os sabiás começam a tomar a cidade; dentro da kitinete, o homem que passou a noite falando, gozando, fugindo e interpretando tudo já não consegue mover direito a própria carcaça. A cena não precisa explicar nada. Basta aquele corpo cansado, a dor na lombar, a fanfarra verbal reduzida a mau jeito físico e uma porta de banheiro que se abre outra vez.

Talvez “Noitada” não supere “Pornopopeia”. Mas chega perto o bastante para tornar a comparação inevitável.

Carlos Willian Leite

Jornalista com atuação em cultura e enojornalismo. Escreve sobre vinhos, livros, audiovisual e streaming. É sócio da Eureka Comunicação e fundador da Bula Livros.

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