Em 2023, o diretor argentino Demián Rugna levou o terror “O Mal que Nos Habita” para uma cidade rural tomada por uma ameaça demoníaca prestes a nascer, onde dois irmãos tentam salvar a família antes que a contaminação alcance todos ao redor. A premissa parece simples, mas o filme trabalha com uma maldade difícil de cercar. Ela entra pela fazenda, passa pelos animais, chega às casas e transforma qualquer plano de fuga em uma aposta arriscada.
O enredo acompanha Pedro Yazurlo, vivido por Ezequiel Rodríguez, e Jimi, interpretado por Demián Salomón. Os dois moram em uma região isolada e escutam tiros durante a noite. Em vez de aceitar o som como mais um incômodo do campo, eles saem para procurar a origem do barulho. A investigação dos irmãos leva a um corpo mutilado e, em seguida, a uma casa onde Uriel, um homem infectado por uma presença demoníaca, apodrece à espera de algo pior. A partir desse momento, a vida naquela comunidade deixa de ter rotina e passa a ter prazo.
Demián Rugna não trata a possessão como um espetáculo religioso comum, com padre, crucifixo e sermão bem colocado. Em “O Mal que Nos Habita”, o problema parece mais sujo, mais físico e mais próximo da vida doméstica. O mal tem cheiro de quarto fechado, de estrada de terra, de família acuada e de gente tentando resolver uma tragédia com ferramentas erradas. Há regras para lidar com a ameaça, mas quase ninguém conhece essas regras a tempo. E, quando alguém aprende, já existe uma conta alta demais sobre a mesa.
O corpo que ninguém quer por perto
Pedro e Jimi chegam até María Elena, interpretada por Isabel Quinteros, e descobrem que Uriel está no centro da ameaça. Ele é chamado de “encarnado”, uma espécie de hospedeiro de uma força demoníaca em processo de nascimento. A palavra, dentro do filme, tem peso de sentença. Não se trata de alguém simplesmente doente, nem de um caso que possa ser empurrado para a polícia local. É um risco vivo, parado dentro de uma casa, esperando a hora de piorar.
Armando Ruiz, vivido por Luis Ziembrowski, representa bem a reação de quem prefere tirar o problema da própria propriedade a lidar com suas causas. Ele quer que Uriel seja levado para longe, e Pedro e Jimi acabam envolvidos nessa remoção. O gesto tem aparência de solução, mas logo passa a soar como erro de manual. Ninguém ali parece ter recebido um folheto com instruções básicas do apocalipse doméstico, e a pressa faz o perigo mudar de endereço.
É nesse ponto que “O Mal que Nos Habita” cresce como terror. Rugna não depende apenas do susto. Ele cria tensão porque cada atitude dos personagens tem um custo. Tirar Uriel de um lugar não encerra a ameaça. Entrar em uma casa não garante abrigo. Levar uma criança para longe não significa proteção. O filme avança por decisões humanas muito reconhecíveis, tomadas por pessoas cansadas, assustadas e mal informadas. O medo não nasce só do demônio, mas da falta de tempo para pensar.
A família vira alvo
Pedro, mais impulsivo e desesperado, tenta proteger os filhos. Ele procura Sabrina, interpretada por Virginia Garófalo, sua ex-mulher, para tirar Santino, vivido por Marcelo Michinaux, e Jair, interpretado por Emilio Vodanovich, do caminho da ameaça. A ida até a casa dela deixa o enredo mais íntimo, porque o terror sai da fazenda e entra na estrutura familiar. O que era uma desgraça aparentemente distante passa a bater na porta de quem Pedro mais deseja manter vivo.
Ezequiel Rodríguez dá a Pedro uma energia nervosa, quase bruta. Ele age antes de ordenar as ideias, fala com urgência e comete erros porque acredita que estar presente basta para proteger alguém. Demián Salomón faz de Jimi uma figura menos ruidosa, mas igualmente assustada. Entre os dois, há uma fraternidade marcada por afeto e irritação, daquelas em que ninguém precisa dizer muita coisa para o outro saber que a situação saiu do controle. É um vínculo de irmãos, portanto cheio de lealdade e pequenas impaciências.
O terror de Rugna funciona melhor quando encosta nessa lógica familiar. Pedro quer salvar os filhos, mas cada deslocamento pode aproximá-los daquilo que ele tenta afastar. Jimi tenta ajudar, mas também está preso a escolhas feitas tarde demais. Sabrina, por sua vez, não aparece apenas como peça da vida passada de Pedro. Ela é parte de uma casa em disputa, onde confiança, medo e cuidado precisam caber no mesmo cômodo. Nada ali é confortável, e o filme não faz muita cerimônia antes de piorar o dia de todos.
As regras chegam tarde
Mirtha, personagem de Silvina Sabater, surge como alguém que conhece o funcionamento daquela ameaça. Ela sabe que existem palavras, atitudes e procedimentos capazes de piorar tudo. Sua presença muda o ritmo da história porque introduz alguma ordem em meio ao caos. Ainda assim, essa ordem vem atrasada. Quando Mirtha entra em cena com firmeza, Pedro e Jimi já carregam perdas, dúvidas e decisões feitas na base do pânico.
Silvina Sabater dá a Mirtha uma secura interessante. Ela não chega para consolar ninguém, tampouco para transformar a história em aula sobre demônios. Sua função é apontar o que pode ou não ser feito enquanto ainda existe chance. Isso torna o horror mais cruel. O espectador percebe que havia um modo correto de lidar com o mal, mas os personagens passaram boa parte do tempo tentando sobreviver sem saber o básico. É o tipo de informação que, em um filme desses, costuma chegar junto com a fatura.
A direção de Demián Rugna valoriza essa sensação de atraso. A câmera não precisa explicar tudo. Muitas vezes, ela deixa o espectador completar o que aconteceu fora de quadro. A montagem corta a espera no ponto certo, segura certas imagens por tempo suficiente e faz a violência parecer consequência de uma falha anterior. “O Mal que Nos Habita” não trata o horror como enfeite. Ele aparece ligado a uma escolha, a uma demora, a uma porta aberta, a um corpo removido ou a uma criança colocada em risco.
O medo corre pela estrada
O grande mérito de “O Mal que Nos Habita” está em transformar uma fuga em contaminação. Pedro e Jimi querem afastar o mal, mas o deslocamento espalha a ameaça pela comunidade. A estrada, que deveria representar saída, passa a funcionar como passagem para novas tragédias. As casas, que deveriam guardar famílias, ficam frágeis. Os adultos, que deveriam proteger as crianças, descobrem que afeto não basta quando as regras chegam tarde.
Demián Rugna constrói um terror de campo aberto, sem conforto espiritual e sem autoridade confiável por perto. A polícia parece pequena demais para o tamanho do problema. A família está emocionalmente desarmada. Os vizinhos preferem distância. Essa soma dá ao filme uma força particular dentro do gênero, porque a possessão deixa de ser um caso isolado em um quarto e vira emergência coletiva. O demônio ainda nem nasceu por completo, mas todos já vivem sob suas consequências.
“O Mal que Nos Habita” é um terror violento, áspero e pouco interessado em aliviar a plateia. Não há graça no sofrimento dos personagens, mas existe uma ironia amarga na forma como cada tentativa de conserto cria outra rachadura. Pedro corre para proteger os filhos, Jimi tenta acompanhar o irmão, Mirtha tenta impor regras e a comunidade tenta se livrar do incômodo. O problema é que o mal já aprendeu a circular antes que alguém consiga fechar a porteira.

