Quando chegou aos cinemas em 2025, “Eu Sou Frankelda” trouxe uma proposta rara para a animação contemporânea. Dirigido pelos irmãos Arturo Ambriz e Roy Ambriz, o longa mexicano mistura fantasia, horror e aventura familiar para contar a história de uma escritora que acaba aprisionada dentro da própria imaginação. Em uma época em que o gênero costuma apostar em fórmulas conhecidas, a produção escolhe um caminho mais autoral e emocional, sem abandonar o espírito de diversão que acompanha uma boa história fantástica.
A protagonista é Frankelda, interpretada por Assira Abbate. Ela vive no México do século 19 e sonha em ser reconhecida como escritora de histórias de terror. O problema é que seu talento encontra resistência em um ambiente que não vê com bons olhos uma mulher dedicada a narrativas sombrias. Enquanto tenta fazer sua voz ser ouvida, ela carrega a frustração de ver seus textos ignorados e sua criatividade confinada a um espaço cada vez menor.
Tudo muda quando Frankelda atravessa uma fronteira inesperada e passa a existir como um fantasma dentro do Reino da Ficção. Esse lugar extraordinário abriga os Spooks, criaturas monstruosas que nasceram diretamente de suas histórias. O que antes existia apenas no papel agora possui forma, personalidade e desejos próprios. A viagem deixa de ser apenas uma aventura fantástica e passa a representar uma oportunidade para que a escritora encare as consequências de tudo o que criou.
Um reino povoado por criaturas esquecidas
Logo que chega ao novo mundo, Frankelda recebe a companhia de Herneval, personagem interpretado por Arturo Ambriz. Conhecido como o Príncipe dos Espiões, ele assume a função de guia e apresenta à visitante os diferentes cantos daquele universo. Herneval não procura Frankelda por acaso. O reino atravessa uma situação delicada e depende da criatividade da autora para preservar o equilíbrio entre o Reino da Ficção e o Reino da Existência.
Essa premissa funciona porque coloca a protagonista em uma posição curiosa. Ela é, ao mesmo tempo, criadora e visitante. Conhece aquelas criaturas porque as inventou, mas também percebe que elas ganharam autonomia. Algumas demonstram admiração por sua autora. Outras guardam ressentimentos. Todas exigem atenção.
O roteiro encontra aí uma fonte constante de interesse. Em vez de transformar os monstros em simples obstáculos, a narrativa oferece espaço para que eles tenham identidade própria. O resultado é um universo povoado por figuras estranhas, assustadoras em alguns momentos, mas frequentemente simpáticas e até vulneráveis.
Fantasia com sabor de conto gótico
A influência dos contos clássicos de fantasia e horror aparece em praticamente todos os cenários. Castelos, corredores escuros, florestas misteriosas e criaturas de aparência peculiar ajudam a construir uma atmosfera que remete aos livros ilustrados e às histórias contadas antes de dormir.
Ao mesmo tempo, “Eu Sou Frankelda” preserva uma sensibilidade familiar que impede o terror de se tornar excessivamente pesado. Existem passagens sombrias e situações que carregam certa tensão, mas o filme sempre mantém um equilíbrio acessível para públicos de diferentes idades.
Essa combinação funciona particularmente bem porque o medo nunca é tratado apenas como ameaça. Muitas vezes ele surge ligado à curiosidade, à imaginação e ao desconhecido. Os monstros podem assustar à primeira vista, porém frequentemente revelam camadas mais complexas quando passam a interagir com Frankelda.
A força da criação artística
Existe uma dimensão bastante humana na jornada da protagonista. Frankelda quer ser reconhecida como autora, mas também busca compreender seu próprio papel diante das histórias que inventou. O filme utiliza a fantasia para discutir temas ligados à criatividade, pertencimento e identidade sem transformar essas questões em discursos excessivamente explicativos.
A presença de personagens interpretados por Anahí Allué e Arturo Ambriz ajuda a enriquecer esse percurso. Cada encontro acrescenta novas perspectivas sobre aquele universo e reforça a ideia de que a imaginação possui consequências que ultrapassam a simples escrita de uma página.
Outro mérito está na forma como a narrativa respeita o público infantil. O longa acredita na inteligência de quem assiste e permite que certas emoções sejam percebidas por meio das ações dos personagens. Há tristeza, esperança, medo e encantamento convivendo dentro da mesma história.
Uma animação que celebra os contadores de histórias
Boa parte do charme de “Eu Sou Frankelda” nasce da maneira como o filme observa o ato de criar. Frankelda passa boa parte da trama tentando provar seu valor para os outros, mas descobre que suas histórias já possuem significado para aqueles que nasceram delas.
Essa ideia poderia facilmente cair em sentimentalismo, mas os diretores Arturo Ambriz e Roy Ambriz mantêm os pés no chão. A aventura avança sempre por meio de objetivos concretos, perigos reais e personagens que precisam tomar decisões importantes para seguir em frente.
A animação é elegante, inventiva e repleta de personalidade. Entre monstros, fantasmas e reinos fantásticos, “Eu Sou Frankelda” constrói uma celebração da imaginação sem perder de vista a humanidade de sua protagonista. É uma obra que conversa com crianças fascinadas por criaturas estranhas e também com adultos que, em algum momento da vida, precisaram defender seus sonhos diante de quem acreditava que eles eram impossíveis.

