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Lançado em 2003, o drama grego “O Tempero da Vida”, dirigido por Tassos Boulmetis, acompanha Fanis Iakovidis (Georges Corraface), um professor de astrofísica que vive em Atenas e volta a Istambul depois de três décadas para visitar o avô doente. A viagem, porém, não é apenas familiar. Ela reabre a infância do protagonista, marcada pelo afeto, pelos temperos, pelo primeiro amor e pela expulsão da comunidade greco-ortodoxa de Constantinopla nos anos 1960.

Fanis Iakovidis (Georges Corraface) é um homem maduro, professor respeitado e dono de uma calma um tanto melancólica. Quando recebe a notícia de que o avô Vassilis (Tassos Bandis) está doente, ele deixa Atenas e volta a Istambul, cidade onde nasceu e de onde saiu ainda criança. A casa abandonada, as ruas antigas e a lembrança do armazém de especiarias devolvem ao personagem um passado que parecia guardado em algum canto da memória, mas nunca esteve realmente quieto.

“O Tempero da Vida” começa nesse movimento de retorno, mas logo revela que Fanis carrega mais do que saudade. Ele foi arrancado de sua cidade durante a expulsão de gregos ortodoxos de Constantinopla, entre 1964 e 1965, período que separou famílias, fechou negócios e desfez rotinas construídas por gerações. A viagem ao encontro do avô coloca o protagonista diante de uma pergunta simples, embora dolorosa. O que resta de uma pessoa quando o lugar onde ela aprendeu a existir deixa de lhe pertencer?

O filme responde a essa questão pelo caminho da comida. Ainda menino, Fanis (Markos Osse) aprende com Vassilis que os temperos servem para muito mais do que dar gosto aos pratos. No armazém do avô, canela, pimenta, cominho e sal viram uma espécie de mapa afetivo. Vassilis apresenta o mundo ao neto com uma sabedoria de balcão, dessas que misturam ciência, brincadeira e conselho de família. É uma pedagogia saborosa, de quem ensina astronomia sem perder de vista a panela.

A infância no armazém

O jovem Fanis cresce cercado por aromas, panelas e conversas de adultos que nem sempre chegam inteiras aos ouvidos de uma criança. Ao lado do avô, ele aprende que cada ingrediente muda uma receita e que cada gesto à mesa pode aproximar ou afastar pessoas. A cozinha, para ele, vira uma linguagem. Antes mesmo de saber explicar o que sente, o menino percebe que preparar comida é uma forma de pedir atenção, oferecer carinho e tentar manter alguém por perto.

É nesse período que ele conhece Saime, vivida na fase adulta por Başak Köklükaya. A menina entra na memória de Fanis ligada ao primeiro afeto, à curiosidade e à descoberta de um mundo maior do que a família. A relação entre os dois nasce com delicadeza, sem grandes declarações, sustentada por pequenos encontros e pela cumplicidade própria da infância. O filme acerta ao tratar esse vínculo sem açúcar demais. Há ternura, mas também existe o peso de uma cidade prestes a separar destinos que mal começaram.

A expulsão da família muda tudo. Savas Iakovidis (Ieroklis Michaelidis), pai de Fanis, e Soultana Iakovidou (Renia Louizidou), sua mãe, precisam partir para a Grécia com o filho. Vassilis permanece em Istambul, preso à loja, às lembranças e ao lugar que definiu sua vida. Para Fanis, a mudança tem o tamanho de uma fratura. Ele deixa para trás o avô, Saime, o armazém e a sensação de pertencimento. Em Atenas, passa a viver em outro país, mas sem conseguir abandonar a cidade que ficou para trás.

A comida guarda o que falta

Na fase adulta, Fanis transforma essa herança em hábito. Mesmo tendo seguido carreira na astrofísica, ele continua ligado à cozinha. Prepara pratos, reúne pessoas e tenta reproduzir os sabores que aprendeu com Vassilis. A gastronomia não surge apenas como talento ou passatempo. Ela é a maneira que o personagem encontra para tocar um passado que não pode ser recuperado por completo. Quando ele cozinha, tenta refazer laços que a política, a distância e o tempo cortaram sem pedir licença.

Georges Corraface interpreta Fanis com uma contenção elegante. Seu personagem não é um homem dado a grandes rompantes, mas também não parece frio. Ele observa, lembra, pesa palavras e deixa que os gestos revelem o que a fala não resolve. Há uma tristeza discreta em seu retorno a Istambul, mas também uma curiosidade quase infantil. Ele volta adulto, grisalho e professor, porém basta uma lembrança do avô para que o menino do armazém reapareça por alguns segundos.

Tassos Bandis, como Vassilis, dá ao filme uma de suas presenças mais carismáticas. O avô é mentor, comerciante, contador de histórias e cozinheiro de afetos. Sua relação com Fanis sustenta a parte mais calorosa da narrativa. Ele ensina sem pose de sábio inalcançável, e isso ajuda o filme a escapar da solenidade. Vassilis fala de temperos, planetas e sentimentos com a naturalidade de quem sabe que uma boa refeição pode dizer mais do que uma reunião de família inteira.

Entre Atenas e Istambul

A direção de Tassos Boulmetis trabalha com idas e vindas entre passado e presente, sempre acompanhando a memória de Fanis. Essa estrutura deixa a história mais envolvente, porque o espectador descobre aos poucos o que foi perdido. A infância em Istambul ganha cores, cheiros e movimento, enquanto a vida adulta em Atenas aparece marcada por um vazio silencioso. A diferença entre os dois tempos ajuda a perceber o tamanho do corte sofrido pelo personagem.

O mérito de “O Tempero da Vida” está em tratar uma experiência histórica dura sem transformar seus personagens em porta-vozes de uma aula. A expulsão dos gregos de Constantinopla aparece pelo efeito que causa na família, no armazém, nos documentos, nas despedidas e nos anos de ausência. O filme não precisa explicar demais para que a dor seja sentida. Basta acompanhar Fanis tentando voltar ao lugar onde cresceu para notar que algumas perdas continuam cobrando presença décadas depois.

Também há leveza. Ela surge nas relações familiares, no jeito meio atrapalhado com que a comida atravessa conversas e na estranheza de um menino que parece levar a cozinha mais a sério do que muitos adultos ao redor. Essa graça é importante porque impede que a história pese sempre do mesmo modo. A comida aproxima, provoca, consola e, às vezes, cria pequenos constrangimentos. Quem nunca depositou expectativas demais em uma receita de família talvez nunca tenha enfrentado uma mesa cheia em data comemorativa.

Uma memória com sabor de casa

“O Tempero da Vida” é uma crítica sensível à perda de raízes e, ao mesmo tempo, uma celebração daquilo que resiste nos hábitos mais simples. O filme fala de exílio sem abandonar o cotidiano. Fala de amor sem transformar tudo em romance. Fala de família sem fingir que afeto resolve uma separação imposta pela história. Seu encanto está nessa combinação de delicadeza, dor e comida bem temperada.

Ao voltar a Istambul, Fanis não procura apenas o avô doente. Ele procura uma versão de si mesmo que ficou suspensa entre duas cidades. O encontro com o passado não apaga o que aconteceu, mas permite que ele reconheça a origem de suas escolhas. A cozinha, antes lembrança de infância, vira ponte possível entre o que foi perdido e o que ainda pode ser dito. Quando Fanis se aproxima novamente de Vassilis, a história ganha sua nota mais bonita. Às vezes, uma visita atrasada ainda consegue chegar a tempo de acender o fogão.


Filme: O Tempero da Vida
Diretor: Tassos Boulmetis
Ano: 2003
Gênero: Drama
Avaliação: 4/5 1 1
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

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